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sexta-feira, outubro 18, 2024

Pra Que Tanta Foto?

Pra que tanta foto?
Ah, pra guardar a lembrança
Eu mesmo tinha na lembrança
Que tinha começado um poema assim:
Pra que tanta foto?
 
Mas, não achei
Não postei, não digitei
Mas, na minha lembrança
Eu tenho uma imagem
Num papel, de caneta azul escrito
Cheio de rabisco
Uma rascunhagem
 
Mas, a pergunta persiste:
Pra que tanta foto?
Pra fazer postagem
Os mais novos nem vão entender essa frase:
Lembra quando as fotos eram num filme?
12, 24, 36 poses
Era em pose a quantidade
Havia limite e autocontrole
 
Será que isso vale uma foto?
Hoje, tudo vale uma foto!
Sabe quando não se tira nenhuma?
Quando é algo de suma importância
E tão bom
Que nem vem na lembrança
Tirar foto alguma
Ninguém pergunta: vamos tirar uma foto?
 
Pra que tanta foto?
Se nem tem mais os albinhos da Kodak
Porta-retratos não têm mais lugar de destaque
Poses viraram Mega e Gigabytes
Pastas, microcards
Memórias quase infinitas
De tanta imagem que cabe
Nos celulares, fototecas e galerias
Ao encherem, viram links pro Drive
 
Fotos flutuam nas nuvens
Não olhamos nem uma nem outra
É tanta foto, de tanta coisa
Tremidas, desenquadradas
Na correria louca
Não vem na lembrança, apagá-las
 
Aí a gente abre
Arrasta, arrasta, arrasta
De tanto arrastar, dá tontura
Foto vídeo, download, captura
Você consegue organizar as pastas
E ter alguma ordem, estrutura?
Ou é só um monte de figura
Que essas, pelo menos,
o tempo não desgasta
 
Mas, também não bate sol
A gente mal bate o olho
Se de alguma foto bate saudade
A cansativa procura rebate
E nos perdemos no bolo
Nos perdemos no rolo (da câmera)
 
Não lembramos nem como procura...
Cronologicamente?
Pode ser, mas, logicamente, a gente se perde
É tanta foto e a gente nem percebe
A gente.
A lógica é que a gente não esquece
Os cliques da mente
Os cliques que as lentes não veem
Que as galerias digitais não têm
São as fotos que, de fato, duram pra sempre.

quarta-feira, outubro 02, 2024

Acontece Poesia

Pra começar a contar
Não ando mais prevenido
Sempre tinha um caderno na bolsa
Pro caso d’um poema sentido
 
É... sentido... os versos estão aí pelo ar
Quem os enxergar , que canete
Aí peguei a folha na impressora do trampo
Antes que a mente o mote disperse
 
E, pensando agora, nem lembro da última vez
Que botei papel e caneta pra conversar
Faz tempo e é curioso
Parecia que a poesia flutuava em outro lugar
 
A gente não vinha se trombando
E nem é porque eu não queria
Cheguei até pensar que era idade
Naturalidade, ah, o tempo distancia
 
Mas, não era nada disso
De cabeça baixa, o raio é curto
Aí a poesia, mesmo ali em volta
E eu andando outro percurso
 
Sem visão panorâmica, periférica
Não sente nem o cheiro, nem escuta
E poesia tem tudo isso?
Quando te chamam de amor, um aroma de flor
O sabor de uma pele, a língua desfruta
 
Eu andava sem palavras
A todas essas delícias da vida
E esses dias, o que me lembrou de procurá-las
Foi uma bobagem assim percebida
 
Uma mesa pra família tomar café
Me passa a manteiga aí do seu lado
Meu filho, pela irmã acolhido
Amor, traz aquilo do mercado
 
A poesia ficou me lembrando
Dos encontros que sempre tivemos
Do quanto ela me alivia
Da dor desses tempos modernos
 
O buscar um pão é meu carinho
Minha rima traduzida em ato
No dia, a situação corriqueira
Quase nunca se faz retrato
 
Só que ao escrever, eternizo
Do café, o cheiro e a fumaça
O simples dia que amanhece
O dia inteiro acontece
Poesia
Diante dos meus olhos, passa
 
