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terça-feira, novembro 18, 2025

Armas made in Rio

Minha visão anda tão fria
Só que esses dias
A dor que assolou o Rio
Cruzou esse meio fio 
Desalmada com fuzil
Pra invadir a calçada
Pegou descalça
A normalidade falsa
De comunidades abandonadas

Não é que não tem gente
É que essa gente não conta
Quando a mira aponta
Qualquer que seja a contagem
O argumento desmonta
Que foi algo diferente

Não foi!

Não mudou o formato
Não mudou o retrato
Nem o alvo mudou 
Muda-se o endereço
Não muda o desapreço 
Com que o Estado tratou

É geralmente como ele trata
Matar na favela é a bala de prata
Para quem neles vota
Cancela-se o CPF
Nunca o CNPJ
Que tem assinatura
Legenda e legislatura
Só não assina a nota

O chefe que deu o aval
Para que o gatilho policial
Subisse a Penha e o Alemão
Não levou em consideração
Que o que chamaram de megaoperação
Trouxe mais corpos que fuzis
Não pode ser natural
A morte ser tão banal
E dependendo do autor e da cor
São dois ou mais rostos de Brasis

Pra ter tantas palmas quanto balas
Essa conta não condiz
Que a vida isso, a vida aquilo
Não bate com nossas falas
Pro Estado do Rio é a quilo
Que são vendidas, distribuídas
Vidas ceifadas nas armas

Armas que no RJ não são fabricadas
Imagina a 12 ou AK cariocas da gema
Nem vem escrito made in Rio
Made in Morro, dá pra rastrear no sistema
Nem as drogas são ali preparadas
Pela lei, no RJ também são proibidas
Como não compensa ficalizá-las
Já que o preço são vidas
Tudo continua como na semana passada
Só mudar o jovem e a arma empunhada

Daqui uns dias, a dor geral se despede
Nada mais se faz
Quem perdeu alguém, perdeu
Fica o Castr... opa, o rastro de tudo que aconteceu
A falsa sensação de paz
Das belezas naturais
Da cidade maravilhosa
Lema que tanto se vangloria
Até logo mais, em outro dia, 
Tudo recomeça
Sem ensaio de cena, 
Se encena a mesma peça

Mesmo texto
E com pretexto de combate ao crime
O governador define
Foi um sucesso a ação

Da omissão que pouco se diz
Por mais que o morador apele
A dor que vai pro mundo legendada
Aqui, leva a legenda do PL
Só que é dificilmente assimilada

Eu nem consigo explicar
Só lamentar pelo Rio
Que já rendeu tanta poesia
Nessa, não rima janeiro, fevereiro e março
28 de outubro deixou outro verso, outro traço
Um dia, acima de tudo, sangrento
Já pensou se o Cristo Redentor
Com seus estendidos braços
Deixasse o Rio menos violento
Sob o sol, tanto corpo empilhado
Não dá pra culpá-lo do fracasso
Se o passo não muda faz tempo

segunda-feira, outubro 07, 2024

A Vida É Um Desequilíbrio

A vida é um desequilíbrio
Um descabido desacato
Descalabro é apelido
Desigual retrato

Era um equilibrista
Sobre um monociclo
No farol pra Autonomistas
O vermelho é o período

Era também malabarista
Girava um bambolê no pé
Embaixadinha, outra arte
Era tanta habilidade
Ainda vendo, não pus fé

O rapaz usava um chapéu
No amarelo se preparava
Fechou, começa o show
Que nenhuma palma escutava

Não sei se se virava nos trinta
Como no quadro da televisão
Não sei se o dia paga os 30
De trocado, mão em mão

A vida é um desequilíbrio, veio a frase
Eu olhando aquele artista
Na Salém Bechara com a Autonomista
Sem que ninguém se revoltasse
Sem que ninguém se perguntasse (ou orasse)
Pra que ele resista

Os temporais vão passar, eu já ouvi
Nesses dias, ele nem pode estar lá
Pode derrapar o pneu, o pino cair
O bambolê ou a bola na Primitiva rolar

Ah, mas, ele poderia estar num circo
Meu amigo, todos estamos e faz tempo
Sem essa de Respeitável Público
A plateia vive em sofrimento

Sem aplausos efusivos
Nem aos palhaços, gargalhada
A risada não tem sentido
Se nossa dor é a piada

