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terça-feira, novembro 18, 2025

Armas made in Rio

Minha visão anda tão fria
Só que esses dias
A dor que assolou o Rio
Cruzou esse meio fio 
Desalmada com fuzil
Pra invadir a calçada
Pegou descalça
A normalidade falsa
De comunidades abandonadas

Não é que não tem gente
É que essa gente não conta
Quando a mira aponta
Qualquer que seja a contagem
O argumento desmonta
Que foi algo diferente

Não foi!

Não mudou o formato
Não mudou o retrato
Nem o alvo mudou 
Muda-se o endereço
Não muda o desapreço 
Com que o Estado tratou

É geralmente como ele trata
Matar na favela é a bala de prata
Para quem neles vota
Cancela-se o CPF
Nunca o CNPJ
Que tem assinatura
Legenda e legislatura
Só não assina a nota

O chefe que deu o aval
Para que o gatilho policial
Subisse a Penha e o Alemão
Não levou em consideração
Que o que chamaram de megaoperação
Trouxe mais corpos que fuzis
Não pode ser natural
A morte ser tão banal
E dependendo do autor e da cor
São dois ou mais rostos de Brasis

Pra ter tantas palmas quanto balas
Essa conta não condiz
Que a vida isso, a vida aquilo
Não bate com nossas falas
Pro Estado do Rio é a quilo
Que são vendidas, distribuídas
Vidas ceifadas nas armas

Armas que no RJ não são fabricadas
Imagina a 12 ou AK cariocas da gema
Nem vem escrito made in Rio
Made in Morro, dá pra rastrear no sistema
Nem as drogas são ali preparadas
Pela lei, no RJ também são proibidas
Como não compensa ficalizá-las
Já que o preço são vidas
Tudo continua como na semana passada
Só mudar o jovem e a arma empunhada

Daqui uns dias, a dor geral se despede
Nada mais se faz
Quem perdeu alguém, perdeu
Fica o Castr... opa, o rastro de tudo que aconteceu
A falsa sensação de paz
Das belezas naturais
Da cidade maravilhosa
Lema que tanto se vangloria
Até logo mais, em outro dia, 
Tudo recomeça
Sem ensaio de cena, 
Se encena a mesma peça

Mesmo texto
E com pretexto de combate ao crime
O governador define
Foi um sucesso a ação

Da omissão que pouco se diz
Por mais que o morador apele
A dor que vai pro mundo legendada
Aqui, leva a legenda do PL
Só que é dificilmente assimilada

Eu nem consigo explicar
Só lamentar pelo Rio
Que já rendeu tanta poesia
Nessa, não rima janeiro, fevereiro e março
28 de outubro deixou outro verso, outro traço
Um dia, acima de tudo, sangrento
Já pensou se o Cristo Redentor
Com seus estendidos braços
Deixasse o Rio menos violento
Sob o sol, tanto corpo empilhado
Não dá pra culpá-lo do fracasso
Se o passo não muda faz tempo

sexta-feira, novembro 11, 2022

Bolsonarismo

Como chama mesmo aquele negócio lá?
Aquele troço que dá na gente
Faz a gente se agoniar
Ter raiva do diferente
De odiar até parente
Mas, parente também, a gente não pode optar

É um tal 'dum' sentimento
Que o coração chega a ferver
Não tem aquele ar de lamento
É mais um negócio de arder
Queima, mas num chega a doer
A fervura que 'tá' por dentro

É uma mistura que tem quem acredita
Que é paz, chamam até de fé, boa postura
Que a palavra de Deus até explica
Como entenderam na escritura
Que, convenhamos, não é toda criatura
Que é de fato bendita

Sabe o "pegou pra Cristo"? É perfeito.
O povo de Cristo 'tá' louvando torturador
Pedindo matança em nome do respeito
Estão pegando DE NOVO pra Cristo o Senhor
Mata! Em nome do meu cristão valor
Que aí o doutor põe lá no B.O.: suspeito

Olha que eu nem falei o nome
Só pra quem tem visão apurada
Já sabe até o que ele come
Uma falta de empatia como entrada
Um rancor sangrando, uma alma gelada
Menu em branco não apaga fome

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

Empatia Sem Empate

Congolês morto a pauladas
Ao cobrar duas diárias ao patrão
Outro, com 3 balas disparadas
Ao pegar a chave no próprio portão

