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terça-feira, novembro 18, 2025

Armas made in Rio

Minha visão anda tão fria
Só que esses dias
A dor que assolou o Rio
Cruzou esse meio fio 
Desalmada com fuzil
Pra invadir a calçada
Pegou descalça
A normalidade falsa
De comunidades abandonadas

Não é que não tem gente
É que essa gente não conta
Quando a mira aponta
Qualquer que seja a contagem
O argumento desmonta
Que foi algo diferente

Não foi!

Não mudou o formato
Não mudou o retrato
Nem o alvo mudou 
Muda-se o endereço
Não muda o desapreço 
Com que o Estado tratou

É geralmente como ele trata
Matar na favela é a bala de prata
Para quem neles vota
Cancela-se o CPF
Nunca o CNPJ
Que tem assinatura
Legenda e legislatura
Só não assina a nota

O chefe que deu o aval
Para que o gatilho policial
Subisse a Penha e o Alemão
Não levou em consideração
Que o que chamaram de megaoperação
Trouxe mais corpos que fuzis
Não pode ser natural
A morte ser tão banal
E dependendo do autor e da cor
São dois ou mais rostos de Brasis

Pra ter tantas palmas quanto balas
Essa conta não condiz
Que a vida isso, a vida aquilo
Não bate com nossas falas
Pro Estado do Rio é a quilo
Que são vendidas, distribuídas
Vidas ceifadas nas armas

Armas que no RJ não são fabricadas
Imagina a 12 ou AK cariocas da gema
Nem vem escrito made in Rio
Made in Morro, dá pra rastrear no sistema
Nem as drogas são ali preparadas
Pela lei, no RJ também são proibidas
Como não compensa ficalizá-las
Já que o preço são vidas
Tudo continua como na semana passada
Só mudar o jovem e a arma empunhada

Daqui uns dias, a dor geral se despede
Nada mais se faz
Quem perdeu alguém, perdeu
Fica o Castr... opa, o rastro de tudo que aconteceu
A falsa sensação de paz
Das belezas naturais
Da cidade maravilhosa
Lema que tanto se vangloria
Até logo mais, em outro dia, 
Tudo recomeça
Sem ensaio de cena, 
Se encena a mesma peça

Mesmo texto
E com pretexto de combate ao crime
O governador define
Foi um sucesso a ação

Da omissão que pouco se diz
Por mais que o morador apele
A dor que vai pro mundo legendada
Aqui, leva a legenda do PL
Só que é dificilmente assimilada

Eu nem consigo explicar
Só lamentar pelo Rio
Que já rendeu tanta poesia
Nessa, não rima janeiro, fevereiro e março
28 de outubro deixou outro verso, outro traço
Um dia, acima de tudo, sangrento
Já pensou se o Cristo Redentor
Com seus estendidos braços
Deixasse o Rio menos violento
Sob o sol, tanto corpo empilhado
Não dá pra culpá-lo do fracasso
Se o passo não muda faz tempo

sexta-feira, outubro 18, 2024

Pra Que Tanta Foto?

Pra que tanta foto?
Ah, pra guardar a lembrança
Eu mesmo tinha na lembrança
Que tinha começado um poema assim:
Pra que tanta foto?
 
Mas, não achei
Não postei, não digitei
Mas, na minha lembrança
Eu tenho uma imagem
Num papel, de caneta azul escrito
Cheio de rabisco
Uma rascunhagem
 
Mas, a pergunta persiste:
Pra que tanta foto?
Pra fazer postagem
Os mais novos nem vão entender essa frase:
Lembra quando as fotos eram num filme?
12, 24, 36 poses
Era em pose a quantidade
Havia limite e autocontrole
 
Será que isso vale uma foto?
Hoje, tudo vale uma foto!
Sabe quando não se tira nenhuma?
Quando é algo de suma importância
E tão bom
Que nem vem na lembrança
Tirar foto alguma
Ninguém pergunta: vamos tirar uma foto?
 
Pra que tanta foto?
Se nem tem mais os albinhos da Kodak
Porta-retratos não têm mais lugar de destaque
Poses viraram Mega e Gigabytes
Pastas, microcards
Memórias quase infinitas
De tanta imagem que cabe
Nos celulares, fototecas e galerias
Ao encherem, viram links pro Drive
 
Fotos flutuam nas nuvens
Não olhamos nem uma nem outra
É tanta foto, de tanta coisa
Tremidas, desenquadradas
Na correria louca
Não vem na lembrança, apagá-las
 
Aí a gente abre
Arrasta, arrasta, arrasta
De tanto arrastar, dá tontura
Foto vídeo, download, captura
Você consegue organizar as pastas
E ter alguma ordem, estrutura?
Ou é só um monte de figura
Que essas, pelo menos,
o tempo não desgasta
 
Mas, também não bate sol
A gente mal bate o olho
Se de alguma foto bate saudade
A cansativa procura rebate
E nos perdemos no bolo
Nos perdemos no rolo (da câmera)
 
Não lembramos nem como procura...
Cronologicamente?
Pode ser, mas, logicamente, a gente se perde
É tanta foto e a gente nem percebe
A gente.
A lógica é que a gente não esquece
Os cliques da mente
Os cliques que as lentes não veem
Que as galerias digitais não têm
São as fotos que, de fato, duram pra sempre.

terça-feira, outubro 15, 2024

Como se mede o tempo?