A vida é um desequilíbrio
A gente arruma emprego, destrói o emocional
Física e mentalmente comprometidos
Corremos e vibramos positivos
Pra atrair o capital

Aí estabiliza no banco
Tá verdinho no aplicativo
Só que é no vermelho que se soma
Trocas, trocados e a vida truca!
Seis! Cês corre por juízo?
É do jogo o blefe, não a fuga
A vida é um desequilíbrio

quarta-feira, outubro 02, 2024

Acontece Poesia

Pra começar a contar
Não ando mais prevenido
Sempre tinha um caderno na bolsa
Pro caso d’um poema sentido
 
É... sentido... os versos estão aí pelo ar
Quem os enxergar , que canete
Aí peguei a folha na impressora do trampo
Antes que a mente o mote disperse
 
E, pensando agora, nem lembro da última vez
Que botei papel e caneta pra conversar
Faz tempo e é curioso
Parecia que a poesia flutuava em outro lugar
 
A gente não vinha se trombando
E nem é porque eu não queria
Cheguei até pensar que era idade
Naturalidade, ah, o tempo distancia
 
Mas, não era nada disso
De cabeça baixa, o raio é curto
Aí a poesia, mesmo ali em volta
E eu andando outro percurso
 
Sem visão panorâmica, periférica
Não sente nem o cheiro, nem escuta
E poesia tem tudo isso?
Quando te chamam de amor, um aroma de flor
O sabor de uma pele, a língua desfruta
 
Eu andava sem palavras
A todas essas delícias da vida
E esses dias, o que me lembrou de procurá-las
Foi uma bobagem assim percebida
 
Uma mesa pra família tomar café
Me passa a manteiga aí do seu lado
Meu filho, pela irmã acolhido
Amor, traz aquilo do mercado
 
A poesia ficou me lembrando
Dos encontros que sempre tivemos
Do quanto ela me alivia
Da dor desses tempos modernos
 
O buscar um pão é meu carinho
Minha rima traduzida em ato
No dia, a situação corriqueira
Quase nunca se faz retrato
 
Só que ao escrever, eternizo
Do café, o cheiro e a fumaça
O simples dia que amanhece
O dia inteiro acontece
Poesia
Diante dos meus olhos, passa
 
Às vezes, tudo bem, a gente não vê
Esquecido na caneca, o café esfria
Pro céu, nada muda se eu não olhar
O sol nunca será ou foi escuridão
Mesmo quando eu não o via

segunda-feira, maio 06, 2024

Alvenarias e Sentimentos

Desastre, desespero, descuido, descaso
Tudo desapropriado
Pelo tão próprio temporal
Impróprio
Ele cheio de propriedade
Impõe-se a quem não estava a postos
A quem estava posto em documento
E ele sem nem deixar lenços
Decompõe em água
Alvenarias e sentimentos
 
Diz seu nome, o atual estado
Rio Grande, como pode um rio ilhado?
Cercado de... as cercas se arrebentaram
As barragens cederam
As ruas inundaram
Pros telhados, as pessoas correram
E, do alto, não se enxergavam
Geralmente, é assim
De cima, não vemos pessoas
Não encontramos olhares
Só que dessa vez, telhados eram patamares
O nível das águas invadindo lares
A água, essencial à vida,
Tirando a vida de familiares
 
Solidariedade é comum ao brasileiro
Quando algo assim acontece
O que de fato minha alma adoece
É ver que o poder verdadeiro
E sim, eu falo de recurso, de dinheiro
Está com quem pouco se oferece
Fala-se muito em oração e prece
São bem-vindas também
Mas, se antes desse ‘em nome do pai’, desse amém
Humanidade houvesse
As previsões, nada santificadas
Cartas descritas e marcadas
Deveriam ter sido lidas e aplicadas
Seriam vidas protegidas
Mortes não privatizadas
 