Um comete crime em palavras
Que o nazismo deve ter seu quinhão
É um direito à opinião
Enquanto o presidente ameaça
Deputados envenenam nosso arroz com feijão

Só que a casa que preocupa é a da tela
De vidro mesmo é nosso telhado
Das paredes ao teto, apedrejado
Com nossa cara na janela

Aí surge a palavra empatia
Apelos e vídeos de arrependimento
Eu não me rendo a essa hipocrisia
De desconstruído e aprendendo

Juro, de boa, que eu até me esforçaria
Se houvesse humanidade aí dentro
Se não causasse ou vibrasse nossa agonia
Não empata, não dá harmonia, 
A fala vazia com o procedimento

segunda-feira, abril 29, 2019

Camuflado ou Rosa?

Um carro branco
Com pessoas negras
Outro, camuflado
Traje esverdeado

Deu-se o comando
Aponta! Certeza
É esse o alvo
Fuzil liberado

Fu-zi-la-men-to
Bem separadinho pra ficar claro

Evaldo, morreu; Luciano, morreu
Esposa, amiga e filho, escaparam
Evaldo e Luciano, certa vez, declararam
Que a região era segura, a tal Vila Militar

O que cada um esqueceu
Que assim como na farda, camuflada
Tem cor que é difícil enxergar
Ou, pensando bem,
é até mais fácil de acertar

O caso virou nacional
O músico, ali mesmo se despediu
Dia 7 de abril, dia do jornalista.
Na cidade e no Estado do Rio,
O que a mídia cobriu
Era cena que já estava prevista
E a população consentiu.

Nessa fase pós-Temer golpista
Essa foi a promessa
Nisso, pelo menos nisso, ninguém mentiu
Foi avisado
E, mesmo assim, o pessoal ficou abismado
Puta que o pariu, viu?!

E eu nem contei o número de disparos efetuados

Jornais deram capa preta e sangrenta
Exatamente, preta e sangrenta
Vou repetir, preta e sangrenta
Essas duas palavras juntas não parecem distantes
Soam como complemento
Estamos acostumados o bastante
Pra não estranhar como destoante elemento

Preta e sangrenta. Tiros? 3 a mais que 80
Que acertaram
E quantos atiraram?
Eram 9 na ação

Mataram o que mexia com canção
E outro que juntava do chão
Papelão e lata
E jogaram na lata na televisão

Comoção foi geral, quase geral
Pelas redes sociais
No Brasil, hoje, a comunicação oficial
Tratou como incidente
O Exército não matou ninguém,
disse o presidente
5 dias depois, 5 dias, minha gente

Luciano, catador, tentou salvar Evaldo
Os outros ocupantes correram procurando respaldo
No saldo, a morte brutal
E o show do pai, Davi não verá
O que Davi viu, não se apagará
No futuro, não cobre dever cívico e moral
Não é essa imagem que ele trará
O que ele pode trazer a Evaldo Rosa
Fu-zi-la-do pelas Forças Armadas do Brasil
É somente a rosa e a dor que sentiu
Seja 2 de novembro, Finados,
ou então, sem feriado,
7 de abril.

quarta-feira, agosto 01, 2018

A Mulher Sub

Ferida, fera, fora (Temer), fora a faca fincada
Todos os dias, na rua, no trampo, no ‘buso’
Todos os dias, todas as horas, destratada
Todas as idas, todas as voltas, abuso
Todas partidas, todas chegadas, te uso
Toda sua vida, submetida por nada

Submissão, submersa, suburbana
Subemprego, sub-amada, subtraída
Não traída no sentido de traição profana
Falo desde a renda diminuída
À saia sexy desprotegida
Que ao estupro lhe atribui a fama

Mulheres, senhoras, minas, ou como quiserem
Esse machismo nojento é culpa nossa
Nunca nos preocupamos se esses atos te ferem
Olhamos se a bunda é boa, o peito é grande e a coxa é grossa
Se reclamar, a gente se apossa
Os tempos mudaram, alguns não percebem

O quanto esse machismo foi perpetuado
Mais novo, não percebia o quão escroto era
Se não era estimulado, também não era criticado
Hoje mais ligado, o que de mim se espera
Meu filho educado, esse erro se encerra
Machistas não passarão, já são passado

