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terça-feira, junho 20, 2023

Cabeça de um Depressivo

"Cê" tem um minutinho pra me ouvir?
Quem dera fosse claro assim, objetivo
A cabeça de um depressivo (em tratamento, quando escrevi; em alta, quando postei)
A gente nem consegue pedir
E, se conseguisse, talvez nem saberia dizer
Um bom lenitivo, escrever
Margens e páginas percorrer
Depois do comprimido

Enquanto os miligramas agem
Meus versos reagem
Não se comprimem por dosagem
E escrevem, escrevem, escrevem,
Diversas vezes se perdem
No caminho, a mensagem
Os papéis envelhecem
Os estros se esquecem
Foi perdida a viagem
Não, a poesia é desfrutar da passagem

Às vezes, não passa,
Vai um tempo
Com farol travado, vermelho
O verde nem ameaça
O amarelo no centro
Desordena o aparelho

Na cabeça de um depressivo
Destrava o gatilho de repente
Acredite, nem sempre é claro o motivo
Nem tudo que dói é na gente
Na cara, não toma a frente
Por dentro, um ódio agressivo

Invasivo também cabe à definição
Acolhimento é outra parada, parceiro
Ouvidos que consultam o coração primeiro
Terão sempre predileção
Já que leu ou ouviu esse apelo inteiro
Pensa um pouco nisso e obrigado da atenção.

terça-feira, abril 26, 2022

O Poema Que Não Houve

Eu estava nesta terça
Numa tristeza que vou te contar, viu?
Notei minha distância da poesia
De fevereiro até agora em abril
A distância em tempo e espaço
Nenhuma linha redigiu

Nesse tempo sem escrever
Houve cenas pra contar
Houve críticas a fazer
Teve até o que se admirar
O que não se ousou dizer
Ninguém irá imaginar

Não houve versos, rimas
Nem prosas, linhas corridas
Não houve (nem se ouvem) notas musicais
Não houve histórias escritas
O que não houve, não há mais

Sim, haverá outras paisagens
Dores então, nem se fala
Só que serão outras
Aquele sol na janela da sala
Não tem mais aquele, naquela escala
Aquela árvore bonita no outono
Não descrevi a folha ao deixá-la

Não é que eu fugi
De contar ao papel o que vi
Mas quando não escrevo
Acumulo o que senti
As palavras então se embaralham
Me embaraçam, ao ponto que eu nem consegui
Lembrar tudo, escrever tudo
Tanto que eu fiquei pensando

Não ficou uma palavra transcrita
Será que eu só guardei tristeza
E apaguei a parte bonita?
Bom, pelo menos agora, escrevendo, registra
O dia triste ontem foi certeza
A melancolia pra um poeta
Dá muito mais na vista

(12.04.2022)

Destrava o Gatilho

Ontem, destraquei meus olhos
Pras lágrimas chegarem
No caminho se perderam
Até secarem

Hoje, elas não molham as linhas azuis da folha
Somente a tinta preta da caneta que corre
A tristeza tem seus dias de escolha
Um gatilho que em um disparo resolve

Eu me afasto, conscientemente
Porque a vontade mesmo envolve arma
Coragem e munição no pente
Uma é suficiente, mas a gente para
Sente que a dor alarma
O alarme da sanidade desarma
E a gente tá de cabeça quente

Esfria, respira, não aperta
Se apertou, já era
Fim da dor, a minha
Pro mundo, nada se conserta
Só em mim
A dor que eu tinha


(12.04.2022)

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

Empatia Sem Empate

Congolês morto a pauladas
Ao cobrar duas diárias ao patrão
Outro, com 3 balas disparadas
Ao pegar a chave no próprio portão

Um comete crime em palavras
Que o nazismo deve ter seu quinhão
É um direito à opinião
Enquanto o presidente ameaça
Deputados envenenam nosso arroz com feijão

Só que a casa que preocupa é a da tela
De vidro mesmo é nosso telhado
Das paredes ao teto, apedrejado
Com nossa cara na janela

Aí surge a palavra empatia
Apelos e vídeos de arrependimento
Eu não me rendo a essa hipocrisia
De desconstruído e aprendendo