As mortes vêm em PPPs
Parcerias público-privadas
Mortos, tanto faz, tanto fez
A culpa é somente das águas
Sim, ela é invasora
Só não é sem aviso
Nem um caso avulso
Ela nos avilta
E, nesse caso, sem volta
A revolta mesmo
É que não será a última
O último desastre
Sem vazão
Morre-se na correnteza
E por mais forte que seja a corrente
De solidariedade, de arrecadação
A razão não se represa
Ela transborda
Nos interesses da empresa
E a família presa
Espera resgate
Jet-skis, helicópteros, qualquer coisa que salve
Que os céus os salve
Que a chuva pare
Que por todos nós seja entendido
Que o céu não está dando castigo
A tempestade não é covarde
Não vem à toa
O temporal não é vingativo
A dor e o pranto que nos ressoa
Tem legendas, cifrões repartidos
Culpado? Tem, pô!
Culpa do tempo? 
Ao mesmo tempo, violento e passivo

sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Meu/ Teu Espelho

Não gosto do que vejo
Meu rosto no espelho
O corpo traz um peso
O rosto também confirma
Que não desejo
 
O olhar tem certo desespero
Corre, visando dinheiro
Faz-se cego para vê-lo
Cego para além do vidro
No papel de espelho
 
A passada é ofegante
Contínua, frustrante
Repetitiva, agoniante
Silenciosa de boca
De alma gritante
 
Teu espelho te agrada o bastante?
Tua imagem, teu semblante
Tua dor sufocante
Tem que esperar
Falar nem sempre é relevante
 
No meu espelho, fico triste em dizer
A imagem que está me obriga ver
Uma versão que eu não queria ter
Uma estrada cansada, esgotada
Dos passos em vão, não do ser
 
Seja o teu ou o meu espelho, a missão é proteger
Da trinca, do azar que a maldição pode abater
Espelhos refletem sonhos que deixamos se esconder
Você, no teu espelho, tua alma te lembra
Reflexo é o que se perde, o que que morreu
E reflexão é o que ousou sobreviver

terça-feira, setembro 05, 2023

Repara Bem

Repara bem
O quanto a gente se vê na escuridão
Não é preferência
Caberia até uma discussão
Filosófica, experimental
Da aparência

Repara bem
O quanto a gente mal se enxerga
Se olha de verdade
Pensa aí: há quanto tempo nem se observa
Dos seus olhos pra dentro
Sua intimidade

Repara bem
O quanto se vê em reflexos do dia
De passagem
Vitrines, janelas em carros ou lataria
Pode até ter desfoque
Mas é sua imagem

Repara bem
O quanto seu olho mesmo desfoca
Sua visão distorce
Ao ponto que nem filtro retoca
Em nenhum grau se vê
Por mais que a vista se force

Repara bem
Reparei pra escrever tudo isso
Era transparente
Eu só me via naquele vidro
Pois era noite
Eu me via em minha frente

De dia,
Não adiantaria eu reparar
Veria o jardim e o que tinha além
Seria bom também de olhar
Mas não veria meus passos
Nem se eu reparasse bem

Ter um "P" de Pelé




Sua pele preta,
sua camisa branca,
Tinham plena sintonia
Com sua companheira
A cada dança
E ela merecia

O escudo no peito
Nas mesmas cores
Fez seu palco uma Vila
Fez tudo primeiro
Lances precursores
Que hoje um craque desfila

Ele parou, no Cosmos.
Uma guerra, adversários
Hoje, parou o Edson
O do CPF, o terráqueo
A Pelé sempre foram postos
Adjetivos extraordinários

Justos! E justo no ano em minutos finais
Quase nos 45 do segundo
A TV volta lá pra 58
O preto e branco do luto
Ocupam todos canais
Emocionam o mundo

Mundo que ele levantou
De azul como a santa
Na mão, nos pés, na cabeça
Camisa amarela ou branca
Em saltos comemorou
Essa imagem que não cansa

Quem cansa de ver gol?
Ainda mais quando é Pelé
Até nos gols que não fez
Sem tocar na bola, olé
Da trave, um vento soprou
Uruguaio apelou pra fé

Teve aquele do círculo central
O Gordon Banks na cabeçada
Todas no México em 70
Pelé eternizou até jogada
Sem grito de gol da geral
De tão magistral
Pelé quem fez a 10 encantada

Entraram mil duzentas e oitenta e duas
Em mil trezentas e sessenta e quatro partidas
Tudo em Pelé é milenar
Mil cento e dezesseis na mesma camisa
Fez a história e cores do Santos, as suas
Fez a histporia do futebol eras distintas

Antes e depois da Majestade
Pelé, adjetivo de referência
Ser o Pelé no que faz
Ser Pelé é a excelência
É transpor a habilidade
Que não se resume à ciência