Assumir que pensava errado não reduz o erro
Só nos torna mais consciente pra mudança
Ao ser percebido, levante a bandeira primeiro
Ao retrocesso crescente, não deixe essa herança
Homem não quer ser o fo...? Seja a segurança
Pra confiança dela te enxergar como parceiro

Hoje ela teme a rua, o trampo, o busão
Voltamos então à estrofe inicial
Vamos proporcioná-las evolução
E não ser encoxada por seu asqueroso pau
Nem pela impunidade do juiz Eugênio do Amaral
Que entende ejaculação como importunação
Sem constrangimento moral

A substância gosmenta, nojenta, submete
Não mete, mas invade a privacidade,
A privê cidade, a perversidade
Onde o sexo em local público
Local público, não corpo público
Não causa espanto de novidade

E sob o sol a pino do dia
A ferida doía, não apenas a pele melecada sentia
No coletivo, ato tão repulsivo que lhe agredia
Na avenida ou sob a via
Em estação subterrânea
Habitual, corriqueira infâmia

Contra a sub-moça, submissa, sub-assalariada

Sempre cercada
Sem subterfúgio pra não ser caçada
Sem refúgio, sem ter fuga momentânea
Pra se sentir tranquilizada

Do submundo onde ela vive
Coisificada em línguas várias
Ela provocou, não me contive
Imputei-lhe punições sumárias
Invadi-lhe proibidas áreas
À sua vontade nem um pouco me ative

Ativei, ativo, ataquei, meu motivo
Agressivo, reativo ao sex appeal
Pistola criminosa é só no estilo fuzil
Pênis agrediu, é crime abusivo
Criminosos de pen, pens, pênis, permissivo
Representantes legais do Brasil

A mulher deve ser sub sim
Sublimada, sublinhada
Em cada traço, colorida em todo espaço
Espaçada em toda cor
Espaço pra que não haja atentado ao pudor
E ela seja de novo violentada
‘Respeita as mina’, camarada
E fique ciente: ISSO NÃO É UM FAVOR!

sexta-feira, setembro 01, 2017

Importunação ao Pescoço

Porra! Caralho!
Não são apenas interjeições
Elas têm ligação
Não são apenas palavrões
Nesta situação

Porra do caralho!
Parece grosseiro meu linguajar
Esporraram na moça no coletivo
Chegou pro juiz avaliar
Não houve constrangimento ofensivo

Vai se foder, seu filho da puta
E quando isso acontecer, que te esporrem
No pescoço, na cara, na boca pra se calar
Enquanto na moça, as gotas escorrem
Com qual cabeça mesmo é pra pensar?

Juiz José Eugenio do Amaral Souza Neto
Quero este nome no poema registrado
José foi um Zé no tom mais negativo
De gênio, o Eugênio tem vacilado
De Amaral, daria boa rima neste ocorrido

Segundo ele não foi estupro ato tão escroto (do escroto do escroto)
E se fosse sua mãe, sua filha, o que acharia?
Houve até esse absurdo no debate
Seriam mais duas mulheres que a esta situação exporia
Elas não mereceriam abuso tão covarde

Nem elas, nem nenhuma outra, sem consentimento
Já ouvi relatos de quem foi roubado
Não se pode ir ou voltar dormindo
Você pode até ser esporrado
Sem tempo do pau ficar de novo armado
O estuprador já está saindo

Ah, não configura estupro, seu juiz
“Importunação ofensiva ao pudor”, definiu
Ofensiva ao pudor, não à moça violentada
Cobrador, inteligente o modo que agiu
Chamou a polícia e aguardou a chegada

Foi conduzido, protegido sem ser agredido
Teve o respaldo da condução policial
E ainda foi salvo de um linchamento
Que, nesse caso, seria reação natural
Da excitação do povo, não aquela do seu... Amaral
Achou normal, não foi violento
Não houve conjunção carnal
Entre aspas: “Não houve constrangimento”

Afinal, pra Justiça nossa cara é alvo banal
Pra ejacular a todo momento
Lembro de Raimundos, Esporrei na Manivela
Mas, a Justiça, se ao nível dela nivela,
Pro que ela faz...
Julga esse ato até pouco nojento.