Como se mede o tempo?
Pelo tempo que falta ou tempo vivido?
Há quem calcule em horas, minutos
Há quem nem calcula, pois é tempo perdido
Já que não se sabe o tempo restante
Põe na conta as fotos na estante
Cada sorriso, o tempo amarelou
As fotos de antes vão se embaçando
Nitidez e cores se misturando
O tempo exato ninguém marcou
 
São fotos mais ou menos de tal ano
Se nem o ano a gente consegue lembrar
Pra quê pressa pra tudo ser passado
Ao ponto de não poder escutar
A vida em velocidade real
A tecnologia nos fez achar normal
Acelerar vídeos e mensagens de voz
Ganha tempo, essa é a impressão
A fala perde toda inflexão
É um tanto faz tão atroz
 
Atrás de otimizar o tempo
Ninguém me diz como se mede
Como você repara que o tempo se foi?
Se nenhuma pausa se concede
Agora, eu vou te dizer como eu reparo
É pela mão do meu filho ao meu lado
Quando eu segurava aquela mãozinha
Ou ele a usava toda pra me segurar um dedo
Eu, ainda mais novo, morria de medo
De tudo que vinha
 
Mas, sabe como se mede o tempo?
É quando se repara na diminuição
Da distância proporcional
Da dele na minha mão
Os tamanhos vão se igualando
E vai passar, está se aproximando
Isso vale também pra altura
Pra beijar sua cabeça, eu abaixava
De cima pra baixo, olhava
Ainda te beijo, sem baixar a postura
 
E digo ainda... até você ter vergonha
Do pai querer ser carinhoso
Não sei quando o tempo vira essa chave
Vai doer, mas, eu vou entender, meu garoto
Sabe como mais se mede o tempo?
Quando a roupa é no mesmo departamento
E minha gaveta, percebo defasada
Minhas meias brancas, encardidas
Quando crianças, as claras eram proibidas
Pra patinar andando pela casa
 
Você nem liga que eu dou bronca
Você que está certo, fodam-se as meias brancas
Por mais que não vá esfrega-las no tanque
Meias nunca serão inteiras lembranças
O tempo, a gente não sabe o ponto final
Você já aprendeu sua conta ideal?
Afinal, cada um no seu tempo, mede o tempo pra si
Há tempos que queremos que dure uma vida, ou além
Há tempos que mostram quem é quem
Todo esse tempo me fez esse alguém que chegou até aqui
 
Por fim, pra não perder mais tempo
Nem são perdas usados em versos
Pauso
Encontros, áudios, cafés expressos
Expressos? Sentimentos ninguém expressa
A mais nenhum ouvido interessa
Tem tanta mensagem não dita
Em respiração, em silêncio
Fração de segundo, um tempo imenso
Se dor aflita grita e não se escuta... imagina escrita

segunda-feira, outubro 07, 2024

A Vida É Um Desequilíbrio

A vida é um desequilíbrio
Um descabido desacato
Descalabro é apelido
Desigual retrato

Era um equilibrista
Sobre um monociclo
No farol pra Autonomistas
O vermelho é o período

Era também malabarista
Girava um bambolê no pé
Embaixadinha, outra arte
Era tanta habilidade
Ainda vendo, não pus fé

O rapaz usava um chapéu
No amarelo se preparava
Fechou, começa o show
Que nenhuma palma escutava

Não sei se se virava nos trinta
Como no quadro da televisão
Não sei se o dia paga os 30
De trocado, mão em mão

A vida é um desequilíbrio, veio a frase
Eu olhando aquele artista
Na Salém Bechara com a Autonomista
Sem que ninguém se revoltasse
Sem que ninguém se perguntasse (ou orasse)
Pra que ele resista

Os temporais vão passar, eu já ouvi
Nesses dias, ele nem pode estar lá
Pode derrapar o pneu, o pino cair
O bambolê ou a bola na Primitiva rolar

Ah, mas, ele poderia estar num circo
Meu amigo, todos estamos e faz tempo
Sem essa de Respeitável Público
A plateia vive em sofrimento

Sem aplausos efusivos
Nem aos palhaços, gargalhada
A risada não tem sentido
Se nossa dor é a piada

A vida é um desequilíbrio
A gente arruma emprego, destrói o emocional
Física e mentalmente comprometidos
Corremos e vibramos positivos
Pra atrair o capital

Aí estabiliza no banco
Tá verdinho no aplicativo
Só que é no vermelho que se soma
Trocas, trocados e a vida truca!
Seis! Cês corre por juízo?
É do jogo o blefe, não a fuga
A vida é um desequilíbrio

quarta-feira, outubro 02, 2024

Acontece Poesia

Pra começar a contar
Não ando mais prevenido
Sempre tinha um caderno na bolsa
Pro caso d’um poema sentido
 
É... sentido... os versos estão aí pelo ar
Quem os enxergar , que canete
Aí peguei a folha na impressora do trampo
Antes que a mente o mote disperse
 
E, pensando agora, nem lembro da última vez
Que botei papel e caneta pra conversar
Faz tempo e é curioso
Parecia que a poesia flutuava em outro lugar
 
A gente não vinha se trombando
E nem é porque eu não queria
Cheguei até pensar que era idade
Naturalidade, ah, o tempo distancia
 
Mas, não era nada disso
De cabeça baixa, o raio é curto
Aí a poesia, mesmo ali em volta
E eu andando outro percurso
 
Sem visão panorâmica, periférica
Não sente nem o cheiro, nem escuta
E poesia tem tudo isso?
Quando te chamam de amor, um aroma de flor
O sabor de uma pele, a língua desfruta
 
Eu andava sem palavras
A todas essas delícias da vida
E esses dias, o que me lembrou de procurá-las
Foi uma bobagem assim percebida
 