Às vezes, tudo bem, a gente não vê
Esquecido na caneca, o café esfria
Pro céu, nada muda se eu não olhar
O sol nunca será ou foi escuridão
Mesmo quando eu não o via

quinta-feira, fevereiro 22, 2024

Sentido do Amor

Amor tem que fazer sentido
Sem fazer sentido
Essa frase parece que não faz o menor sentido, mas faz
Faz muito sentido
 
Qual o sentido do amor?
Estamos falando de qual perspectiva
O sentido da mão que ele vai?
Sentido bairro, sentido centro...
Ou o sentido é no sentido de razão pelo qual ele existe?
 
Amor é pra sentir, pra que o outro sinta
E o sentido seja de mão dupla
Na mesma quantidade de faixas de subida ou descida da serra
Claro, pode haver operações pontuais,
de uma faixa estar carregada e a outra cede
Conforme a sazonalidade
 
Amor é sentido. Você sente? Por quem? Pelo quê?
Você sente que sentem por você?
Amor, senta comigo, me conta o que sente
Sinta minha preocupação pra que você se sinta bem comigo
Centenas, milhares, se preciso,
quero que sentemos à mesa pra realinhar os sentidos
 
Amor é carro potente na estrada, muita velocidade, pé no talo
Mal vê placas e, numa dessas, desvios podem causar retornos bem complexos
Amor tem trilha, tem estrada, chão de paralelepípedo e lugares pouco habitados e bem remotos, chão de terra. Nesse caso, não adianta a velocidade ou quantidade de cavalos do motor.
Amor é jeito, é saber pilotar, é dividir a direção
 
Se a rota está certa, e eu sinto que está, basta seguirmos nosso GPS chamado de coração e na nossa frequência, no norro ritmo, tudo, acredite, vai continuar fazendo sentido

terça-feira, janeiro 26, 2021

Amor a Lápis

Às vezes eu tento falar de amor
De coração, de sentimento
Meu percurso com a caneta mira a flor
Brotando, florindo em seu olor
Balançando com o vento

Assim que a caneta toca o papel
Com seu azul mais escuro
Que aquele azul clarinho do céu
O punho fica mais tenso, inseguro
Não o desenho como pincel

Esse pode ir nas primárias
Secundárias, aquarelas
Podem criar misturas
Mais cores, texturas
Pra pintá-la tão bela
Canetas são pra documentos e assinaturas
Amor se escreve a lápis,
Se apaga, se rasura
Se contorna em sombra e detalhes
Mas tem validade, o tempo apura
O dito hoje, amanhã não são verdades

Sim, se ama hoje e amanhã, não
Pois o fim do amor não é um fato
É uma percepção

Amor pode ser ilustrado
O rosto do ser amado
Mas, pra virar dor, basta um borrão
Uma lágrima que cai
E molha a cor da tinta que escolheu
Talvez o valor da obra morra
Assim como o amor que morreu

sexta-feira, dezembro 25, 2020

Fica pro Próximo

Eu me cobro escrever pra datas especiais
Natais, Ano Novo, Dia das Mães e dos Pais
Mas, quando o faço, fico sem graça
Porque cada linha que minha inspiração traça
Não são verdes e brilhantes
Verde é a cor da esperança, né?
Temo que meu verso seja frustrante
Não sou aquele otimista de fé

Meu versos desequilibram a balança
Eles enxergam tempestade
Às vezes, a quilômetros
Mas não esperam a bonança
Quando tudo passa
Espera o ferimento com a ponta de uma lança
Que crava
E tudo de melhor que isso que vier
Ótimo, pois nem esperava

Então, esse ano terrível, vinte vinte
Vai terminar, virá o vinte vinte e um
Incrível? Creio que apenas possível
Passível também de progresso nenhum

Eu comecei essa página
Com a intenção de uma boa mensagem
Sem os clichês na escala máxima
Queria dar outros votos pra passagem
Não o blá blá blá de boas festas
Tentarei no próximo poema
No próximo ano
Com menos dores manifestas

terça-feira, dezembro 22, 2020

Rio de Dezembro

Faz mais de uma semana que voltei
Ainda não me debrucei
Ou melhor, não tinha me debruçado
Pra escrever o Rio

O Rio já tão declamado
Não há linha que eu possa puxar o fio
Que ninguém tenha falado
E começando pela fala, o "S" chiado e o "I" dobrado

Nunca perceberam o "I"?
Pede pro carioca falar Rio
O segundo "I" é meio tonzinho pra baixo
RIiO
E bota i no meixmo, eixtra, e por aí vai...