terça-feira, maio 23, 2017

Segunda à noite

A porta se abre, está na hora de ir
Junto à liberdade concedida
Para dar o próximo passo
O vento lhe bate na face
Pois nem viu a noite cair
A lua seguiu seu compasso
Subiu e não foi percebida
Há medo em todo pedaço
Mas não vá se deixar combalir

Combalir não é verbo que uso,
Não é verbo que ouso deixar existir
No meu vocabulário inserir
Pois combalido é aquele que declarou-se já vencido
E no meu raciocínio, nem se for derrotado
Eu terei desistido
O radical foi mantido, o final trocado

Prefiro sempre o combatente ao combalido, derrotado
E sou sim um combatente, que o frio não abate
Assusta, mas, não sou covarde
Só fico atento, pois não há alarde
Nem alarme, mesmo tarde
Vacilou, ele invade
Sua casa, sua cidade, sua privacidade
Sua estabilidade, sua coragem

Sua bravura de pisar na rua
Segunda-feira noturna
Gelada vazia, no rescaldo do dia
A marmita que cedo vai fria
Ondas quentes e vem caloria
Alimenta, volta leve e enxuta
Gasolina pra labuta, pra luta
Seja trampando usando a cuca
Ou então na força bruta
Injusta, disputa
E a rua à noite de segunda
É prova sem consulta

Abre a porta pra sair
E de cara vem pergunta
E parece que quando soma todo o frio, todo o medo
Na esquina, tem segredo
Que sem luz, não se aponta
Só se aponta, aquela ponta
Da faca mais pontiaguda
Te ameaça, num instante a vida passa
O seu medo não disfarça
Entrega o valor da conta
Da compra, que ainda não se fez
E mal começou o mês
Vida segue, vida longa
Vida longa e muito 'loca'
Louca, devastada, abandonada
Tipo noite de segunda
Com a sexta comparada
Rua cheia, pé na estrada
Parece até comemorada
Pois semana que se enfrenta
Merece até uma recompensa
Pois, pensa
Enfrentou segunda fria
Viela mais que sombria
A luz da rua não acendia
A um palmo da cara mal se via
A mão que te agredia, te açoitava, te feria,
A arma que carregava
Te furava ou te atingia
Mas, que tensão, mas, que agonia
Que início de semana mais hostil
Numa noite de segunda,
Meu pensamento se aprofunda
No deserto de cimento
Onde nem vejo o meio fio
Ao meu redor um sentimento
Parece que a qualquer momento
O que eu sinto é arrepio
Serei cercado pelo vento
Por um ato violento
E então nesse relento
É que enxergamos o Brasil

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Mataria?

Você tem direito, sem punição
A cometer uma infração
Qual seria?

Adaptando a questão
Uma chance na munição
Quem mataria?

Faça a sua reflexão
Seu rancor ia pra ação
Um fim daria?

Eu tomei minha decisão
Eu sendo alvo ou opção

Só assim, atiraria!

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Ser Contra o Aborto

Você pode ser contra o aborto
Só não abortar
Só não vem com esse papo torto
Que a vida quer preservar
Gabriel, o Pensador, já ousou cantar
Pátria que me pariu
Essa letra já bem definiu
E foi lá em 97 que o disco saiu
E ainda hoje se faz enquete
19 anos, até maioridade atingiu
E no topo do ranking, o Brasil compete
Nada de FIFA, nem CBF
Mortalidade infantil
Abortos mal feitos, mãe não resistiu

Se a vida é o tema em debate
Tem mulher que quer; e essa vida?
Cai na clandestinidade
Mesmo dona de si, é um ato covarde
Fosse então, mais precavida
Essa mulher vai lá pra grade?
Como assassina ela é tida?

Você pode ser contra o aborto
Mas, coerência, amiguinho
Não diga: bandido bom é morto
Também é vida em desalinho
Não queira mandar no corpo
Cada qual sabe o caminho
Em qual pressão está envolto
Pois, cada um sofre sozinho

Aí, ok, vamos partir do seu princípio
Que uma vida não se assassina
Nasce enfim o tal menino ou menina
Tendo essa mãe, ou não, auxílio
Do pai que mete o pé e sai de fina
Deixou-a frágil; no colo, um filho
Em baixo da ponte, na beira do trilho
E nesse crime, qual lei assina?