Juro, de boa, que eu até me esforçaria
Se houvesse humanidade aí dentro
Se não causasse ou vibrasse nossa agonia
Não empata, não dá harmonia, 
A fala vazia com o procedimento

Enquanto Choro

Escrevo enquanto choro
Choro enquanto escrevo
A qualquer fé, eu imploro
Amenize essa dor no meu peito
Que não encontra termos, nem meio-termo
Que me faça fugir desse modo
Um modo extremo
Com qualquer água, me afogo

Escrevo em meio ao barulho intenso
Aspirador, avião, teclas, notificações
Uma janela de metal em movimento
A colcha da cama, molhada em porções
Nas tristezas, sempre vem à cabeça, canções
"Mas, a minha lágrima o vento seca"
A lágrima que seca com o vento
A causa, que nem sempre tem claras razões
Só desaguam a dor por dentro

Dor que solta o choro preso
Choro que às vezes nem se entende
Choro que se cobre no leito
Ao travesseiro se prende
A fronha não questiona, compreende
A linha do caderno faz o mesmo
Hoje, eu chorei novamente
E novamente chorando, eu escrevo

sexta-feira, janeiro 14, 2022

Navegando...

Nesses últimos dias, me peguei numa situação tão agoniante que é até difícil de descrever com precisão o tamanho da aflição. Claro, é difícil mesmo dimensionar sentimento, seja ele bom ou ruim. Quando é bom, nem é bom (perdoe a repetição do adjetivo) falarmos mesmo. Não fale muito das coisas boas. Os ouvidos são geralmente agourentos. Mas, quando é ruim, muitas vezes (como agora) é necessário dizer, escrever, enfim, botar pra fora de algum jeito.
 
Sem tentar usar métricas ou unidades de medida, aliás, nem sei qual seria mais adequada para a agonia, ela chegou, se instalou e se pendurou em meu pescoço, mais precisamente em meus dedos que, involuntariamente, repetiam movimentos sem que meu cérebro os comandasse.
 
Estou falando de celular e rede social. Certo de que as redes em nada me agregam no uso pessoal, repito constantes acessos quase que involuntários. Há num sub do sub do subconsciente uma necessidade de estar ali e se revezando naquela do “F” para sua filial de fotos e vídeos, da camerazinha, e fico nesse ping-pong, caçando... o quê? Não sei. Não sei mesmo, eu nem queria estar lá. Há pouco mais de 1 mês, excluí meu perfil da outra rede azul do passarinho. Nela, passava também horas, mas, como são textos, eu os lia, ria em muitos, compartilhava outros e me indignava a ponto de responder em vários deles. Percebendo minha indignação infrutífera e minha insignificante relevância social naquele meio, preferi falar comigo mesmo em meus pensamentos do que falar pra ninguém. Escrevendo agora isso, estou pensando qual seria pior. Não tem melhor, ambas são ruins.
 
Aliás, qual rede é boa? E boa pra quem? Durante a formação em jornalismo, aprendi que sol não é tempo bom se a referência é um vendedor de guarda-chuvas. Acredito piamente que as personalidades das redes têm uma convivência menos dolorosa, pois fazem dela sua vitrine, sua gôndola de produtos e de lá, recolhem a sangria do caixa. Se bem que... pensando bem... não sei não se esse pessoal sofre menos porque, mesmo sendo de onde tiram o pão e o champanhe através de @s e menções, recolhem também todo o ódio peculiar a esse campo tão colorido cheio de sorrisos expostos em lágrimas que escorrem nas fronhas ou se misturam na água do banho.
 
Nesses acessos quase adestrados que por incontáveis vezes ao dia somamos índices aos algoritmos, entregamos nosso bem mais precioso, a vida. Sim, a vida é o tempo que você tem nesse plano terrestre e, muitas vezes, sem qualquer resistência, vamos entregando parcelinhas e mais parcelinhas até virarem parcelas ou até parcelonas significativas. Só que minha agonia surgiu exatamente desta resistência a essa entrega. No meu caso, a tentativa de resistir perdeu o cabo-de-guerra e a tristeza desta derrota que foi a vencedora.
 