Uma mesa pra família tomar café
Me passa a manteiga aí do seu lado
Meu filho, pela irmã acolhido
Amor, traz aquilo do mercado
 
A poesia ficou me lembrando
Dos encontros que sempre tivemos
Do quanto ela me alivia
Da dor desses tempos modernos
 
O buscar um pão é meu carinho
Minha rima traduzida em ato
No dia, a situação corriqueira
Quase nunca se faz retrato
 
Só que ao escrever, eternizo
Do café, o cheiro e a fumaça
O simples dia que amanhece
O dia inteiro acontece
Poesia
Diante dos meus olhos, passa
 
Às vezes, tudo bem, a gente não vê
Esquecido na caneca, o café esfria
Pro céu, nada muda se eu não olhar
O sol nunca será ou foi escuridão
Mesmo quando eu não o via

sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Meu/ Teu Espelho

Não gosto do que vejo
Meu rosto no espelho
O corpo traz um peso
O rosto também confirma
Que não desejo
 
O olhar tem certo desespero
Corre, visando dinheiro
Faz-se cego para vê-lo
Cego para além do vidro
No papel de espelho
 
A passada é ofegante
Contínua, frustrante
Repetitiva, agoniante
Silenciosa de boca
De alma gritante
 
Teu espelho te agrada o bastante?
Tua imagem, teu semblante
Tua dor sufocante
Tem que esperar
Falar nem sempre é relevante
 
No meu espelho, fico triste em dizer
A imagem que está me obriga ver
Uma versão que eu não queria ter
Uma estrada cansada, esgotada
Dos passos em vão, não do ser
 
Seja o teu ou o meu espelho, a missão é proteger
Da trinca, do azar que a maldição pode abater
Espelhos refletem sonhos que deixamos se esconder
Você, no teu espelho, tua alma te lembra
Reflexo é o que se perde, o que que morreu
E reflexão é o que ousou sobreviver

terça-feira, setembro 05, 2023

Repara Bem

Repara bem
O quanto a gente se vê na escuridão
Não é preferência
Caberia até uma discussão
Filosófica, experimental
Da aparência

Repara bem
O quanto a gente mal se enxerga
Se olha de verdade
Pensa aí: há quanto tempo nem se observa
Dos seus olhos pra dentro
Sua intimidade

Repara bem
O quanto se vê em reflexos do dia
De passagem
Vitrines, janelas em carros ou lataria
Pode até ter desfoque
Mas é sua imagem

Repara bem
O quanto seu olho mesmo desfoca
Sua visão distorce
Ao ponto que nem filtro retoca
Em nenhum grau se vê
Por mais que a vista se force

Repara bem
Reparei pra escrever tudo isso
Era transparente
Eu só me via naquele vidro
Pois era noite
Eu me via em minha frente

De dia,
Não adiantaria eu reparar
Veria o jardim e o que tinha além
Seria bom também de olhar
Mas não veria meus passos
Nem se eu reparasse bem

quarta-feira, junho 21, 2023

Carta pra Deus

Na moral, Deus, sou espírita, tá ligado?
Acredito em reencarnação, em evolução espiritual
E tem uma frase tipo "moral da história" que espalho aos chegados
Não peça a Deus paciência, virá algo pra elevar o grau
Peça paz ou sabedoriapra encarar os atrasa-lado
Deus, eu tava aqui ouvindo Chico Buarque - Partido Alto
E tô achando que tu tá de sacanagem, na moral

Que porra de provação é essa, é prova pública pra vestibular
A gente tem que debater c'os irmão que não sai lá da sua casa
Que arma não é um bagulho que cê ia aprovar
Que rir dos outros morrendo não orna com sua palavra
Não consigo imaginá-lo na Galileia a peregrinar
Trombando nego doente, com fome e danando a julgar
Também... quer o quê? Tem um monte de filho essa raça
Que multiplicar peixe, vagabundo? Faz tua vara e vai pescar

Na moralzinha, Deus, deu falha na Matrix numas gerações?
Seus filhos fazendo mó fuá aqui, 'cê' num vem?
Se o Senhor visse os culto, do quanto arrecada nas sessões
Mano do céu, de 10 em 10 por cento, de vários quarteirões
Se ouve os gritão de amém.
Tá nível Fuvest a gente manter cabeça boa com essas questões
Deus, quem se diz seu aliado, até seu porta-voz, nem copiou suas lições
E garantem que vão tá contigo aí no além

A gente tá tão louco das ideia que os seus andam defendendo tortura
Imagino que seja um assunto delicado pra Ti, esse tema é sofrido, doído
E aí, nós, de boa, temos que quase desenhar que esse proceder na postura
Matou inclusive o Senhor e mais um monte que nem foi defendido, protegido
Aí os 'matadô', 'torturadô' são condecorados por bravura
Até contexto pra pedofilia, sua turma hoje em dia procura
A gente que lute pra argumentar com sentido, tamo fudido

Deus, vê se salva a próxima safra, qual insumo tá faltando?
Multiplica aí, 'cê' não é o bichão? O 'oni' tudo? E ó, credita os cashback dessa vida
A gente nem tá evitando a fadiga, tá real se desgastando, eu fico me perguntando
Se a cada reencarnação dá uma evoluída, a gente avança e tu castiga?
Ou o ponto de evolução dessa é dar murro em ponta de faca tentando
A gente até tenta falar, só que até o Papa andam xingando
A mão de tanto murro, tá ferida
Deus, se quiser, dá uma força aí e, se for o caso, 
Se não derem uns bicos nela, pede ajuda pra Aparecida.