Aconteceu, foi sem prevenção
Pensasse, não agisse no tesão
Não usou preservativo
Nenhum método contraceptivo
Ou qualquer outra situação
Mas, sem fazer qualquer juízo
Vamos ver o que é preciso
Se for o caso, adoção
Mas, não fica na ilusão
Que quem vai pro orfanato
É igual televisão
Chiquitita não é relato

Aí cê é contra quem aborta
A saúde da mãe não importa
Que vai fazer na boca de porco

Aí cê é contra que adota
Se um casal gay bate na porta
É mau exemplo pro garoto

Aí é mimimi, uma revolta
É um lixo, não se comporta
O que fazer com esse estorvo?

Ih, esse aí não desentorta
Não pôs os méritos à prova
Prova de fogo e ele morto

Com a bênção geral

O merecido e tardio aborto.

quarta-feira, novembro 09, 2016

Como de costume! (01)

Hoje, pra sair um pouco do formato poesia e também porque, mais do que a combinação sonora das palavras, pretendo aqui desabafar algumas percepções de como somos educados, não raras vezes, por caminhos quase nada lógicos, humanos, enfim.

A partir daqui, alguns já abandonaram este texto, pois esse papo de humanidade quase que cansa. Perceba isso: nós, humanos, por definição genética e biológica dispensamos nosso diferencial poder perante os outros seres vivos que, segundo a ciência, é ser racional para desumanizarmos cada vez mais nosso dia a dia.

Desumanizamos com o avanço tecnológico e invenção de novas máquinas; desumanizamos, por exemplo, com a retirada de um dos profissionais que mais tem história pra contar no dia a dia: o cobrador, no ônibus. Hoje, o motorista (em alguns casos) cobra e dirige; isso quando a maquininha já não resolve toda a demanda.

Mas, esse texto não é pra falar sobre classes trabalhistas. Voltando a questão da humanização, estamos tentando nos tornar robôs para competirmos com eles, até na atenção de outras pessoas na mais simples conversa. Quem sabe você virando um robô, não fica com o aspecto de ser algo novo tecnologicamente falando e os celulares que desviam e prendem frequentemente a atenção do nosso interlocutor percam espaço para nosso novo perfil robótico?

Assim como no robô, tudo funciona por uma programação. Estamos muito próximos de, infelizmente, concretizarmos nosso processo de desumanizar, ou seja, reduzir a pó nosso diferencial de seres racionais para obedecermos à programação estabelecida pelos pais, TV, escola, igreja.

Tudo é por costume, por tradição. Longe de pregar desrespeito ou a quebra de alguns ritos tradicionalíssimos. Mas, se refletirmos um pouco mais sobre eles, veremos o quanto somos ilógicos em nosso ideal e atos, por que não dizer até incoerentes?

Acumulamos roupas, tralhas, dinheiro, bugigangas das mais variadas ao longo de uma vida. Por quê? Porque assim nos foi ensinado. Desprender-se é muito complicado, porque isso também nos foi ensinado. Em reflexão por esses dias, pensei: por que eu preciso de tantas peças nesse guarda roupas? Ou pior: eu preciso? E isso se estende do guarda-roupas à sapateira, passando pelo cantinho da bagunça, enfim, pela nossa vida.

Não digo aqui pra ter uma mochilinha de mão e embarcar pelo mundo. Mas, quando percebemos esse exagero, a reversão não é só decidir mudar e pronto. É uma reeducação, assim como quem sempre comeu guloseimas e fast-food e, de repente, tem que mudar os hábitos para um cardápio mais saudável, por questões de saúde ou qualquer outro motivo. Mais do que a consequência, o resultado dessa mudança, mais angustiante nessa escala, é a causa, a razão: O COSTUME.

Esses dias, ao ler a postagem de uma amiga no facebook durante a distribuição de marmitas para moradores de rua, refleti: 1) quantos outros amigos vi fazendo isso (inclusive eu)? 2) geralmente, no face, as pessoas postam fotos de baladas, festas, mas, isso, não. 3) (essa foi a que mais me agoniou) acompanhe o raciocino: pensei que meu tempo era escasso para contribuir assim como ela fazia, porém, essa missão era feita em seu horário fora de trabalho, livre. Logo, seria um momento que ela poderia aproveitar para o lazer dela, seja ele qual for; muitas vezes deixamos de fazer algo beneficente porque não queremos nos privar do momento de lazer que nos resta. E não queremos fazer isso por não considerarmos a atividade de ajudar os outros, um lazer; para alguns, é até um fardo.