Compararam os amigos 10
Edson e Diego, Pelé e Maradona
Não era pra haver disputa
Era pra se exaltar a honra
Da bola, que teve o prazer de tocar esses pés
E do céu que os reencontra

Sabe quando se diz que fulano tem um quê?
Que tem algo especial que destoa?
Vamos trocar o Q pelo P? Iria bem nesse caso
P pra perfeito, pra poder, pra pessoa
Se a gente adotasse, aceitasse o tal P
Do Pelé, bastaria o P, fica implícita a coroa. 

quinta-feira, junho 22, 2023

Menos Terra

Tem mais gente e menos Terra
Menos Terra pra gente
Pra Terra, se a gente "já era"
É indiferente
Ela já viveu outras eras
Bem antes de ter gente

8 bilhões espalhados pelo mundo
Hoje, você já agradeceu sua sorte?
De achar alguém que quer junto?
De um amor que vale a morte?

Quando não se ama o que vale a vida
A vida o que vale, então?
8 bilhões, na visão mais positiva
É mais gente pra ajudar na missão

Em um ano pesado como foi
Mais gente são mais braços
Esse número alcançado em (20)22
Com tantos recursos escassos
Só lá na frente bem depois
Veremos avanços e fracassos

O que vem em 2023
Por enquanto, é só esperança
Pode fazer seus rituais, superstições
Tudo que seu sonho alcança
A fé busca opções
Passos de marcha ou de dança
Vão depender dos seus ouvidos
Como escutam as canções



Poesia escrita entre novembro e dezembro de 2022.

Vencemos

Sim, pode sorrir
Livres, libertamo-nos, liberdade
Lutamos pra atingir
Quem nos fez alvo pra ferir
Nossa sanidade

Sofremos pra resistir
À imensurável crueldade
Vendo gente nossa partir
Com eles a consentir
Sem qualquer piedade

Escolhemos o "L" da luta
Contra o "B" da barbárie
Vencemos a desigual disputa
Amigo, comemora, desfruta,
Antes que o outro lado dispare

Esse é o padrão de conduta
Do mau perdedor, repare
Armam-se em covardia absoluta
Só que nossa gente junta
Leva vantagem

Levamos vantagem sim, vencemos
Ganhamos, derrotamos a máquina
Do golpe pra cá, nada tivemos
Até sorrir, desaprendemos
Quase esquecemos
Desesperança trágica

Recuperar o que perdemos
De fé e amor, somos uma fábrica
Ao nosso lugar, voltaremos
Ao seu dispor, não estaremos
E é pra ontem, pra por em prática

Onde nos querem, nós não queremos
Não nos curvaremos ao que oferece
Nenhum passo atrás, não retrocedemos
Comemore, sobrevivemos
Cada um de nós, merece

Foram bilhões, mansões, bolsolões
Ônibus interceptados
Foram assédios pelos patrões
Pro passe livre, precisamos de ações
Pro cidadão ter votado

E derrotado, o lado errado faz manifestações
Contra a democracia, contra a realidade
Em mente vazia, vozes de alucinações
É tanta vergonha, em tantas versões
Que a risada nem é por maldade

Teve o que se pendurou no caminhão
Teve choro no quartel e hino a um pneu
Teve um lado vitorioso na eleição
Ver quem se enxerga no capitão
E é tanta gente que, nem importa
Mesmo ganhando, enquanto gente, a gente perdeu



Poesias escritas em novembro ou dezembro de 2022

quarta-feira, junho 21, 2023

Carta pra Deus

Na moral, Deus, sou espírita, tá ligado?
Acredito em reencarnação, em evolução espiritual
E tem uma frase tipo "moral da história" que espalho aos chegados
Não peça a Deus paciência, virá algo pra elevar o grau
Peça paz ou sabedoriapra encarar os atrasa-lado
Deus, eu tava aqui ouvindo Chico Buarque - Partido Alto
E tô achando que tu tá de sacanagem, na moral

Que porra de provação é essa, é prova pública pra vestibular
A gente tem que debater c'os irmão que não sai lá da sua casa
Que arma não é um bagulho que cê ia aprovar
Que rir dos outros morrendo não orna com sua palavra
Não consigo imaginá-lo na Galileia a peregrinar
Trombando nego doente, com fome e danando a julgar
Também... quer o quê? Tem um monte de filho essa raça
Que multiplicar peixe, vagabundo? Faz tua vara e vai pescar