E lá, por onde você vai
É alertado, uma tensão do carai
Retorna de ré, fica abaixado

O Rio com suas praias
Não senti o mar salgado
O Rio de shorts e saias
De um calor exagerado

E sabe qual foi o maior exagero?
A maior discrepância?
Foi ver um morro equilibrado
Por esperança

E abençoado por uma igreja
Ali, quem mora, teme a tempestade
Ali quem prega, já conhece a bonança

Não sei se é mármore que fala
Mas, a fachada, por si só já fala
Não vou lembrar o nome
Mas, era letra por letra separada
Estilosamente fixado
Aço fosco, escovado

Luxuosa, a ponto de eu nem duvidar
Se me falassem que era o portal do céu
Bastava olhar
O que pra uns era lar
Ou o que era o caminho fiel
Não parecia difícil a escolha
Por qual iria andar
10% de dúvida cruel

Pouco à frente, já na curva
Perguntei o nome daquele morro
Pra fazer jus à referência no meu verso

"Não tem nome, não, ali foi invasão, ocupação"
Meu pensamento sempre em processo
Já pensou: 
se nem o local mereceu um endereço, uma localização
Imagina o cidadão que ali se alojou

E logo na entrada de outro morro
Chamou minha atenção
O armamento pesado, empunhado
Preparado pela corporação

Para que, em qualquer situação,
Estivesse engatilhado
Sobre rodas ou pé no chão
No banco de trás da viatura
Corpo na postura e arma na mão

Rodamos Mangueira, Vila Isabel,
Maracanã, Cacique de Ramos
Do Cristo, passei perto, olhei pro céu
Era tanta neblina que nem enxergamos

Pense numa fumaça
Que conforme a tarde passa
E o breu vem chegando
Foi melhor voltar pra casa
Na Ilha do Witzel, afastado como tantos

O Rio, às vezes, é de lágrimas
Da violência de cenas trágicas
Mas, também é de emoções, como o carnaval
Quando é ainda mais atração mundial
Pela Sapucaí e suas mágicas

Magias, encantos, efeitos especiais
Belezas esculturais
Em corpos humanos
Em construções naturais

O Rio de Janeiro, do samba, da Lapa
Do futebol, tema que não escapa
De Zico, Garrincha, Edmundo e Romário

De camisas da escola
Tanto quanto as de time
São tantas peculiaridades
Que mesmo com tantas obras
Esse poema (e mais outro, e mais outro e mais outro...)
Todos seriam necessários
Porque pra um Rio, não há palavra que exprime
E expresse ou resuma o que traz o mundo inteiro
É pelo calor do ser brasileiro?
Não creio...
Pelo menos que seja só isso, nem a bossa
Nem aquele abraço, nem as Águas de Março
Que tudo isso é muito cosa nostra

As águas desse Rio não são
Nem de janeiro, nem de março
O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
Miliciano e desigual  
Estou escrevendo em dezembro
De um próximo ano 
com fevereiro sem carnaval

Meu Xará Maradona


Yo no soy argentino
Sou Brasileiro, o maior rival
Mas, desde menino
Recebi o nome Diego e não foi casual

Diego Armando Maradona Franco
Só 60 anos e fim
Francamente, o 10 de azul e branco
Não termina assim

Diego, sempre Armando jogadas
Armando é amado, incondicionalmente
Além do gol, posições declaradas
Maradona foi Maradona pelo sangue quente

Por vários tons de azul é lembrado
Pelo branco também
Somente seu camarote iluminado
Na Bombonera agora, sempre faltará alguém

Genial com a bola, muitos são
Não a ponto de seu povo chamá-lo de Deus
E à sua despedida, estendemos a mão
Aquela mão que pôs fé até nos ateus

Eu só via a história no VT
Argentinos Juniors, Boca, Napoli, Barcelona
Hoje, um outro argentino é o E.T.
Na mesma Catalunha que desfilou Maradona

Não se discute quem é maior
Entre Dios e Rei, não é isso que entra em pauta
Pelé, pra alguns, até Mané
Foram maiores com a bola no pé
Mas, olha, ter um ídolo de uma nação,
Com opinião
Como faz falta...