Então, ignoramos a necessidade do nosso próximo para irmos a qualquer lugar do nosso interesse, pois, esse passeio que fazemos é prioridade em comparação à qualquer iniciativa como a desta minha amiga. Novamente não digo que é preciso abrir mão de tudo, mas, nossa essência foi formada pensando primordialmente no “eu” e, depois, se sobrar tempo, no outro.

E, por costume, fazemos ou deixamos de fazer tanta coisa. Nosso hábito prevalece à reação. O ato de reagir implica em uma resposta a uma ação inicial, porém, por vezes, inúmeras até, somos repetidores de mantras, do que nos disseram, do que nos foi ensinado, do que nos foi passado como o certo, “é assim”, “sempre foi desse jeito”, “sempre funcionou dessa forma”, “num mexe não, deixa como está, tá bom assim”.

Com todo esse contexto, nossa geração, talvez até algumas pra trás e outras pra frente ainda sofrem e sofrerão com nossa forma animal de responder aos estímulos, que responde aos comandos do treinador que, se rolar e fingir de morto, ganha um biscoitinho e, por isso, agiu corretamente. E os filhotes reproduzem a reação.

Outro exemplo claro de atitudes que fazemos por repetição é o de ligar a TV. Habitualmente, muitas pessoas pegam o controle remoto e imediatamente antes de procurar algo que as interesse assistir, procuram a Globo e, depois, começam a zapear, pra cima ou pra baixo. Mas, esse hábito de ir primeiro em determinada emissora, geralmente, a Globo, faz com que isso vire um hábito e às vezes, nem inicia a próxima busca. Estaciona ali mesmo e seja qual for a programação no ar, ali permanece, quase como uma hipnose.

Exemplo disso é a onda de violência que estamos propagando e ao mesmo tempo, lamentando dela ser nossa realidade. É mais do que triste isso. A tal hipnose que citei no parágrafo anterior faz com que nosso hábito bloqueie uma reação natural humana de alguém sem estar sob o efeito da hipnose. Na TV, programas jornalísticos sensacionalistas que têm como principal pauta os casos de criminalidade geram tamanha revolta nas famílias que aos poucos adquirem um potencial de se tornarem os justiceiros e vingadores de todo o mal.
O acúmulo da revolta diária com a violência que invade as casas coloca no cidadão o medo, o preparo para o combate e deixa os nervos mais aflorados para qualquer situação. É natural que o alerta do risco que você vê pela TV por duas ou até mais horas no seu dia te deixe a ponto de enfrentar até o exército americano, se preciso. Você vai se revoltando, se preparando. Não que não precise, mas, se a TV divulgasse mais coisas boas que acontecem, talvez nos ocupássemos mais com isso e talvez, a propagação das coisas ruins diminuiriam também. Acredito muito nisso.

Ainda nesse tema propagação da violência, faço uma pergunta para que reflita antes de seguir a leitura. Quando você chega em casa, depois do trabalho, quer relaxar ou manter a tensão do dia a dia?
...
Se você quer se manter tenso, siga nas programações oferecidas que temos por aí. Se sua resposta foi relaxar, por que para em frente à TV para ver produções (novelas, séries, filmes) em que predominam os momentos tensos, de violência, seja a sexual, física, verbal, racista, sexista, religiosa? Não parece muito condizente com o tradicional discurso generalizado que após o trabalho, buscamos em nosso lar o lazer, o descanso e quem sabe até, a diversão? Quer outro exemplo?

Pare em qualquer barzinho de centro de cidade, de bairro periférico, barzinho de vila, como se diz, e repare no que está passando na TV. Geralmente, crimes nos programas sensacionalistas que falamos há pouco. Responda-me: é lógico você parar para comer algo ou tomar uma gelada pra relaxar com cenas de assassinato explicito? Se sua resposta foi sim, por favor, gostaria de entender melhor essa lógica. Por favor, entre em contato. Se respondeu não, por que fazemos ou não nos posicionamos sobre isso? Não nos incomodamos? É sério isso...