Na moralzinha, Deus, deu falha na Matrix numas gerações?
Seus filhos fazendo mó fuá aqui, 'cê' num vem?
Se o Senhor visse os culto, do quanto arrecada nas sessões
Mano do céu, de 10 em 10 por cento, de vários quarteirões
Se ouve os gritão de amém.
Tá nível Fuvest a gente manter cabeça boa com essas questões
Deus, quem se diz seu aliado, até seu porta-voz, nem copiou suas lições
E garantem que vão tá contigo aí no além

A gente tá tão louco das ideia que os seus andam defendendo tortura
Imagino que seja um assunto delicado pra Ti, esse tema é sofrido, doído
E aí, nós, de boa, temos que quase desenhar que esse proceder na postura
Matou inclusive o Senhor e mais um monte que nem foi defendido, protegido
Aí os 'matadô', 'torturadô' são condecorados por bravura
Até contexto pra pedofilia, sua turma hoje em dia procura
A gente que lute pra argumentar com sentido, tamo fudido

Deus, vê se salva a próxima safra, qual insumo tá faltando?
Multiplica aí, 'cê' não é o bichão? O 'oni' tudo? E ó, credita os cashback dessa vida
A gente nem tá evitando a fadiga, tá real se desgastando, eu fico me perguntando
Se a cada reencarnação dá uma evoluída, a gente avança e tu castiga?
Ou o ponto de evolução dessa é dar murro em ponta de faca tentando
A gente até tenta falar, só que até o Papa andam xingando
A mão de tanto murro, tá ferida
Deus, se quiser, dá uma força aí e, se for o caso, 
Se não derem uns bicos nela, pede ajuda pra Aparecida.

terça-feira, junho 20, 2023

Cabeça de um Depressivo

"Cê" tem um minutinho pra me ouvir?
Quem dera fosse claro assim, objetivo
A cabeça de um depressivo (em tratamento, quando escrevi; em alta, quando postei)
A gente nem consegue pedir
E, se conseguisse, talvez nem saberia dizer
Um bom lenitivo, escrever
Margens e páginas percorrer
Depois do comprimido

Enquanto os miligramas agem
Meus versos reagem
Não se comprimem por dosagem
E escrevem, escrevem, escrevem,
Diversas vezes se perdem
No caminho, a mensagem
Os papéis envelhecem
Os estros se esquecem
Foi perdida a viagem
Não, a poesia é desfrutar da passagem

Às vezes, não passa,
Vai um tempo
Com farol travado, vermelho
O verde nem ameaça
O amarelo no centro
Desordena o aparelho

Na cabeça de um depressivo
Destrava o gatilho de repente
Acredite, nem sempre é claro o motivo
Nem tudo que dói é na gente
Na cara, não toma a frente
Por dentro, um ódio agressivo

Invasivo também cabe à definição
Acolhimento é outra parada, parceiro
Ouvidos que consultam o coração primeiro
Terão sempre predileção
Já que leu ou ouviu esse apelo inteiro
Pensa um pouco nisso e obrigado da atenção.

Sorriso Sem Clique

Tem frase dita sem pretensão
Que provoca reflexão
É difícil expressar felicidade
Mais fácil a dor ter expressão
Ela parece ter mais necessidade

Se felizes, podemos sorrir
Gritar, pular, dançar
Mas traduzir com propriedade
No escrever e falar
Tem outra dificuldade

Já a tristeza
Transborda adjetivos
Advérbios, metáforas
Versos contínuos
Rimas, mágoas

Já reparou em quais momentos
Nem foto você tirou?
Lembra aí o sentimento...
Daquele instante...
Alguém 'printou'?
O clique não era importante
Só que a imagem marcou

quarta-feira, maio 04, 2022

O Olhar Mais Distante da Turma

Ela tinha um olhar tão distante
Diria até indiferente
Eu falava em sua frente
Ela via outro horizonte

Seu olhar flutuante
Não estava presente
Sem rima suficiente
Pra trazê-la um instante

Era itinerante
Uma leitura nada fluente
Talvez nem o melhor palestrante
Na fala mais convincente
Seria o bastante

Bastante longe aquele olhar
Não sei se carente
De um vazio flagrante
Um silêncio gritante
Tão quanto valente