Navegar é o verbo usado para o tempo de viagem em redes sociais. Sem motor ou remo, estamos todos à deriva, tentando chamar atenção num mar bravio onde só se enxergam transatlânticos iluminados, enquanto náufragos (nem sei se a definição cabe, pois, todo mundo se jogou no mar por vontade própria e não está por acidente) tentam chamar atenção como podem, cada um a seu modo, com seus talentos, com suas habilidades, com boias mais coloridas para serem vistos na neblina. São tantos ao mar, buscando a luz do farol para ter o resgate que muitos acabam se afogando no percurso. São mares de marés cada vez mais altas, cada vez mais salgados, água do mar com lágrima mistura fácil.
 
Há outros rios de menor movimento pela correnteza, porém, diversas vezes, esse passeio se faz sozinho, aí também perde a graça. O passeio é melhor com todo mundo junto. Por falar em graça, sinto que é necessário rir, mesmo se afogando, afinal, lá também aprendemos com inúmeros exemplos de sabedoria que é necessário levar a vida com entusiasmo e alegria. Sabe aquele lance de meritocracia? Não, não é necessário ficar rindo e ao dizer isso, você ganha acolhimento ou acolhe pessoas? Não. Você se mostra um mal-agradecido, afinal, você poderia estar no deserto e morrendo seco. Agradeça ter água, mesmo que seja do mar. Parece graça, mas, não é. Mas, parecer já está bom, pois é disso que vive o algoritmo. Que se diverte conosco. Rindo da nossa cara.
 
Ah, mas é bom rir. Concordo, é ótimo. Há quem ri de uma gracinha de um bebê, há quem ri de uma fofura de um pet, de uma piada, de uma encenação qualquer e há quem foi condicionado a rir e rir, sem nem saber por quê. E eu me peguei rindo repetidamente da mesma piada, juro, incontáveis vezes. E pior, eu nem queria. Esse condicionamento a fazermos os mesmos movimentos ao interesse alheio ao nosso consciente me doeu muito. Quis mudar e não estava/ estou conseguindo. Parece que estamos fazendo parte de um ballet, que inconscientemente nos ensina uma coreografia que só vamos imitando e repetindo. Todos. Todos ligam as câmeras, ensaiam, ensaiam e ensaiam para um espetáculo que não tem plateia. Os mesmos movimentos, as mesmas cenas, sem criatividade alguma, sem nada de artístico e a arte é o inovar. A arte é o inesperado que arrepia a pele, seja de um prazer indescritível como a agonia que me afligiu desde a primeira linha desse texto, seja de uma alegria proposital de satisfação, e não dessa alegria de sorrisos e risadas fabricadas em nada com verdadeira graça, seja o arrepio de algo que nos causa nojo ou repugnância. A propósito, nossa rede tão americanizada, com termos estrangeiros que aprendemos a transformar até em verbo e conjugá-los como floppar, hitar e por aí vai, essa mesma língua tem o termo disgusting, que, pra mim, tem som e me traduz como poucas palavras em português tal sensação de asco.
 
A arte precisa ser inovadora e causar algo. Quanto mais se tem igual, menos valor se dá e menos valor se tem quem a produz. Quando foi a última ocasião que você ouviu alguém cantar pela primeira vez e te provocou a apurar melhor os ouvidos pra apreciar aquela identidade vocal? Qual foi a última vez que você viu alguma obra artística e visual que te instigou a dedicar sua visão aos detalhes? Nas redes, está cheio de ‘Criadores de Conteúdo’. Só esse termo já me caberia mais um texto do tamanho do que escrevi até agora. Quando se dizia até certo tempo que alguém tinha conteúdo era um elogio similar a inteligente, que a pessoa sabia conversar sobre vários assuntos com certa propriedade. Hoje, a pessoa cria conteúdo às vezes até sem ter. E deste nada, surgem compradores deste produto. O preço? A vida, as horas, os minutos e até os sorrisos que se desperdiçam. Compram e indicam. Mais gente compra e o vendedor de vários nadas vira referência, vira espelho, inspiração para aspirantes a ter sua lojinha também procurada para consumo de um conteúdo que se tem de graça e em fartura.
 