terça-feira, junho 20, 2023

Sorriso Sem Clique

Tem frase dita sem pretensão
Que provoca reflexão
É difícil expressar felicidade
Mais fácil a dor ter expressão
Ela parece ter mais necessidade

Se felizes, podemos sorrir
Gritar, pular, dançar
Mas traduzir com propriedade
No escrever e falar
Tem outra dificuldade

Já a tristeza
Transborda adjetivos
Advérbios, metáforas
Versos contínuos
Rimas, mágoas

Já reparou em quais momentos
Nem foto você tirou?
Lembra aí o sentimento...
Daquele instante...
Alguém 'printou'?
O clique não era importante
Só que a imagem marcou

sábado, outubro 08, 2022

Como é Grande meu Foda-se por Você

Sabe aquela música?
"Mas, com palavras, não sei dizer"
No caso, não é de um amor tão grande
Que pretendo escrever

Sim, é de algo gigante
Talvez até maior que aquele amor
Inegavelmente intrigante
Cada vez mais constante

É também um sentimento
A cada dia mais distante
O alheio sofrimento
Ignorado, irrelevante

Importante é o nosso
E só
Se não me atingem destroços
Que explodam, 
sem dó
Sem ré
Avança, sufoca
O nó
A corda enforca
Do fogo faz pó

Cinzas, sejam quartas, domingos ou quintas
Todos os dias têm
Lágrimas de despedidas
Só de alguns quando se vai alguém

Só que meu país, nesse assunto, já foi bem
Hoje, o mal tomou conta
A ponto de perder a conta
De perder a ponta... da meada
Não se sabe onde o mal acaba
Nem se o bem um dia vem

O verde matou a esperança
Quem disse que ela morre por último?
O amarelo da fartura e bonança
Estampou luito e infortúnio
Não foi por azar, foi previsto
Não faltou avisar, insisto
Rindo, cumpriu-se o intuito

A revolta já deu meia-volta
Inverteu o sentido
Não sente mais pra que lado tem ido
Nem importa
Quem se importa com gente morta?
A gente nem liga pro choro de quem tá vivo.

sexta-feira, outubro 07, 2022

Cores Mortas

Sim, tem cor que mata
Corrigindo: tem cor que faz morrer
No Brasil multicor, dependendo a paleta
É valeta
Caixão, vela preta
Na vala a descer

E aqui é sortido, nada sortudo
Sem sorte, muito menos sorteado
É sempre o mesmo grupo
Colorido, todo preto e vermelho estrelado

Nosso verde da mata mata
Não amarela
Seu progresso desordenado
Deixa sequelas
A união de cores da aquarela
Num tom fosco apagado

Às vezes, é preciso, melhor assim
Que apagado, deletado, 
no sentido de dar fim

Sim, aqui se matam vermelhos
De pele ou de partido
Pretos na pele, e esse é o motivo
Quem é pelo arco-íris identificado
Também muito arriscado
Se está na sigla definido

Sim, é tudo disfarce
Esse país tropical que se fantasia de carnaval
A nossa real face
É ser o país mais perigoso
A quem busque o gozo no sexo igual
Morre pela origem do prazer
Com dolo e com aval
Inclusive eleitoral

Sim, o povo brasileiro se encontrou
Assumiu a postura, impostora
Hipócrita, conservadora
Que tenta se impor
Sem pudor de disparar e matar
Armada, em nome do Senhor
Cristo que nem ouse voltar
Iriam confundí-lo pela cor

quinta-feira, julho 14, 2022

O Último

Eu queria que cada um
A quem esse verso chegasse
Pelo menos, um instante pensasse
Que é a última vez que vai lê-lo (ou ouví-lo)
Sabe por que digo isso?
Porque eu queria ter um aviso
Um alarme ativo de última vez

Pra que ao despedirmo-nos num abraço
Soubéssemos que não haveria um próximo
Quando acabaram as aulas no colégio
Quando se despediu na formatura da faculdade
Quando mudou daquele prédio
Ou deixou uma cidade

Hoje, não importa o dia que está
Pode ser a última vez
Eu não podia imaginar
Que aquele seria o último dos pavês

Sim, o pavê de limão da minha mãe
É meu doce preferido na vida
E eu que nem fotografo comida
Registrei aquela tigela já na metade
Tamanha minha felicidade
Ter devorado além da medida
Ficou a foto, a última foto
No facebook, ano a ano revivida

Meu avô e minha mãe partiram num sábado
Em ambos eu os vi na quinta
Dei um beijo e o último abraço
O de despedida

Saí pela porta sem ter noção
Como eu queria
Que nossos encontros dia a dia
Trouxessem a notificação
Que o último seria

Já que tudo hoje nos notifica
Quem sabe a gente notaria
E desse mais atenção

Já que dizem que tudo está no destino
Nossos últimos encontros devem estar lá
Talvez ilustrado, tudo escrito
Certeza que está
É esse o último capítulo
Desse personagem atuar

A página avança
Próxima linha no sumário
A gente só não lê no rodapé
O asterisco necessário
Nem ao fim lá no glossário
A definição exata
Alerta de última data
Último almoço, última janta
Última trepada

Sempre haverá novos últimos
Aqui, ao seu redor, tem muitos
A gente só não vai saber o número da página

Antes de dar o ponto final
O último e consciente ponto final desse poema
Qual a última vez que você lembra
Que fez algo pela última vez
E nunca mais fará igual
Um último beijo, um último adeus
Um último encontro, o último tchau