Era um olhar gigante
Escuros, pretos possivelmente
Eram arregalados constante
Esperavam algo relevante
Poesia é perfumaria
Nunca vista como urgente

Pra sua manga longa, estava quente
De mangas curtas, o restante
Ela não sentia o ambiente
Nem calor, nem verso
Nem uma batida dançante
Àquele olhar disperso 
Nenhuma prosa era atraente
Não achei nada que a encante
Não invadi seu universo
Minha poesia não deu acesso
Deu esse verso como ingresso frustrante


sexta-feira, fevereiro 11, 2022

Enquanto Choro

Escrevo enquanto choro
Choro enquanto escrevo
A qualquer fé, eu imploro
Amenize essa dor no meu peito
Que não encontra termos, nem meio-termo
Que me faça fugir desse modo
Um modo extremo
Com qualquer água, me afogo

Escrevo em meio ao barulho intenso
Aspirador, avião, teclas, notificações
Uma janela de metal em movimento
A colcha da cama, molhada em porções
Nas tristezas, sempre vem à cabeça, canções
"Mas, a minha lágrima o vento seca"
A lágrima que seca com o vento
A causa, que nem sempre tem claras razões
Só desaguam a dor por dentro

Dor que solta o choro preso
Choro que às vezes nem se entende
Choro que se cobre no leito
Ao travesseiro se prende
A fronha não questiona, compreende
A linha do caderno faz o mesmo
Hoje, eu chorei novamente
E novamente chorando, eu escrevo

terça-feira, fevereiro 01, 2022

Por Moïse Kabangabe

Quanto vale o seu dia?
É exatamente isso que eu ‘tô’ perguntando
Quanto vale seu dia?
É... custa quanto?
 
E seu dissesse que seu expediente vale uma vida?
Eu ouviria: como assim? Que exagero...
Pois, eu vivo no Brasil brasileiro
Onde um congolês fez cobrança devida
A grana de 2 dias de lida
Trampando no Rio de Janeiro
 
A cobrança não foi bem recebida
Ali mesmo fizeram o acerto
Espancaram até a morte um corpo preto
Em covardia mais descabida
Eram 5 na mesma batida
Sem prestações
Racismo aqui não é segredo
Ripa de madeira e bastões
15 minutos de agressões
Mataram sem medo
 
Naturalizou-se a tal ponto
Um imigrante morrer espancado
Ainda por cima, amarrado
Por alguns poucos contos
Que o país, mesmo noticiado
Não está em luto pelo rapaz do Congo
Nem se encontra inflamado
Pronto para o confronto
 
E olha que ironia
Quiosque Tropicália
Nem o movimento referencia
Nem o sentimento de um País Tropical
Abençoado por Deus
Ao contrário, parece que fomos abandonados
Cada um que se vire com os seus
 
Barra da Tijuca, 24 de janeiro
24 também a idade
De Moïse Kabangabe
Rio, do mês que ele morreu
Pra ele não será o Rio de fevereiro e março
Pra essa família, o Rio não continua lindo
Ele continua indo
Como se nada tivesse acontecido
Só que aconteceu, eu não disfarço
Meu verso grita escrito
Mas não faz estardalhaço

quinta-feira, janeiro 13, 2022

Tenho Sentido

Nunca vivi o que tenho sentido
De um sentido ter encontrado
E após definido o lado
Nele, ter me mantido
 
A ponto que o sentido aponta
Para uma rota desconhecida
Finalmente um rumo na vida
Onde a morte perdeu a conta
 
De quantas vezes quis chegar
Em quantas já foi presente
Em amor tão ausente
Na intenção de gozar
 
Contraditório dizer fogo frio
Conflito que me confronta
O mundo devolve, desconta
Esse cio, sombrio, vazio
 
Sentir tem definição vasta
Serve do sexo ao coração
Do eterno à ocasião
Do sempre sim ao basta
 
Sentimos a hora de ir e parar
De encontrar-se no espaço
Hoje, é o que faço
Pro meu mundo girar
 
Tem giros em falso
Frouxos, fracos, frágeis
Energias dispensáveis
Em passos descalços
 
Compassado aos batimentos
Que nesse chão molhado
Tem choro e prazer derramado
Orgasmos e sofrimentos
 
Sem arrependimento do prazer vivido
Assimilo que estavam na estrada
Que precisava ser caminhada
Pra então ter entendido
 