Assim como disse que entramos nas redes porque quisemos, ela parece convidativa, afinal, está todo mundo lá, nós encontramos nela onde falarmos o que pensamos, não importa se alguém quer ouvir. Aliás, importa sim. Causa frustração o vácuo. Mas, não importa. Fala-se, não ecoa, frustra e esse círculo se replica continuamente. Falamos só porque queremos falar. Ela acaba sendo nossa confidente de nossas maiores fragilidades e só nos devolve mais dor a essas angústias e, mesmo assim, há quem recuse o bote que leve à praia. Sempre vale tentar mais um pouco a luz do farol por alguns segundos em roupas coloridas, movimentos coordenados, dancinhas e vozes que nem são as nossas pedindo socorro, no caso, atenção.
 
Não importa quanto você tenha remado pra chegar nesse alto mar, não importa se você é um náufrago de uma embarcação mesmo, se você estava num transatlântico e resolveu pular, não importa se você, de fato, nem precisava estar ali por já ter seu próprio barco, por ser bom nadador, por saber remar jangadas ou canoas. Não importa sua habilidade, ali o farol só dá luz a quem dança no embalo da maré.

quarta-feira, novembro 10, 2021

Sofrência No Ar

A voz que cantava a sofrência
Agora, sim, no silêncio, entristece
Uma dor em sequência
Nada simples como suas canções
E multidões
Que viram sua trajetória
Cantaram seus refrões
Que o amor era a história
Na maioria, sofrida
Por traições,
Por despedida
 
Quem diria que um sonho comporia
O mais triste verso que você fez parte
Cachoeira de lágrimas, como sua arte
E você parte, hoje conta mais um dia
 
Sua música tinha identidade
A sua e de um monte de gente
Milhões em sua casa na live
Sua voz feminina e potente
Trouxe a quem ama suas verdades
Trouxe a quem sofre, um colo quente
Um aconchego, cumplicidade
Daquele amor que se arrepende
 
Sabiam de cor suas letras e melodia
E justamente no ar onde ecoavam
Desse mesmo ar, cada acorde caía
Chegou a notícia e todos pensavam
E esse filho que há pouco tempo nascia?
E essa mãe que ontem comemoravam
Era aniversário da Mãe de Marília
Mal sabia que em um dia se separavam
 
Não adianta maquiagem à prova d’água
Era uma cachoeira,
Caratinga, cidade mineira
Marília levou uma nação inteira
A chorar, não pelo amor mal resolvido
Mas, pela dor derradeira
De não ter dado nem tempo
Da gente ter se despedido
Tão nova, tão popular
Parecia ter um jeito divertido
Respeitada por várias tribos
Que ousava interpretar
Cantou uns pagodes, uns raps
Cantou de tudo, foi divertido
Não é por que do ar se foi
Que você não vai ficar
Nos bares, nos violões, 
nas rádios, NO AR!
 

Menções aos outros quatro falecidos neste acidente:
Henrique Ribeiro, Abicieli Silveira, Geraldo Martins e Tarciso Viana

segunda-feira, agosto 16, 2021

Samba com Um Bocado de Tristeza

“Pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza”

Vinícius compôs e cantou
Olha, sendo assim, certeza
Que na hora de fechar a conta e por na mesa
Inspiração não faltou
 
A gente anda triste
Luta, luta, luta e luto
Luta, luta, luta e luto
Não sei você, mas, fake News eu refuto
Tem umas e uns que nem discuto
 
Não vale a saliva do papo,
Valeria, como antes se dizia
Uns ‘catiripapo’
Mas, não é no sopapo, nem no tapa
Que a gente escapa da melancolia
A minha melhor forma
É a caneta que transforma
O que me transtorna, em poesia
 
Agora, me fala: haja samba pra fazer
Com tanta tristeza em volta
Nosso enredo anda sem revolta
Pouco ousa dizer
 
A gente anda triste
Você, eu, nossa gente
O medo é frequente
Cada vem mais presente, ele persiste
Pra ver se a gente resiste
 