Últimos...
Escrevi certa vez que o último "eu te amo"
Foi mais fácil que o primeiro de dizer
Quando não se diz mais
O último já foi dito
Nada mais a se fazer

Tem últimos que são livramentos, desapegos
Só que tem últimos disfarçados de primeiros
Disfarçam tão bem que viram últimos costumeiros
Repetimos que é o último e nunca é de verdade
Pois, tem últimos que deixam saudades

Últimos sabores como o toque de limão do pavê
Último toque de um incomparável prazer
Últimos giros do ponteiro
Não alertam da validade
Da última vez, da última chance
Da última página do romance
Da última onda que invade
Pra que o castelo de areia desmanche

A vírgula dá pausa à frase
Na vida, não há esse sinal
Só que respira e segue adiante
Meu poema eu defino, ponto final.

quarta-feira, julho 13, 2022

Mais Difícil Falar da Alegria

É mais difícil falar da alegria
Que da tristeza
Você já reparou?
Não é só coisa da minha cabeça

Uma amiga me contou
Que ouviu isso outro dia
Eu concordei
Argumentar o contrário, nem poderia

Afinal, minha própria poesia
Poucas vezes contemplou
O amor de um casal feliz
De lábios em beijos sutis
Ter um amor pra dar bom dia
Lembranças doces, pueris,
Ou o orgasmo que sacia

Tristezas são lindas em versos
Chorosos, minguantes, contidos
A felicidade, repleta de superlativos
Adjetivos e excessos

Tristeza, o poeta decifra
De tão habitual, verbaliza
A linha do verso, sucinta
Uma palavra e a pausa, respira

Já a felicidade
Com seu quê de rara
Embaralha a frase

Às vezes, nem sai
O poeta começa e para
O verso não vem 
A caneta não vai

sexta-feira, janeiro 14, 2022

Navegando...

Nesses últimos dias, me peguei numa situação tão agoniante que é até difícil de descrever com precisão o tamanho da aflição. Claro, é difícil mesmo dimensionar sentimento, seja ele bom ou ruim. Quando é bom, nem é bom (perdoe a repetição do adjetivo) falarmos mesmo. Não fale muito das coisas boas. Os ouvidos são geralmente agourentos. Mas, quando é ruim, muitas vezes (como agora) é necessário dizer, escrever, enfim, botar pra fora de algum jeito.
 
Sem tentar usar métricas ou unidades de medida, aliás, nem sei qual seria mais adequada para a agonia, ela chegou, se instalou e se pendurou em meu pescoço, mais precisamente em meus dedos que, involuntariamente, repetiam movimentos sem que meu cérebro os comandasse.
 
Estou falando de celular e rede social. Certo de que as redes em nada me agregam no uso pessoal, repito constantes acessos quase que involuntários. Há num sub do sub do subconsciente uma necessidade de estar ali e se revezando naquela do “F” para sua filial de fotos e vídeos, da camerazinha, e fico nesse ping-pong, caçando... o quê? Não sei. Não sei mesmo, eu nem queria estar lá. Há pouco mais de 1 mês, excluí meu perfil da outra rede azul do passarinho. Nela, passava também horas, mas, como são textos, eu os lia, ria em muitos, compartilhava outros e me indignava a ponto de responder em vários deles. Percebendo minha indignação infrutífera e minha insignificante relevância social naquele meio, preferi falar comigo mesmo em meus pensamentos do que falar pra ninguém. Escrevendo agora isso, estou pensando qual seria pior. Não tem melhor, ambas são ruins.
 
Aliás, qual rede é boa? E boa pra quem? Durante a formação em jornalismo, aprendi que sol não é tempo bom se a referência é um vendedor de guarda-chuvas. Acredito piamente que as personalidades das redes têm uma convivência menos dolorosa, pois fazem dela sua vitrine, sua gôndola de produtos e de lá, recolhem a sangria do caixa. Se bem que... pensando bem... não sei não se esse pessoal sofre menos porque, mesmo sendo de onde tiram o pão e o champanhe através de @s e menções, recolhem também todo o ódio peculiar a esse campo tão colorido cheio de sorrisos expostos em lágrimas que escorrem nas fronhas ou se misturam na água do banho.
 
Nesses acessos quase adestrados que por incontáveis vezes ao dia somamos índices aos algoritmos, entregamos nosso bem mais precioso, a vida. Sim, a vida é o tempo que você tem nesse plano terrestre e, muitas vezes, sem qualquer resistência, vamos entregando parcelinhas e mais parcelinhas até virarem parcelas ou até parcelonas significativas. Só que minha agonia surgiu exatamente desta resistência a essa entrega. No meu caso, a tentativa de resistir perdeu o cabo-de-guerra e a tristeza desta derrota que foi a vencedora.
 
Navegar é o verbo usado para o tempo de viagem em redes sociais. Sem motor ou remo, estamos todos à deriva, tentando chamar atenção num mar bravio onde só se enxergam transatlânticos iluminados, enquanto náufragos (nem sei se a definição cabe, pois, todo mundo se jogou no mar por vontade própria e não está por acidente) tentam chamar atenção como podem, cada um a seu modo, com seus talentos, com suas habilidades, com boias mais coloridas para serem vistos na neblina. São tantos ao mar, buscando a luz do farol para ter o resgate que muitos acabam se afogando no percurso. São mares de marés cada vez mais altas, cada vez mais salgados, água do mar com lágrima mistura fácil.
 