Quando há a acomodação nesses aspectos, implica que aceitamos, pois é costumeiro, não é novidade; o que é mais assustador ainda.

De costume em costume, deixamos a racionalidade em segundo plano. Da lógica do que fazemos ou deixamos de fazer, assistimos ou não, pouco se baseia num fundamento que tenhamos formado sobre aquilo. Com esse texto, não pretendo fazer com que você a partir de agora comece a racionalizar tudo, impor lógica e explicação para o que vai fazer ou escolher. Só proponho a reflexão se realmente pra você faz sentido alguns atos. E mais, se eles condizem com o discurso que fazemos no dia a dia.

Em sequência a estes questionamentos, e após nova reflexão que fiz sobre a onda violenta que invade nossa casa e pior, nossa cabeça, proponho que aponte quais programas assiste e durante a audiência, tente por alguns segundos fechar os olhos e se concentrar no som. A compreensão do que se assiste, para alguns, é visual. Para outros, sonora. Independente de qual sentido você tenha mais apurado, insisto que concentre-se na audição de suas programações favoritas.

Posso apostar que quase na totalidade dessas atrações, vai ouvir gritos, trilhas tensas, pancadas, agressões e tramas que envolvem traições, corrupção, planos de prejudicar ou quem sabe até matar alguém. 

Acredito muito que reproduzimos aquilo que lembramos. Quando trabalhei em rádio, nas ocasiões que tocava, por exemplo, um rock dos anos 80, pouco tradicional na programação, predominantemente sertaneja, era fatal alguns minutos depois ou no dia seguinte, outro ouvinte ligar e pedir alguma outra música do mesmo gênero, da mesma banda ou mesmo estilo. Outro exemplo claro disso são as trilhas de novela que, no dia seguinte após o capítulo final, ninguém mais pedia. 

Então, concentrando-nos na máxima que reproduzimos o que lembramos e se ouvimos e assistimos conteúdos repletos de violência, gritos e pancadas, é isso que assimilamos. E pior, é só isso. E pior ainda: vira nosso costume reações mais agressivas, pois aquilo não soa mais como estupidez ou brutalidade. É normal. E nessa normalidade, implantamos no nosso dia a dia.

Nesse nosso costume, as nossas preferências se adequam a isso que nos é oferecido. Tudo muito veloz, com impacto, com som alto, com tudo que teria as condições para nos irritar e não para ser nossa opção nos momentos de lazer. Não temos paciência com programas em formatos mais documentários, com transições mais lentas de imagem, com cores menos impactantes e vivas. Aquilo soa como chato. O mesmo acontece com emissoras de rádio que têm um perfil, digamos assim, menos agitados, na seleção musical e na locução de sua equipe.

Programas mais informativos, mais focados no conteúdo e menos na velocidade estética exigida, perdem espaço. E com tanta informação jogada pra você, você também perde espaço... pra pensar, pra refletir sobre o que viu. Como não dá tempo, assimila só os gritos, agressões e vida que segue.

O tal do costume se estende também para a música. Além do gosto quase genético, do aprendizado em casa, a molecada aprende a ouvir música nas festinhas da escola, nos aniversários dos colegas, no rádio do carro, em casa, na TV, pelo celular, YouTube... Aí também peço sua atenção à intensidade de tudo o que ouve. Não pelo gênero, mas, pela pressão que recebe esse conteúdo sonoro. O rock pesado e a música erudita podem transitar pelos seus aparelhos sonoros com a mais intensa qualidade para não ser prejudicial e levar a você, acima de tudo, MÚSICA. Já que é pra fazer bem, permita que ela faça. Porém, não se deixe seguir pelo "de costume". Quem é underground (detesto esses termos americanizados), quem prefere músicas diferentes da maioria é quase que, naturalmente, excluído. E nesse grupinho prevalece o som do momento, aí até rimando, cada vez mais barulhento. 

Esse texto, insisto para você que continuou até aqui, não tem a pretensão de ser um adestrador para que você mude todos os seus hábitos; até porque é exatamente esse o contexto: a revolta contra essa nossa forma de fazer tudo "Como de Costume" e seguir às normas e padrões que sei lá quem impôs.