Ele quer ver até onde vai, até onde vamos
Ver quem primeiro cai, quem não seguramos
Será que esse samba sai,
Se há muito tempo nem cantamos?

sexta-feira, agosto 07, 2020

Uma dose de Surto

Chuta, quebra tudo
Bota 'pa fudê'
Enche uma dose de cana
Abastece o surto
A ponto de querer morrer

E matar até quem ama
O ódio nem parece absurdo
Absurdo é fingir viver
Enquanto tudo em volta sangra

quinta-feira, julho 30, 2020

Minha Sombra

Reencontrei minha sombra
Deitada, um vulto, um luto
Por desistir da luta
Minha alma, por mais que se esconda
Dominou meu lado mais oculto
Desculpa
No lençol que meu corpo repousa
Fechou minha respiração de modo abrupto
A falta do ar me tirou do inferno
Desconheço o destino da fuga

terça-feira, julho 28, 2020

Choro Vingado

Homem não chora
Chora sim, ô se chora
Chorei quase agora há pouco
No outro dia e naquele outro também

O homem que chora
Tem uma dor que berra
Por dentro, já ficou rouco
Voz acaba, lágrima vem

Chorar não é nem de longe fraqueza
É materializar emoção
É de um sentimento fazer água salgada
Marejar a visão

Homem chora e eu sou desses
Choro numa canção, numa cena
Numa poesia, numa saudade
Choro escrevendo frases

E às vezes, escrevo frases pra chorar palavras
Porque palavras me fazem chorar
Sinto-me vingado
Quando choro, não sei quando vou parar

Já quando me ponho a escrever
O poder está do meu lado
Em quantas linhas, ideias e versos
Faço o meu desabafo
Eu decido, ponho ponto final
E caso encerrado.

terça-feira, julho 21, 2020

Triste Sol

Hoje eu só tô querendo chorar
Só que as lágrimas me faltam
Não sei se secaram
Não sei se acabaram
Aos olhos, desfalcam

Eu até tentei, parei pra tocar
Só que as notas não se encaixam
As cordas desafinaram
Os acordes se destoaram
Meus tristes olhos se abaixam

Tem dias que tudo parece bem
Bem, no sentido de sob controle
Definitivamente, esse dia não é hoje
Em que a angústia beira a porcentagem 100

Quase 100 também para a agonia
Que se instala fácil como um aplicativo
O pior não é entender o motivo
Mas, sentir o que ela propicia

Queria que uma vez nessa pandemia
Do nada, chegasse uma intensa felicidade
Que ela viesse com a mesma voltagem de energia
Com a mesma coragem e valentia

Que a tristeza tão covarde
Pega no momento à toa de fragilidade
Ah, se a felicidade fosse verdade, realidade
Não só uma tempestade e que logo o sol viria
O triste sol que faz amanhecer cada triste dia.

domingo, junho 07, 2020

Dor Ímpar (Miguel)

Era uma vez um menino
Resolvi começar esses versos
como as histórias que ouvimos,
éramos pequeninos,
nossos pensamentos eram dispersos, viajávamos nos contos infantis
Mas, hoje, o meu "era uma vez"
não tem nada de final feliz
Tem dor, perda, tristeza e descaso,
um prédio de cenário
e uma omissa atriz

Era uma vez um menino
Era mesmo, não é mais,
ele deixou a história, saiu desse livro
virou números banais
Ele ficou na capa dos impressos
mas sua capa não é capaz
o tempo não tem retrocesso
não dá para correr para trás
nem nos sonhos pode voar
Agora então, jamais
se ele pudesse, eu daria ao "Era Uma Vez", mais opções de finais

Mirtes, a mãe, chora
Ela estava a passear lá fora
com o cão ou os cães da senhora
primeira-dama,
que se encarregou de Miguel
Pois, em isolamento, seus cães precisavam passear
e se é para alguém se arriscar
Mirtes, vai lá, esse é o seu papel