Quem o corpo pede uma gozada
Quem a alma pede um bom dia
Quem uma pernoite resolvia
Quem se quer andar de mão dada

terça-feira, dezembro 07, 2021

Poesia e Pão

Poesia põe pra pensar
Pão põe de pé
Palavras a passear
Por pântanos
Por pânico
Pelo prazer, se puder

Percorrendo poemas
Provérbios, profecias,
Passo por padres, pastores,
Pela pretensa pregação
Palavreados plurais preteridos
Principalmente pretos
Pelo Pai proibidos
Pelo pai?
Permita-me
Puramente preconceito

Percebo pessoas
Piedosamente pedindo 
Pedem paz
Pedem pólvora
Pra proteger propriedade
Paralelamente, pobreza
Pedem prato
Pedimos pausa

Precisamos... pela pressão
Pai, peço permissão
Parece prático pintar, poetizar
A própria poesia
Parece,
Pensamento pequeno
Poetas perpassam períodos, planetas, personagens
Perdas, paixões, paisagens
No papel, pleno
Poesia e pão, pura política
Pro povo, politicagens

A escola abre o mural
Pra oportunidade
EMEF Manoel, arma o varal
Pendura o papel, estilo sarau

Cola, prega lá seu verso
Igual na rede social
É a rede de verdade
Marca lá o local
Jardim Bonança, Osasco
Na rua de cima do ponto final

Se você dança,
Ensaia o passo, treina, faz a sua
Se canta,
Esteja com o bloco na beira da rua
Se escreve,
Não se atreva a parecer que atua

O pão nosso de cada dia, como se reza
Tem fermento no fomento
Onde a fome se despreza
A massa, depois de apanhar, processa

E cresce
Conforme os ingredientes
Um pouco de força,
Um tanto da gente
Um tempo de forno
Um pouco de prece

Mal o sol aparece
Já tem pão
O aluno na sala, 1 pão
Mais 1 dia, mais 1 pão
Isso se chama processo de fermentação

A escola no topo mais alto
A comunidade subindo a ladeira
Reproduz o passo no asfalto
O corpo inclinado pra frente
Fazendo a padoca e a feira
Mais que legume e verdura
Alimento e cultura
Pão é pintura, é sustento
É literatura, é alimento

Com todo mundo chegando
Sempre sai pão quente
Sim, é seu moleque, sua menina
Tendo a poesia presente

Aqui na nossa quebrada
O relógio ainda nem marcou sete
Falta um tiquinho
Pro sinal que anuncia
Da esquina, sobe o cheiro da fornada
Do mercadinho, da padaria
Aquele saco marronzinho
Aberto pra não murchar, saiu quentinho
Não é só pão, é poesia.

sexta-feira, dezembro 03, 2021

Primeiros Pretos

Ô, na moral, "cês" já repararam
Que "nóis tamo" em 2021
E ainda é bem comum
Ainda ontem publicaram

A primeira mulher a fazer isso
A primeira pessoa preta naquilo
Primeiro, primeira trans naquilo outro
Sabe de tudo isso o que é mais louco?

É que precisou tanto tempo
Pra um passo que ainda é pouco
Vozes que viraram silêncio
Além dos que seguem roucos

Claro, o passo merece aplauso
Palmas que deveriam ter batido
Seu avô ter ouvido
Ainda menino e descalço

Era pra ser como o carro voador
No passado, o previam
Nesse ar, que não congestionou
As frases que ouviam seu bisavô
Agora há pouco repetiam

Frases e comportamentos
Que o tempo não envelheceu
Vozes jovens as repetem
Com infeliz argumento
É um posicionamento
Direito meu
Ao crivo do crime não submetem

Tem um exemplo aqui
Você conhece Theodosina?
Theodosina Rosário Ribeiro
Esse nome foi o primeiro
Sabe como eu descobri
Primeiro ouvi,
Depois pesquisei e vi

Que, como vereadora, mulher preta
Foi precursora
Na Assembleia Legislativa também
Parece da hora, motiva
A voz preta ativa
Ali, representada, sendo alguém
Só que aí vem o porém

Ela só chegou lá em meia-oito
Em meio a ditadura
Quando o poder era ao meio
meio-censura, meio-tortura