Por falar em falta
Ele cobrava e guardava
O que lhe faltava de estatura
Sobrava na postura
Certamente, há quem discordava
Mas, sabendo o que ele pensava

O que deixou Dieguito
Foi em campo e foi bonito
Foi pra sempre, pros nossos vizinhos
Nossos maiores rivais
Em 86, sagrou os argentinos bimundiais

Dieguito parte deste plano
Deu os 90 minutos, apito final
Dieguito arte, craque hermano
Absoluto, fenomenal

Dieguito, 10 na camisa
Azul
Com amarelo
Com branco
Celeste
Tudo harmoniza

Letras brancas verticais
Somente o número 10 atrás
A vida realmente é um sopro
Estão morrendo até os imortais

sexta-feira, novembro 13, 2020

Eis Você

 Ô cara de pau, 
Você ainda não entendeu
O que está acontecendo no Brasil
O tal gigante não acordou
Tá mais que dopado, se drogou
O ódio ebuliu

A cada absurdo daquele boçal
Que você, mesmo que anulou, elegeu
Tem destruído o pouco que se construiu
Tá aí o desmanche que você optou
Tem quem reconheceu que errou
Mas tem quem se orgulha do que conseguiu

Peçam que eu não seja radical
"Tem gente que, por protesto, escolheu"
Peraí, quer que eu releve quem quis bala e fuzil
Sendo que os alvos são os "meus"?

Não digo que confio no que acusa o Jornal
O nível de crueldade não surpreendeu
Era tudo previsto, sim, você contribuiu
Por favor, não venha dizer que se enganou
A Amazônia, o Pantanal, tudo incendiou
Seu voto no táoquei, tudo isso consentiu

Ele avisou que acabaria com ONG de cunho ambiental
E olhem, que surpresa, adivinha o que aconteceu
O tal posto Ipiranga brochou e o PIB não subiu
O dólar que ia cair na metade, já quase dobrou
Diz a plenos pulmões que com a corrupção acabou
E na conta da Michele, Queiroz pôs 89 mil

Vou rasgar o ECA, em nome da fé cristã e moral
Livros que tratavam de ditadura, esses, já recolheu
Vamos reensinar que a repressão nunca existiu
Foi demitido quem discordou
Na Saúde,  numa pandemia, trocou e de novo trocou
Quem não quis a Cloroquina que pro Trump pediu 

Como se não bastasse, essa doença mundial
Propagou mentiras, como as que o elegeu
A medicina desmereceu e a população confundiu
O genocídio do "E daí" de terra das covas, a mão sujou
Enganado quem pensa que as mãos lavou
Seu tanto faz, tudo isso permitiu

Moralidade, família tradicional, um laranjal
Milícia representada com seu voto, não o meu
Moro e sua justiça que logo desistiu
É aquilo que você no fundo, e nem tão fundo, sonhou
Brasil, mostra tua cara. Atendendo a pedidos, mostrou
Bolsonaro e sua corja é você no espelho mais vil

Só não tinha coragem de dizer
Achou quem falasse por você
Quis alguém que o refletisse no poder
A mim, dá nojo. A ti, a imagem do seu ser

quinta-feira, julho 23, 2020

Ponto Final do Ônibus

Sim, eu já pensei em por um fim
Covardia ou coragem?
Tanto faz o que os outros falassem
Eu já quis que fosse assim

Uma cápsula colorida pra virar cinza
A se espalhar em um jardim
Da última vez, esperei um ônibus
Que quando chegasse, ao ponto final me levasse
Passasse por cima de mim

quinta-feira, junho 11, 2020

Não me peça Toalha

Precisou o mundo parar pra você perceber
Que não há empatia no mundo real
Só #SomosTodos no virtual
E ainda assim, não vai entender
Que um “E Daí” com tanta gente a sofrer
Não pode ser frase presidencial