Miguel entrou no elevador 5 anos,
a porta abriu no sétimo andar
ele decidiu ficar
o elevador subiu, a porta abriu
no nono, ele saiu
e por uma janela quis olhar
não se sabe se de lá, a mãe ele viu,
desequilibrou e caiu
5 anos, 7⁰ e 9⁰ andar, 35 metros
tudo ímpar,
como essa dor que não tem par

quinta-feira, maio 21, 2020

Uma Medalha e um Porta-Retrato

Perto do Dia das Mães, ano passado
Te dei uma medalha e um porta-retrato
Ainda está na sua estante
Mas, não está o mais importante
O significado

Aquela manhã de domingo
Eu levantei cedinho e corri 10K
Pra que, no final,
Eu pudesse fazer um vídeo e te mandar
Pra que você pudesse se orgulhar

Se estivesse aqui, de corpo presente
Certamente me desmentiria
Que nada disso precisava
Pra ter orgulho do seu mais velho
O seu mais velho sabe que você se orgulhava

Mãe, te peço desculpas se não me encaixava
Se minha chatice sempre interrogativa,
Questionadora, tanto importunava
Sim, sei disso, tenho consciência,
Só não sei se consigo e quero mudar

Você me ensinou que palavra não se dobrava
E o combinado precisava pagar
Recentemente, minha outra mãe foi te ver
A sua... e nunca mais voltou

Uma coisa eu posso dizer
Você dá o que aprendeu receber
Mãe e vó, entre nós, amor nunca faltou.

quarta-feira, maio 20, 2020

Novo Caderno

Não é por acaso que começo esse poema
Na 1ª folha de um novo caderno
Justo esse, justo hoje
De quinta pra sexta, madrugada
E justo nessa 1ª página pautada
Externo

Um conflito interno
Que quase me interna
Não foi preciso
A angústia que me consterna
Travou minha perna

Já depois do meio fio
Na rua, na beirada
Pouco passei da calçada
Via movimentada

E nada do transporte chegar
Pra me levar ao céu
Ou inferno
Nem sei onde ia parar

E parei

Quando lembrei do meu filho em casa
Chorei e retomei a caminhada
2019, era dezembro
Mal sabia o que me esperava
A saudade de mãe doía, machucava
E quando relembro
Sinto como se tivesse sobrado só eu

Não deu 10 meses
Mais um pouco de mim morreu
Quando o câncer venceu
Minha mãe deixou seu jeito alegre e extrovertido

Com minha vó, a despedida se avisava
E nada mais deu pra fazer
Só agradecer por tudo o que ensinara
Ensinara, no pretérito mais que perfeito
Mais que perfeitas elas foram
E com elas aprendi o melhor que posso ser
Até um cara boa gente
Mas, diferente do que cada uma esperava
Não é só metáfora, não
O caderno que usava, terminei
Este, onde crio estes versos
Começaram sem introdução
Mas, o que eu quero começar, eu sei

Como dizia Nelson Gonçalves
Não quero a tristeza cantando
“Aqui me tens de regresso”
Quero chegar no meu auge
Pra que eu me salve
Eu estava me entregando
Querer viver já é um puta sucesso

Que as próximas linhas tragam
Novas linhas de pensamento
Linhas de coletivos, de conduções
Ao conhecimento, ao reconhecimento
Às vezes afagam, às vezes esmagam
As nossas convicções
O nosso sentimento.

quarta-feira, abril 29, 2020

"E daí?"

Eu que sempre escrevi
Sobre o que vi
Sobre o que nos jornais, li, ouvi e assisti
Sobre o que senti
Sobre o que me abati
Quando refleti
Meus conceitos revi
Por vezes, desisti
De cena, saí
Ao desprezo, me permiti
Levei minha poesia, insisti
Com desdém, me feri
Mas, fingi
Está tubo bem, resisti
Continuei, não caí
Meu caderno reabri, redigi
Digitei, imprimi
À missão que vim, ainda não cumpri
Aos que se vão assim, não me despedi
A minha dor em versos e estrofes, reparti
Nem pra versos, nem pra mortes,
Ninguém ‘tá nem aí’
“E daí?”

quarta-feira, abril 15, 2020

Choro Isolado


Hoje eu só quero chorar
E não estou passando vontade
Em meio à calamidade, por toda cidade
Parece que vai acabar

Acabar de nos destruir
Parece que vai chegar
E contaminar, nos matar
Sem direito a despedir

Nas despedidas, pessoas se abraçam
Lágrimas são derramadas
Pessoas consoladas, mãos dadas
E os vírus passam

Vão se multiplicando
E o cerco cada vez mais fechado
Meu caixão tampado, lacrado
Não é mais questão de “se”, mas, quando?

