Desalmada com fuzil
Pra invadir a calçada
Pegou descalça
A normalidade falsa
De comunidades abandonadas
Não é que não tem gente
É que essa gente não conta
Quando a mira aponta
Qualquer que seja a contagem
O argumento desmonta
Que foi algo diferente
Não foi!
Não mudou o formato
Não mudou o retrato
Nem o alvo mudou
Muda-se o endereço
Não muda o desapreço
Com que o Estado tratou
É geralmente como ele trata
Matar na favela é a bala de prata
Para quem neles vota
Cancela-se o CPF
Nunca o CNPJ
Que tem assinatura
Legenda e legislatura
Só não assina a nota
O chefe que deu o aval
Para que o gatilho policial
Subisse a Penha e o Alemão
Não levou em consideração
Que o que chamaram de megaoperação
Trouxe mais corpos que fuzis
Não pode ser natural
A morte ser tão banal
A morte ser tão banal
E dependendo do autor e da cor
São dois ou mais rostos de Brasis
Pra ter tantas palmas quanto balas
Essa conta não condiz
Que a vida isso, a vida aquilo
Não bate com nossas falas
Pro Estado do Rio é a quilo
Que são vendidas, distribuídas
Vidas ceifadas nas armas
Armas que no RJ não são fabricadas
Imagina a 12 ou AK cariocas da gema
Nem vem escrito made in Rio
Made in Morro, dá pra rastrear no sistema
Nem as drogas são ali preparadas
Pela lei, no RJ também são proibidas
Como não compensa ficalizá-las
Já que o preço são vidas
Tudo continua como na semana passada
Só mudar o jovem e a arma empunhada
Daqui uns dias, a dor geral se despede
Nada mais se faz
Quem perdeu alguém, perdeu
Fica o Castr... opa, o rastro de tudo que aconteceu
A falsa sensação de paz
Das belezas naturais
Da cidade maravilhosa
Lema que tanto se vangloria
Até logo mais, em outro dia,
Tudo recomeça
Sem ensaio de cena,
Se encena a mesma peça
Mesmo texto
E com pretexto de combate ao crime
O governador define
Foi um sucesso a ação
Da omissão que pouco se diz
Por mais que o morador apele
A dor que vai pro mundo legendada
Aqui, leva a legenda do PL
Só que é dificilmente assimilada
Eu nem consigo explicar
Só lamentar pelo Rio
Que já rendeu tanta poesia
Nessa, não rima janeiro, fevereiro e março
28 de outubro deixou outro verso, outro traço
Um dia, acima de tudo, sangrento
Já pensou se o Cristo Redentor
Com seus estendidos braços
Deixasse o Rio menos violento
Sob o sol, tanto corpo empilhado
Não dá pra culpá-lo do fracasso
Se o passo não muda faz tempo

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