É imoral, inescrupuloso, digno de nojo
Mas, não... é algo avisado, previsto
O abismo foi anunciado e tem registro
“Podia ter matado 30 mil”
E olha que ele falava de ditadura
O vírus gripezinha já machuca o Brasil
E quem foi lá, gritar, se aglomerar
Tinha como figura peculiar o Paulo Cintura

Saúde é o que interessa, dizia o bordão
Nada disso, é a economia, disse o Bozão
E com isso, não se economiza em caixão
Em vala, em descaso, em omissão
Enterram-se corpos, dados e informação

Isso já é ditadura,
Essa era a desculpa
Que na época dos generais, não havia roubalheira
Corrupção, falcatrua, sacanagem
Havia sim, em forma de opressão e tortura
A qualquer reportagem

Os hospitais, sem novidade, sem condições
O recurso nessa área é do Estado
Como está seu histórico de votações?
Aqui, São Paulo, está sempre o tucanato
Há algumas gerações

E o ônibus? Devido, a pandemia,
só pode todo mundo sentado
Isso devia ser todo dia, todo dia
Eu não deveria ficar espantado

E o que mais me agonia
É quem pede que eu releve quem votou 17
Ou até quem anulou naquele dia
Como disse Brecht, lavou as mãos na bacia de sangue
Não venha me pedir pra pegar a toalha
Pra ajudar a secar
Você, no fundo quer que eu também sangre
Eu disse que eu seria o alvo
Que os meus seriam o alvo
Você só dizia que eu exagerava
Sabe o Ninguém solta a mão de ninguém
Que você ironizava
Eu continuo com a mão grudada aos meus
E os meus, não levaram tudo aquilo na piada.

quinta-feira, maio 21, 2020

Canções e Versos de Amor


O Compositor
O poeta
O escritor
O contador

Eles são as marginais de uma metrópole
As vias de caminhões pesados
E de motos velozes
Eles são a fiação da energia
Que recarrega seus Androids e Ipods
Que mantêm sua geladeira fria
Da lata, o primeiro gole
O combustível que move

Uma palavra bem colocada
Um acorde bem arpejado
Faz o cupido acertar a flechada
Traduz a dor de um amor acabado

Eu assumo que ainda reluto
Falar de romantismo, de casais
Considero-me um ignorante absoluto
Nesse tema, incapaz
As palavras de mim, parecem falsas
Não soam reais

E as canções?
Essa é minha música, aquela é a nossa...
Enquanto percorre a extensão do seu rádio de frequência modulada
Um mundo de notas
Num segundo são cantadas
Timbres, tons
Pelo locutor
Anunciadas, desanunciadas,
Dedicadas

Tem horas, parece que está falando da gente
Popular, então, muito da gente,
Quem escreve, canta, toca, dança, é da gente

A sua vida amorosa pode chorar de saudade, de tristeza
Pode se identificar
Pode se espelhar na beleza
E a lágrima molhar
Seja uma moda sertaneja
Uma lua de mel em Veneza
Um violão e aquela canção pra todo mundo cantar
A mim agrada mais um banjo oco, seco, sem muito ressoar
Um surdo ou só um repique de mão
Mais um pandeiro pra percussão,
Mesmo no fundo vazio de um bar.

domingo, maio 17, 2020

Não foi sonho


Sonhei que estava todo mundo em casa
Num tormento de uma pandemia
Quem dependia do que no dia ganhava
Estava com a geladeira vazia

As panelas frias, sem gás no fogão
Sem grana pra padaria, faltava até pão
E quando acordei desse sonho insano
Fui ler o jornal e vi que não sonhei
Tudo aconteceu
E a gente conheceu o ser humano

Quem ignorou e permaneceu
Como se nenhuma morte o abalasse
Quem contribuiu e engrandeceu
Pra que a comida não faltasse

Ao amigo que o sustento perdeu
Ao desconhecido de outra classe
11 mil, salvar a economia venceu
Como seria se a gente acordasse?

sexta-feira, maio 08, 2020

Fortalecidos Por Quê?