Há poucos meses andava agoniado
Acordava pensando que morreria
A cada sol que nascia, meu último dia
A terapia tinha me tranquilizado

Hoje, parece que nada ameniza
É a morte nas imediações
Não chega a 3 conexões, só 2 ligações
Um vizinho do seu prédio, o marido da sua amiga

Quando era só no estrangeiro
A gente, inocentemente, achava
Que gringo que pegava, que aqui não chegava
Isso era nada pro brasileiro

Até que o Coronavírus se instalou
Politizaram as medidas de prevenção
Dos cientistas, a recomendação: fique em casa é solução
O presidente contrariou

Nem vou gastar muita linha
Pra não perder a linha de raciocínio
O cara tem fascínio pelo extermínio
Pra ele, é gripezinha

Estou num medo de morrer
Que o ar que falta enquanto choro
Eu peço a Deus, eu oro, eu imploro
Que nada mais grave há de ser

E há quem ainda duvide
Que é um truque, um golpe chinês
Que parou o mundo há um mês, e põe no mínimo mais três
Esse tal de COVID

Meu medo de morrer até que é um bom sinal
Em dezembro, eu queria por fim
Mas, cuidei de mim e não quero assim
Entubado por um vírus mortal

Medo de morrer no Brasil, já é comum a nós
Violência, desemprego, fome, e abandono
Tudo aqui sempre teve dono, desde o trono
E o tronco é o troco que tranca muita voz.

quinta-feira, janeiro 02, 2020

Doentes Emocionais

Você tem ido a hospitais?
Senhas, numerais, impessoais
É tanta gente
Mas, doente mesmo, doente,
Pode reparar, predominam os emocionais

Depressão, síndromes, crises variadas
Você e eu estamos nessa lista
O nome demora nas chamadas
Consultas rapidamente encerradas
Encaminha pro especialista

As dores no peito, são de amor
As ortopédicas, do labor
As do coração, de dissabor
As de cabeça, faça um favor
Doses sem moderação
De ouvir o coração
Às vezes, a razão não tem razão

O choro serve como expressão
Uma pergunta o acompanha
O que está sentindo?
Um corpo que muito apanha
Não busca atenção por manha
Pois, sabe que ninguém está ouvindo

sexta-feira, março 01, 2019

Mal Começou o Ano

Jornal do dia anterior
Sinto-me atrasado
Num ano que mal começou
Mal começou e começou mal
Reporto em versos a dor
Um pesadelo contínuo acordado
Destroçado num lamaçal

E a lama que desabrigou
Fez Brumadinho, um canal
Pôs Brumadinho no canal
Nos canais
Nos banais fatos; às vezes, normais
Normal mesmo é o relato
Do Zé no anonimato

Que, na real, na real mesmo
Ele vale o que Vale o contrato
Contratos... promissores...
Jogadores?
Nem são deles que trato

Prometiam adequadas instalações
Administram agora indenizações
Contêiner nas construções
Nem todas as permissões
Nem venha com condições
Milhões para medalhões e figurões

Vermelho é cor quente
O preto é cor luto
O branco do escudo
É a paz tão ausente
Em um Rio absurdo

Depois, Boechat se vai
O helicóptero no ar, cai
A rádio do ar, sai

E, por aí, só se ouve: pai, pai, pai
Papai precisa cuidar do garoto
Dos garotos: do municipal ao federal
Do modesto custeio eleitoral

Lustra-móveis num pano
DesMOROna a cara-de-pau
E o foro, um privilégio insano
Até então, benefício imoral
Não, não estava nos planos
Mal começou o ano
Já gastar com Queiroz e explicar laranjal