Há outros rios de menor movimento pela correnteza, porém, diversas vezes, esse passeio se faz sozinho, aí também perde a graça. O passeio é melhor com todo mundo junto. Por falar em graça, sinto que é necessário rir, mesmo se afogando, afinal, lá também aprendemos com inúmeros exemplos de sabedoria que é necessário levar a vida com entusiasmo e alegria. Sabe aquele lance de meritocracia? Não, não é necessário ficar rindo e ao dizer isso, você ganha acolhimento ou acolhe pessoas? Não. Você se mostra um mal-agradecido, afinal, você poderia estar no deserto e morrendo seco. Agradeça ter água, mesmo que seja do mar. Parece graça, mas, não é. Mas, parecer já está bom, pois é disso que vive o algoritmo. Que se diverte conosco. Rindo da nossa cara.
 
Ah, mas é bom rir. Concordo, é ótimo. Há quem ri de uma gracinha de um bebê, há quem ri de uma fofura de um pet, de uma piada, de uma encenação qualquer e há quem foi condicionado a rir e rir, sem nem saber por quê. E eu me peguei rindo repetidamente da mesma piada, juro, incontáveis vezes. E pior, eu nem queria. Esse condicionamento a fazermos os mesmos movimentos ao interesse alheio ao nosso consciente me doeu muito. Quis mudar e não estava/ estou conseguindo. Parece que estamos fazendo parte de um ballet, que inconscientemente nos ensina uma coreografia que só vamos imitando e repetindo. Todos. Todos ligam as câmeras, ensaiam, ensaiam e ensaiam para um espetáculo que não tem plateia. Os mesmos movimentos, as mesmas cenas, sem criatividade alguma, sem nada de artístico e a arte é o inovar. A arte é o inesperado que arrepia a pele, seja de um prazer indescritível como a agonia que me afligiu desde a primeira linha desse texto, seja de uma alegria proposital de satisfação, e não dessa alegria de sorrisos e risadas fabricadas em nada com verdadeira graça, seja o arrepio de algo que nos causa nojo ou repugnância. A propósito, nossa rede tão americanizada, com termos estrangeiros que aprendemos a transformar até em verbo e conjugá-los como floppar, hitar e por aí vai, essa mesma língua tem o termo disgusting, que, pra mim, tem som e me traduz como poucas palavras em português tal sensação de asco.
 
A arte precisa ser inovadora e causar algo. Quanto mais se tem igual, menos valor se dá e menos valor se tem quem a produz. Quando foi a última ocasião que você ouviu alguém cantar pela primeira vez e te provocou a apurar melhor os ouvidos pra apreciar aquela identidade vocal? Qual foi a última vez que você viu alguma obra artística e visual que te instigou a dedicar sua visão aos detalhes? Nas redes, está cheio de ‘Criadores de Conteúdo’. Só esse termo já me caberia mais um texto do tamanho do que escrevi até agora. Quando se dizia até certo tempo que alguém tinha conteúdo era um elogio similar a inteligente, que a pessoa sabia conversar sobre vários assuntos com certa propriedade. Hoje, a pessoa cria conteúdo às vezes até sem ter. E deste nada, surgem compradores deste produto. O preço? A vida, as horas, os minutos e até os sorrisos que se desperdiçam. Compram e indicam. Mais gente compra e o vendedor de vários nadas vira referência, vira espelho, inspiração para aspirantes a ter sua lojinha também procurada para consumo de um conteúdo que se tem de graça e em fartura.
 
Assim como disse que entramos nas redes porque quisemos, ela parece convidativa, afinal, está todo mundo lá, nós encontramos nela onde falarmos o que pensamos, não importa se alguém quer ouvir. Aliás, importa sim. Causa frustração o vácuo. Mas, não importa. Fala-se, não ecoa, frustra e esse círculo se replica continuamente. Falamos só porque queremos falar. Ela acaba sendo nossa confidente de nossas maiores fragilidades e só nos devolve mais dor a essas angústias e, mesmo assim, há quem recuse o bote que leve à praia. Sempre vale tentar mais um pouco a luz do farol por alguns segundos em roupas coloridas, movimentos coordenados, dancinhas e vozes que nem são as nossas pedindo socorro, no caso, atenção.
 
Não importa quanto você tenha remado pra chegar nesse alto mar, não importa se você é um náufrago de uma embarcação mesmo, se você estava num transatlântico e resolveu pular, não importa se você, de fato, nem precisava estar ali por já ter seu próprio barco, por ser bom nadador, por saber remar jangadas ou canoas. Não importa sua habilidade, ali o farol só dá luz a quem dança no embalo da maré.

sábado, setembro 25, 2021

Quando Eu Escrevo

Quem dera eu tivesse o poder
De ser tudo o que eu escrevo
De ter vivido todas as cenas
Umas eu nem queria viver
Vivi algumas, apenas
 
Muitas vezes, é sobre dor
Algumas que vejo
Outras, a empatia me faz supor
E passar por elas, não desejo
As de amor,
Aí que eu não quero mesmo
 
Quando escrevo, eu posso olhar um casal na rua
Imaginar que são amigos, namorados
Posso criar um personagem que atua
Ou de fora, assiste calado
 
Posso ser narrador de um ato
Posso ser um terceiro
O amante,
o traído
Posso nem ser percebido
Como um mero figurante
 
Quando do papel e caneta me aposso
Se eu quiser, posso ser
O par da atriz principal da novela das nove
No meu texto eu posso
 
Posso amar, posso estar num romance
Que só um lado sofre
Posso escrever, escrever
E às vezes, o enredo não desenvolve
 
Tudo isso que eu posso, eu faço, eu verso
Quando eu escrevo, eu posso hoje
Do ontem ser o inverso
E do amanhã, ser o avesso do avesso
 