Meio mundo sumiu
E depois da Theodosina
A próxima imagem preta feminina
Que o voto definiu
Exigiu 40 anos sem tanta melanina
Definindo o que é legal pro Brasil

De 83 a 2010
Nenhuma mulher preta botou os pés
A voz na tribuna, como eleita
Surge então, Leci Brandão
Sambista, cabeça feita, de posição

Que não seja mais preciso
Décadas de um intervalo nocivo
À nossa representação, miscigenação
Ao antirracismo
Pense nisso na eleição

Dizem... dizem...
Sabe o que não pode dizer?
Que não foi avisado
É triste a gente tão conectado
Sem nem se entender
Conectado, mas não 'tamo' ligado

Eu nem sei o que eu posso ser o 1º pardo a fazer
Se um dia chegar a ser, eu não queria
Preferiria ser o de número 100, mil
ou até cem mil
Eu queria menos estreito o funil

Pra que, em 2021
Não vire notícia capaz de surpreender
A primeira pessoa X, Y, Z
A alcançar tal desafio

É da hora a notícia da chegada
Mas notícia boa, boa mesmo
Não é notícia atrasada

sexta-feira, setembro 24, 2021

A Esperança é a Última

Desde criança
Aprendemos um ditado
Que a última que morre
É a esperança
Crescemos repetindo
Esse aprendizado
 
Com o tempo, até perdemos um pouco
Deixamos nos levar
Porque só na frase se apegar
Cansa...
Aí a gente para e faz um repouso
Encontra um no ombro do outro
Onde se apoiar
Aí a gente avança
 
Já imaginou desistir de quem se ama
E pode estar em qualquer lugar
Podemos o mundo circular
Como quem dança ciranda
Sem nenhuma das mãos soltar
 
Trazendo na fé a frase de infância
A última que morre é a esperança
Então, eu vou procurar
Por maior que seja a desconfiança
Nós vamos achar.

Ele Na ONU Não É Nóis

Sabe quando a gente nem quer mais falar?
É esse o limite pra aceitar a derrota
Eles não querem apenas triunfar
Eles querem além da vitória
Nosso direito ao sonho e lugar
Eles querem roubar
Como a luta e história

Eles tomaram sim e falam pela gente
No espaço público, na TV, na Organização das Nações Unidas
Ele está lá, afinal, é o presidente
Pela votação (na urna eletrônica) a ele conferida
Perante o mundo, indiscriminadamente, mente
A recepção estrangeira é condizente
Ao desdém e nojo com que ele trata vidas

Em 12 minutos, mentiu, mentiu e mentiu de novo
De tão abjeto, desfilou sua arrogância
800 dólares de auxílio pro povo?
Omitiu que no Brasil a ganância
Deixa o agro (nada pop) resolver no fogo
As reações são asfixia e ânsia

Amazônia, índio, tudo por ele era extinto
Como qualquer decoro e diplomacia
Covid sufocando, ele imitando e rindo
Testemunhou que usou remédio que não servia
Falou pro mundo de cloroquina e não entendia
Porque ninguém estava seguindo
O tratamento precoce que ele vem insistindo
E a ciência séria não consentia

Não acabou por aí o pronunciamento
Disse que afastou socialismo e corrupção
Não faz ideia do que está dizendo
Envergonhando muito a nação
Milhares de mortos, quase seiscentos
Por ignorância... por ignorância, não
Por criminosa omissão

Aqui, temos outras verdades a dizer
Vacinas escassas à necessidade
Prevent Senior testou humanos pra ver
Se o Kit Covid tinha efetividade
Teve empresário que deixou a mãe morrer
Testando seu direito de escolher, sua liberdade
merecia uma estátua pra homenagear a saudade
Duvido que ele deve ter
O significado de humanidade ele nem deve conhecer

Corrupção em família, sob aplausos na cerquinha
Da turma do cercadinho, seu gado de auditório
Perante o mundo, aquela mesma ladainha
Sem ouvidos nem respeito ao falatório
Vai te restar a última linha
No seu futuro torpe e inglório

Diante do mundo, nos rebaixa
A cada frase que pronuncia
Quando descer a rampa e entregar a faixa
Vai pagar a dor que nos impelia
Aí vamos ver se encaixa
Tudo que fala de tortura, de minoria 
De toda essa porra que cê acha
Aí eu quero ver
Vai ser nóis e a tua valentia