Vamos sair fortalecidos
Dessa pandemia
O que vier depois, será pequeno
Aprendemos a ser mais unidos
Em meio à agonia
E com isso, crescemos
Será mesmo?

Fortalecidos?
Sairemos em frangalhos
Alguns subnutridos
Muitos sem trabalho
O momento é decisivo
O isolamento necessário
Primeiro tento ficar vivo
Depois penso proletário

Eu, como jornalista, reflito
Meu verso noticiário
Quase sempre opinativo
É limitado ao temporário
O caos não é contemplativo
Faz mais sentido
Literal ou literário

Escrevo inspirado em jornal
Poesia do factual?
Estão na rede social
Os bolos de aniversário
Ninguém em volta
E assim será por um tempo
Sei lá quanto
Mas, pensei quando vi aquele bolinho
Em tudo o que diminuiu
O bolo, a festa, as reuniões
Os encontros, o preço da gasolina, do etanol
Em geral, do combustível
Nem tudo que pensávamos
era tão imprescindível

Enquanto se aguarda vacina
Se fotografa o por do sol
E aquele alaranjado incrível
No status do Whats ficou mais visível

Menores os bolos
Guardadas as roupas de sair
Pijamas na moda
Fome o dia todo
O sono parece fugir
Tá tudo, tudo mesmo, bem foda
Nem gosto de dizer que tá foda
Que foda é bom, tá uma merda
Dizia um amigo meu
Aprendi com ele essa forma
De dizer que tá ruim à beça
Foda não é a palavra certa
Mas vale dizer que FODEU!

Fodeu muito
Comecei falando que sairíamos fortalecidos
Todo mundo pensando que o pessoal está aproveitando
Pra fazer cursos, ler livros
O tal ócio criativo
Parece uma obrigação
Você só ter como objetivo
Seu ser profissional
Você pode ter seu ócio pra vida
Fazer nada, não ficar se cobrando, pensando

Peguei essa ideia com o Emicida
Em vez de criativo, o recreativo
Leia o livro se você quiser de fato
Só relaxa um pouco, vive o dia
Olha pro relógio se tiver vontade
Faz o curso na sua velocidade
E a hora que ele marca
Agora, tanto faz se atrasa,
se é a prova d’água
Não temos nenhuma garantia

Os casacos ficarão ainda mais
com cheiro de guardados
As etiquetas, ainda mais escondidas
As grifes ostentadas
Por pijamas preteridas

Sairemos mais duros de grana
Sabendo que precisamos de menos
Menos coisas, menos roupas, menos marcas
Mas, sairemos marcados
E marcaremos de nos ver
E nossa marca será a principal

Quem você quer realmente ser?
Essa marca vai te descrever
Esquece a Ralph, seja inteiro
Sem GAPs na personalidade
Nada Supreme o bastante pra te vender
Não deixe que e’lacoste’, que ela custe sua verdade

Feliz quem teve o bolo
Ao lado, um refrigerante
E compreendeu que o importante
Tem que agora estar distante
Pra preservar do contágio
Tenho muita fé que a diante
Será bem mais contagiante
O nosso reencontro
Tenha bolo ou não
Tenha samba, esse eu faço questão
Tenha álcool gel, água e sabão
Tenha abraço e aperto de mão
Teremos aprendido
Que ser forte não é a razão
E sim a consequência
De termos entendido
Que nossa homo sapiência
Andava em caminho perdido
Tipo trilho esquecido
Que não leva a nenhuma estação

quinta-feira, abril 16, 2020

Não Tem Volta

Será que tudo volta ao normal?
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar
Será?
Quando eu falo de reencontrar
Falo da gente combinar de se ver
Eu hoje desabei de chorar
Comecei a me perguntar
Quando é que isso vai ser?

Quando é que eu vou poder voltar
Pro Morumbi pra torcer
Ver o Dani Alves jogar
Ver o São Paulo vencer
Será que meu banjo eu vou afinar
Pr’aquele samba no entardecer
Ou essas emoções só vamos lembrar
E não voltaremos a viver
No último jogo, eu estava lá
Levei meu filho pra ver

Era Libertadores e não estamos libertos
3 a 0; contra a LDU, lá do Equador
Os corpos lá estão com destinos incertos
Abandonados em calçadas, nada joga a favor
E o samba que eu nem lembro
Desse último sabor?
Da cerveja no copo americano
De puxar aquele antigo ao lado de um amigo
Batucando num tambor
Eu ali, relembrando no meu banjo
Um velho samba esquecido
Será que foi meu último, Senhor?

