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sexta-feira, novembro 11, 2022

Bolsonarismo

Como chama mesmo aquele negócio lá?
Aquele troço que dá na gente
Faz a gente se agoniar
Ter raiva do diferente
De odiar até parente
Mas, parente também, a gente não pode optar

É um tal 'dum' sentimento
Que o coração chega a ferver
Não tem aquele ar de lamento
É mais um negócio de arder
Queima, mas num chega a doer
A fervura que 'tá' por dentro

É uma mistura que tem quem acredita
Que é paz, chamam até de fé, boa postura
Que a palavra de Deus até explica
Como entenderam na escritura
Que, convenhamos, não é toda criatura
Que é de fato bendita

Sabe o "pegou pra Cristo"? É perfeito.
O povo de Cristo 'tá' louvando torturador
Pedindo matança em nome do respeito
Estão pegando DE NOVO pra Cristo o Senhor
Mata! Em nome do meu cristão valor
Que aí o doutor põe lá no B.O.: suspeito

Olha que eu nem falei o nome
Só pra quem tem visão apurada
Já sabe até o que ele come
Uma falta de empatia como entrada
Um rancor sangrando, uma alma gelada
Menu em branco não apaga fome

sexta-feira, outubro 07, 2022

Cores Mortas

Sim, tem cor que mata
Corrigindo: tem cor que faz morrer
No Brasil multicor, dependendo a paleta
É valeta
Caixão, vela preta
Na vala a descer

E aqui é sortido, nada sortudo
Sem sorte, muito menos sorteado
É sempre o mesmo grupo
Colorido, todo preto e vermelho estrelado

Nosso verde da mata mata
Não amarela
Seu progresso desordenado
Deixa sequelas
A união de cores da aquarela
Num tom fosco apagado

Às vezes, é preciso, melhor assim
Que apagado, deletado, 
no sentido de dar fim

Sim, aqui se matam vermelhos
De pele ou de partido
Pretos na pele, e esse é o motivo
Quem é pelo arco-íris identificado
Também muito arriscado
Se está na sigla definido

Sim, é tudo disfarce
Esse país tropical que se fantasia de carnaval
A nossa real face
É ser o país mais perigoso
A quem busque o gozo no sexo igual
Morre pela origem do prazer
Com dolo e com aval
Inclusive eleitoral

Sim, o povo brasileiro se encontrou
Assumiu a postura, impostora
Hipócrita, conservadora
Que tenta se impor
Sem pudor de disparar e matar
Armada, em nome do Senhor
Cristo que nem ouse voltar
Iriam confundí-lo pela cor

terça-feira, dezembro 22, 2020

Rio de Dezembro

Faz mais de uma semana que voltei
Ainda não me debrucei
Ou melhor, não tinha me debruçado
Pra escrever o Rio

O Rio já tão declamado
Não há linha que eu possa puxar o fio
Que ninguém tenha falado
E começando pela fala, o "S" chiado e o "I" dobrado

Nunca perceberam o "I"?
Pede pro carioca falar Rio
O segundo "I" é meio tonzinho pra baixo
RIiO
E bota i no meixmo, eixtra, e por aí vai...

E lá, por onde você vai
É alertado, uma tensão do carai
Retorna de ré, fica abaixado

O Rio com suas praias
Não senti o mar salgado
O Rio de shorts e saias
De um calor exagerado

E sabe qual foi o maior exagero?
A maior discrepância?
Foi ver um morro equilibrado
Por esperança

E abençoado por uma igreja
Ali, quem mora, teme a tempestade
Ali quem prega, já conhece a bonança

Não sei se é mármore que fala
Mas, a fachada, por si só já fala
Não vou lembrar o nome
Mas, era letra por letra separada
Estilosamente fixado
Aço fosco, escovado

Luxuosa, a ponto de eu nem duvidar
Se me falassem que era o portal do céu
Bastava olhar
O que pra uns era lar
Ou o que era o caminho fiel
Não parecia difícil a escolha
Por qual iria andar
10% de dúvida cruel

Pouco à frente, já na curva
Perguntei o nome daquele morro
Pra fazer jus à referência no meu verso

"Não tem nome, não, ali foi invasão, ocupação"
Meu pensamento sempre em processo
Já pensou: 
se nem o local mereceu um endereço, uma localização
Imagina o cidadão que ali se alojou

E logo na entrada de outro morro
Chamou minha atenção
O armamento pesado, empunhado
Preparado pela corporação

Para que, em qualquer situação,
Estivesse engatilhado
Sobre rodas ou pé no chão
No banco de trás da viatura
Corpo na postura e arma na mão

Rodamos Mangueira, Vila Isabel,
Maracanã, Cacique de Ramos
Do Cristo, passei perto, olhei pro céu
Era tanta neblina que nem enxergamos

Pense numa fumaça
Que conforme a tarde passa
E o breu vem chegando
Foi melhor voltar pra casa
Na Ilha do Witzel, afastado como tantos

O Rio, às vezes, é de lágrimas
Da violência de cenas trágicas
Mas, também é de emoções, como o carnaval
Quando é ainda mais atração mundial
Pela Sapucaí e suas mágicas

Magias, encantos, efeitos especiais
Belezas esculturais
Em corpos humanos
Em construções naturais

O Rio de Janeiro, do samba, da Lapa
Do futebol, tema que não escapa
De Zico, Garrincha, Edmundo e Romário

De camisas da escola
Tanto quanto as de time
São tantas peculiaridades
Que mesmo com tantas obras
Esse poema (e mais outro, e mais outro e mais outro...)
Todos seriam necessários
Porque pra um Rio, não há palavra que exprime
E expresse ou resuma o que traz o mundo inteiro
É pelo calor do ser brasileiro?
Não creio...
Pelo menos que seja só isso, nem a bossa
Nem aquele abraço, nem as Águas de Março
Que tudo isso é muito cosa nostra

As águas desse Rio não são
Nem de janeiro, nem de março
O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
Miliciano e desigual  
Estou escrevendo em dezembro
De um próximo ano 
com fevereiro sem carnaval

sábado, julho 09, 2016

Marchando, soldados!

Quando falamos de marchar
Já lembramos do quartel
Do soldado cabeça de papel

Assim como as cantigas infantis
Tinha tanta gente feliz
A caminhar
E louvar

Eram tantas cores
Vozes aos milhares
Gente que dançava
Pulava, comemorava, louvava

E o menino no colo olhava
De olhos arregalados, fascinado
Não tinha como não se encantar

Era um sentimento que transcendia
O povo ocupava toda a via
Que no dia a dia
Só tem carro, buzinaço
É outra energia
Outra correria

Igualmente inexplicável
A fé que ali seguia
Incomensurável

Autonomistas tomada
Gente mobilizada
Com cada passada
Canções coreografadas

Os funcionários das lojas, nas entradas
E a cada louvor entoado
Eles timidamente cantavam também

Festejavam e sorriam sem olhar a quem
Cada um ali na sua fé, na sua alegria
A exaltar Jesus
E propagar o bem