Vão se acabando as folhas
Até os cadernos
Mas, pra um poeta
O que nos pauta é o universo.

sexta-feira, setembro 24, 2021

A Esperança é a Última

Desde criança
Aprendemos um ditado
Que a última que morre
É a esperança
Crescemos repetindo
Esse aprendizado
 
Com o tempo, até perdemos um pouco
Deixamos nos levar
Porque só na frase se apegar
Cansa...
Aí a gente para e faz um repouso
Encontra um no ombro do outro
Onde se apoiar
Aí a gente avança
 
Já imaginou desistir de quem se ama
E pode estar em qualquer lugar
Podemos o mundo circular
Como quem dança ciranda
Sem nenhuma das mãos soltar
 
Trazendo na fé a frase de infância
A última que morre é a esperança
Então, eu vou procurar
Por maior que seja a desconfiança
Nós vamos achar.

sexta-feira, setembro 17, 2021

Das Ideias Que Eu Queria Ter Tido

Fala aí, quantas vezes já viu esse tema discutido?
Pr'um compositor, sempre se questiona
Quais canções queria ter escrito

Quais versos queriam que fossem de sua autoria
Por sua mente fosse concebido
E, como um alguém da poesia, brisei nessa ideia outro dia
Das ideias que eu queria ter tido

Nesse curto instante que comecei a enumerar
Já pensei que a poesia está solta no ar
Ao alcance de qualquer um
As ideias que não pude pegar
Ocuparam a folha de algum...
Alguma compositora, poetisa
Das ideias que não consegui rabiscar
Faltou-me a vivência daquele olhar
Aquele repertório pra observar
É disso que a linha de um verso precisa

Das ideias que eu queria ter tido
Dataria em meu registro, outra década de nascido
Outro Estado ou cidade, talvez
Em vez do meu instrumento com quatro
Ter aprendido aquele mais clássico, com seis
Trocado meus calos das cordas de aço
Por nylon e timbres mais versáteis

As ideias que eu queria ter tido
Eu não poderia ter tido
O ângulo que enxergo o mar
Estaria em outro andar
Ou até por posição invertido
Ao de quem pôs-se a versar

Eu não poderia ter escrito
As coisas de um lugar
De um ambiente não vivido
Nem o que eu não acredito
Mas, o que eu não escrevi, eu repito
Eu canto, mesmo sem saber
Eu declamo, eu recito
Eu admito
Que mesmo não tendo escrito
Como eu queria ter tido
Aquela ideia pra escrever

Eu queria ter escrito a Magia Negra, do Sergio Vaz
E tantos outros poemas dele, fenomenais
E aquele que faz os versos na Fátima,
Sabe aquele rapaz? Bráulio Bessa
Das ideias que eu queria ter tido
Está aquele cordel
Se o Brasil fosse dividido
E o Nordeste ficasse independente
Eu queria ter propriedade
Junto com versatilidade
Pra falar de terra seca e quente
Como falo do frio asfalto da cidade (Não existe amor em SP...)

Eu queria ter ideias do Nei Lopes, do Chico
O Buarque, do GOG, do Brazza e Mano Brown
Ou pelo menos em um pouco dessa fonte ter bebido
Ter visto de perto, assistido
Tudo o que fazem de genial

Das ideias que eu queria ter tido
Eu tive outra
Aguçar meu ouvido
Meu faro, visão, paladar e o tato
Um por um, cada sentido
Pra que tudo que eu senti, de fato
Em cada verso, escutado ou lido
Tenha em mim assimilado, acumulado
Pra que, na próxima ideia,
Não seja mais a que eu queria
Num tempo imperfeito e passado

Será a ideia que eu tive
Que escrevi e trouxe comigo
De um pretérito, agora perfeito
Que eu trago ao presente do indicativo
Que ao me lerem, eu tenha um pouco de cada
Das ideias que eu queria ter tido

sábado, agosto 21, 2021

Perdida

A palavra PERDIDA
Me achou, me confundiu, me perturbou
A bala, só costumamos citá-la
Se ela se alojou
 
Em um corpo,
geralmente,
quase sempre todos
Da mesma cor
 
Até ela tem endereço
O destino do seu feito
Recebe até flor
 
Perdida
Quando se fala em vida
Pega a via em qualquer mão
Dizia que perdida era a da prostituição
Perdida? Como perdida?
Tão achada e consumida
Por um troco de tostão
Perdida é a partida sem razão
Que poderia ser prevenida
Perdemos de um em um
Mais de meio milhão
A mensagem ficou perdida
 
Ignorada, não respondida
Por omissão
GE-NO-CI-DA
Vidas que poderiam ser encontradas,
abraçadas, nem tiveram despedida
Aproximação proibida
Distâncias limitadas
Só que perdemos a medida
 
Rotas
Entramos em ruas erradas
Contornamos pontes e avenidas
Os GPSs indicam
Recalculando
Para, encosta e retoma
O caminho ali se desenhando
 
Enquanto há caminhos no escuro
A gente segue estudando
Se formando, trabalhando
Tudo em nome do futuro, inseguro
Construindo nosso chão
Mesmo com ele nos pisando
 
E toda condição sofrida
É vista como etapa
Que vai ser vencida
Na frase mais contraditória
Uma vitória perdida
 
Vencem boletos, meses
E cai o salário
A gente ainda sonha, às vezes
E desperta pro mundo contrário
Quem levanta pra levantar o necessário
Faz da rotina seu pão,
O alimento diário
Matutino
E a palavra perdida, quando vai pro masculino
Ganha um tom intencional
Uma fuga pra não ser percebida
Por alguma ação escondida
No mundo filmado e transmitido
Em tempo real
Do perdido planejado
Ao nada plano, social
 
Socialmente pensada
Pra não ser dividida
Duelo de mão contra espada
Arma contra alma, L ou R na parada
Para! Essa luta, só por existir já está definida
 
Se uma munição está preparada
Engatilhada
Nem a bala nem a mira
Que deveria se chamar de perdida

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Você está no Presente?