Eu confesso que hoje peguei meu cavaquinho
E as notas que toquei trouxeram canções
Que só na mumunha balbuciei
Desafinei, cantei baixinho
Temi as recordações
Pois vi um futuro como a canção do Peninha: Sozinho

Sem arranjos no plural
Violão, cavaquinho e percussões
Os refrões sem multidões
Somente um vocal, sem coral
Um link com alcance universal
Os views batem e geram milhões

Todo mundo assistindo
Conectados em TVs, celulares
Só temos ideia do que vem vindo
Nem certezas, nem verdades
E pensei: quando abraçarei
Novamente meus familiares

Sei que muitos nem os via tanto
O trabalho, a correria
Juro que não é porque eu não queria
Mas, agora, fico me perguntando

O que seria hoje voltar como era
Penso que aquele mundo acabou
O valor de cada coisa mudou
Só a Terra que continua uma esfera
Em seus giros nunca parou

E na nova era, já era tempo
Que o tempo que nos desespera
Desesperava, agora espera
E agora vemos acontecendo

A vida passando
E as roupas, não
Relógios de pulso ocupando espaço
No móvel, e o braço livre da pressão

As calças jeans e os paletós
Pendurados nos cabides
Poderoso Covid
Das gravatas desfizemos os nós
Preocupados estão os avós
Porque nessa faixa etária
Não se permitem vacilos
Eles querem viver para ver crescer
Os filhos dos filhos
Isolamento, fecha a área
Pra não deixar nos abater
A chegada desse vírus

Futuro é o maior inimigo do Corona
Nossa luta é no presente, pra que lá na frente
Eu tenho fé que a vida um dia retoma
Pra saudade, remédio não funciona
Saúde, saudade, só um ‘ad’ de diferente
Não, uma subtrai, a outra soma.

quinta-feira, março 19, 2020

O Abraço do Drauzio

É doutor, mais um massacre pra conta
Agora, um linchamento virtual
As redes sociais caíram de pau
Robô capta mensagem pronta
E acha que o argumento confronta
Ah, essa gente de bem tão do mal

Direitos não devem entrar no presídio
Humanos, ao martelo, a sentença
Juridicamente fria, humanamente tensa
A vingança é triste como princípio
Lava-se honra e ódio com homicídio?
Na missa ou culto, a gente compensa

É, seu Dráuzio, boa visita, boa labuta
A cada história ouvida na cela
Produziu, humanizou, pôs na tela
Ninguém aprova crime e tal conduta
Paga a pena, a rua será ainda mais bruta
Sua casca mais austera

Esse confinamento não filmado
Sem audiência na TV ou debate na padaria
Tem sede de sangue e aval da maioria
Não deveria ter abraçado um culpado, viado, tarado
Ei, Jesus, nem volta, tá ligado?
Pessoal nem liga com quem 'cê' andava do lado
Imagina lembrar o que você fazia.

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

À Direita, Volver

Viva à escola cívico-militar
Já que elegeram um para presidente
Coloque os camuflados pra ensinar
Vamos às regras daqui pra frente

Meninos com orelhas à mostra
Nada de barba pra rapaziada
A cabeleira curta sem cair pras costas
E a farda, muito bem alinhada

Pros adereços, meninas, discrição
Cabelos longos, pera lá, tem condição
Coque acima da cabeça ou simples trançado
Cabelos presos, sem o vento dar direção
Esquece o raspado do lado
E também os armados

Desarma! Desarma! O  cabelo
As pessoas, 'táoquei', à vontade
Na raiz, quem poderá detê-lo
Prendem-no pela identidade

Cabelo armado, rendido
Preso numa touca de grade
Volte a ficar escondido
Armas à solta na cidade

Precisamos de rigidez com essa molecada
Não respeitam mais idoso, professor
No meu tempo, era palmatória e orelha puxada
Criança não ousava se impor

Vamos formar soldados, capitães, generais
Vamos apagar a versão lá do livro
Cale a voz do oprimido
Paulo Freire, referência em bibliografias internacionais
Não fazia e pra essa gente não faz
À direita, volver
SEN-TI-DO

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Di(mimimi)nuir

Como eu odeio o termo mimimi
porque, geralmente
Minimiza
Um preconceito

Como eu odeio quando alguém diz mimimi
Porque geralmente
Vem de um me-me-merda
Que quer ter seu "direito" de diminuir
Quem é diferente

É quem diz que é mimimi
Repara, geralmente
É alguém aceito

Mimimi
O feminismo, o anti-racismo,
O anti-fascismo, o anti-nazismo

Olha bem contra quem o mimimi se aponta
E se levar em conta
Outras razões encontra
O mimimi vem de quem 'tá' na outra ponta

Pode me chamar de mimizento,
Dizer que é vitimismo
Mas esses seus "ismos"
No fundo (e você sabe) gera um ato violento

Como eu odeio ouvir que é mimimi
Quem o define é o atingido
Mimimi pra você é reagir
Ao ataque proferido

Vou te explicar o que é mimimi
Limpa bem o ouvido
Mimimi é o caralho
E tá entendido?

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Silêncio no Alto

Do alto de um prédio
De uma janela no hospital
Vejo abrir e fechar o sinal
Com som nem mono, nem stereo

Da UTI, não se ouve o motor
Nem a buzina que não para
Só se você foca e repara
Na rua, é perturbador

O pneu, o asfalto, o atrito
A comida quente na moto tem pressa
De longe, já estressa
Aquele bi bi biiiiiii...infinito

Aqui do alto vejo um relógio
Diz que 'tá' boa a qualidade do ar
32 graus e uma fumaça de engasgar
Ar bom na capital? Mentira, óbvio

Lá embaixo é tudo intenso
Do alto, minimizado
Som isolado, ar condicionado
Estou por cima, me convenço

Seja elevador ou escada
Uma hora a gente desce
O prédio lá de baixo, cresce
E se planeja a escalada

Que ao subir, não seja aqui
Onde o silêncio acústico é quebrado
Por um choro ao lado, desesperado
Tão comum numa UTI

sexta-feira, outubro 25, 2019

'Me' Deixa Chorar

Setembro, 11, 2019
Data que a história marcou
E não há o que volte
Os ataques, os prédios, as mortes
E o concreto se desmanchou

Mas, a coincidência da data
Foi mesmo um acaso
Com que componho esta ata
Minha poesia relata
A dor que toma espaço

Desabei também, mas no final do mês
Não de setembro, de junho, mês 6
Minha estrutura desabou
O horizonte desbarrancou
Fez cinzas da rigidez

E de lá pra cá
A tristeza imperou
A alegria do rosto, tirou
O rosto pro beijo, acabou
O resto de luz, apagou
O resto de fé, se rezou
O resto do resto, o que sou

Chorar é tão corriqueiro
Que o motivo, se me perguntar
Eu vou te pedir um tempo
Organizar as ideias primeiro
Pra então enumerar

Como olhar lá na frente
Se acha que o 'lá na frente' não haverá
Como ouvir "tenha força"
Se às vezes faltam até pra chorar

E, na boa, me deixa chorar
Me deixa desaguar,
Me deixa desabar
Esfarelar como cimento implodido
Pra dentro, caindo

Calculado
M i l i m e t r i c a m e n t e
O que eu ando sentindo?
Desespero, dor, desesperança
Sem cálculo estimado

De milímetros e centímetros,
coração não entende
De profundezas, talvez
E de céu
Num primeiro beijo ou no adeus,
Certamente.

segunda-feira, abril 01, 2019

Março é delas

Março,
Mês da Mulher
Pela vida delas
Pela luta de todas elas
Exaltadas em março
Fecha em abril

Logo, dia 1º
Da Mentira
E as frases que inspira
No passado mês de março
Eu me uni, fui à luta
Em março, eu marcho
Nesse marco por elas

Eu, macho, depois desmarco,
Remarco, demarco
O meu espaço e a área dela
Abril?
Ela nem sabe o que a espera