Um belo dia, você acorda e se enxerga no presente mesmo. Acredito que não sou só eu que vive a maior parte do tempo revisitando o passado nas ideias e vislumbrando o futuro nos sonhos. Sempre fiz muito isso e, enquanto faço, o presente vai virando passado; o futuro vai virando presente, em seguida, passado, e nem o vi. Hoje, não simbolicamente falando, a data de hoje mesmo, é um marco na minha vida. O dia que eu tomei a atitude de deixar o passado no lugar dele e quanto ao futuro, claro, tenho que ir fazendo meus planinhos, mas, esses planos não podem ir ocupando meu presente de forma que eu nem o sinta. 

Eu vivi muitos anos no tal saudosismo. Tudo isso que estou contando acontece dentro da minha cabeça, não é uma coisa de vivências, no mundo externo, visível a todos. É tudo aqui dentro. Parei! Parei mesmo. Não é fala emocionada de um dia qualquer. É fazer de um dia qualquer interessante o bastante pra ter o que falar com emoção. Hoje, eu não quero mais. Hoje, eu quero isso pra sempre. Sim, tudo hoje. Hoje mesmo. Dá pra gente acordar num dia qualquer, como hoje amanheceu com sol e falar: nisso eu quero ponto final. Nisso, eu quero reticências. E assim como o sol que clareou o dia às 6 da manhã, agora, 6h06 da tarde, ele ainda está lá, mas, totalmente escondido pelas nuvens escuras que já dão tom noturno aqui, na Zona Oeste de São Paulo e também, na minha querida Osasco, como informou um amigo poucos minutos atrás. Chove forte aqui, chove forte em Oz, chove forte em muitos olhos todos os dias.

As cidades alagam. Os travesseiros também. Corações flutuam. E quando o seu flutuar, você saberá de fato para que margem do rio irá. São muitas correntezas, o tempo todo. Mas, o remo está na sua mão e, por mais que a água tenha a sua força, você pode escolher se vai se permitir nadar, se molhar, se vai remar de cima da canoa ou se vai só ficar admirando a água passando com a correnteza.

Já fui mais contemplativo. Vi tanta água correr e eu seco, na beira, hoje, mergulho. Não imaginei que mergulharia novamente disposto a encarar a correnteza.

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Desisto... e tudo bem!

Às vezes, a gente só desiste
E é tão bom quando isso acontece
Não, não falo que é pra ser frouxo, sem revide
É só que às vezes não vale mesmo o estresse

A gente com tempo ganha maturidade
Que não é só o tempo que traz
É a vivência que dá essa liberdade
De só se afastar de quem nos tira a paz

Julgamentos sempre nos cercarão
Isso, te garanto, é inevitável
Mas, o poder que damos à opinião
Esse pode ser bem mutável

Quantas vezes nos magoamos por adjetivos
Que nem pedimos e recebemos
Administramos com nossas dores e crivos
E seguimos. Caminhemos!

A treta é sempre sobre tamanho e quantia
Tamanho dos óculos, da cabeça, do nariz
Quanto a gente se importa com o que o outro diz

Quantia de grana, na conta e no bolso
de liberdade pra ser quem quiser,
quantia de coragem pra beijar qualquer gosto
Qualquer gênero ou letra que houver

Quantia de melanina na pele
Não só repele, como expele as palavras
E impede que a identidade se revele
Alguns preferem ocultá-las
Pra evitar a dor da rejeição que fere

Quando não se encaixa em si
É preciso reformar
Nosso espaço, que é o mundo
Ninguém virá medir
Onde eu devo me encaixar
Ou me delimitar o fundo

Pode ser que não dê pé
Farei dar
Megulhadas, braçadas, respiradas
Puxo todo ar que em meu peito couber

Mas, não deixarei sufocar
Pela água ou pelas paredes que me desenham em volta
O que me desdenham, isso que não tem volta
Tem revolta

E tem uma porta que quando se bate de fora
Tem aquele seu mundo em frente
E se você não o afronta e o desafora
Ele te encaixa milimetricamente
No que ele permitiu: até aqui você explora
Dali em diante, nem tente.

Sim, a gente tenta, e vai na caruda
Mas a desistência também pode ser positiva
Um amor que com tempo muda
Deixa muda a relação, nada mais ativa

Um sonho de uma profissão
Permite que, jovem, a gente se iluda
Com toda a garra combativa
Mas, a vida te desperta e te imputa
Trilhas por onde sobreviva

São nesses caminhos que se abrem
Que antes a gente nem cogitava
Que nossos 'eus' se definem onde cabem
Onde faltam espaços, mesmo que nem internamente sabem
Onde se começa e onde se acaba

O que não acaba é o nosso espaço
Não importa onde comece
Ninguém me define,
Por mais que desenhe ou escreva meus traços
Nenhuma fórmula que se conhece
Mesmo que com expressões se combine

Será o seu eu, sempre serão escassos
Os verbos, adjetivos, os sujeitos
Em Humanos, nem tudo são resultados
Entre os incertos, são todos aceitos