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sexta-feira, outubro 18, 2024

Pra Que Tanta Foto?

Pra que tanta foto?
Ah, pra guardar a lembrança
Eu mesmo tinha na lembrança
Que tinha começado um poema assim:
Pra que tanta foto?
 
Mas, não achei
Não postei, não digitei
Mas, na minha lembrança
Eu tenho uma imagem
Num papel, de caneta azul escrito
Cheio de rabisco
Uma rascunhagem
 
Mas, a pergunta persiste:
Pra que tanta foto?
Pra fazer postagem
Os mais novos nem vão entender essa frase:
Lembra quando as fotos eram num filme?
12, 24, 36 poses
Era em pose a quantidade
Havia limite e autocontrole
 
Será que isso vale uma foto?
Hoje, tudo vale uma foto!
Sabe quando não se tira nenhuma?
Quando é algo de suma importância
E tão bom
Que nem vem na lembrança
Tirar foto alguma
Ninguém pergunta: vamos tirar uma foto?
 
Pra que tanta foto?
Se nem tem mais os albinhos da Kodak
Porta-retratos não têm mais lugar de destaque
Poses viraram Mega e Gigabytes
Pastas, microcards
Memórias quase infinitas
De tanta imagem que cabe
Nos celulares, fototecas e galerias
Ao encherem, viram links pro Drive
 
Fotos flutuam nas nuvens
Não olhamos nem uma nem outra
É tanta foto, de tanta coisa
Tremidas, desenquadradas
Na correria louca
Não vem na lembrança, apagá-las
 
Aí a gente abre
Arrasta, arrasta, arrasta
De tanto arrastar, dá tontura
Foto vídeo, download, captura
Você consegue organizar as pastas
E ter alguma ordem, estrutura?
Ou é só um monte de figura
Que essas, pelo menos,
o tempo não desgasta
 
Mas, também não bate sol
A gente mal bate o olho
Se de alguma foto bate saudade
A cansativa procura rebate
E nos perdemos no bolo
Nos perdemos no rolo (da câmera)
 
Não lembramos nem como procura...
Cronologicamente?
Pode ser, mas, logicamente, a gente se perde
É tanta foto e a gente nem percebe
A gente.
A lógica é que a gente não esquece
Os cliques da mente
Os cliques que as lentes não veem
Que as galerias digitais não têm
São as fotos que, de fato, duram pra sempre.

segunda-feira, outubro 07, 2024

A Vida É Um Desequilíbrio

A vida é um desequilíbrio
Um descabido desacato
Descalabro é apelido
Desigual retrato

Era um equilibrista
Sobre um monociclo
No farol pra Autonomistas
O vermelho é o período

Era também malabarista
Girava um bambolê no pé
Embaixadinha, outra arte
Era tanta habilidade
Ainda vendo, não pus fé

O rapaz usava um chapéu
No amarelo se preparava
Fechou, começa o show
Que nenhuma palma escutava

Não sei se se virava nos trinta
Como no quadro da televisão
Não sei se o dia paga os 30
De trocado, mão em mão

A vida é um desequilíbrio, veio a frase
Eu olhando aquele artista
Na Salém Bechara com a Autonomista
Sem que ninguém se revoltasse
Sem que ninguém se perguntasse (ou orasse)
Pra que ele resista

Os temporais vão passar, eu já ouvi
Nesses dias, ele nem pode estar lá
Pode derrapar o pneu, o pino cair
O bambolê ou a bola na Primitiva rolar

Ah, mas, ele poderia estar num circo
Meu amigo, todos estamos e faz tempo
Sem essa de Respeitável Público
A plateia vive em sofrimento

Sem aplausos efusivos
Nem aos palhaços, gargalhada
A risada não tem sentido
Se nossa dor é a piada

A vida é um desequilíbrio
A gente arruma emprego, destrói o emocional
Física e mentalmente comprometidos
Corremos e vibramos positivos
Pra atrair o capital

Aí estabiliza no banco
Tá verdinho no aplicativo
Só que é no vermelho que se soma
Trocas, trocados e a vida truca!
Seis! Cês corre por juízo?
É do jogo o blefe, não a fuga
A vida é um desequilíbrio

quarta-feira, outubro 02, 2024

Acontece Poesia

Pra começar a contar
Não ando mais prevenido
Sempre tinha um caderno na bolsa
Pro caso d’um poema sentido
 
É... sentido... os versos estão aí pelo ar
Quem os enxergar , que canete
Aí peguei a folha na impressora do trampo
Antes que a mente o mote disperse
 
E, pensando agora, nem lembro da última vez
Que botei papel e caneta pra conversar
Faz tempo e é curioso
Parecia que a poesia flutuava em outro lugar
 
A gente não vinha se trombando
E nem é porque eu não queria
Cheguei até pensar que era idade
Naturalidade, ah, o tempo distancia
 
Mas, não era nada disso
De cabeça baixa, o raio é curto
Aí a poesia, mesmo ali em volta
E eu andando outro percurso
 
Sem visão panorâmica, periférica
Não sente nem o cheiro, nem escuta
E poesia tem tudo isso?
Quando te chamam de amor, um aroma de flor
O sabor de uma pele, a língua desfruta
 
Eu andava sem palavras
A todas essas delícias da vida
E esses dias, o que me lembrou de procurá-las
Foi uma bobagem assim percebida
 
Uma mesa pra família tomar café
Me passa a manteiga aí do seu lado
Meu filho, pela irmã acolhido
Amor, traz aquilo do mercado
 
A poesia ficou me lembrando
Dos encontros que sempre tivemos
Do quanto ela me alivia
Da dor desses tempos modernos
 
O buscar um pão é meu carinho
Minha rima traduzida em ato
No dia, a situação corriqueira
Quase nunca se faz retrato
 
Só que ao escrever, eternizo
Do café, o cheiro e a fumaça
O simples dia que amanhece
O dia inteiro acontece
Poesia
Diante dos meus olhos, passa
 
Às vezes, tudo bem, a gente não vê
Esquecido na caneca, o café esfria
Pro céu, nada muda se eu não olhar
O sol nunca será ou foi escuridão
Mesmo quando eu não o via

terça-feira, setembro 05, 2023

Repara Bem

Repara bem
O quanto a gente se vê na escuridão
Não é preferência
Caberia até uma discussão
Filosófica, experimental
Da aparência

Repara bem
O quanto a gente mal se enxerga
Se olha de verdade
Pensa aí: há quanto tempo nem se observa
Dos seus olhos pra dentro
Sua intimidade

Repara bem
O quanto se vê em reflexos do dia
De passagem
Vitrines, janelas em carros ou lataria
Pode até ter desfoque
Mas é sua imagem

Repara bem
O quanto seu olho mesmo desfoca
Sua visão distorce
Ao ponto que nem filtro retoca
Em nenhum grau se vê
Por mais que a vista se force

Repara bem
Reparei pra escrever tudo isso
Era transparente
Eu só me via naquele vidro
Pois era noite
Eu me via em minha frente

De dia,
Não adiantaria eu reparar
Veria o jardim e o que tinha além
Seria bom também de olhar
Mas não veria meus passos
Nem se eu reparasse bem

quinta-feira, junho 22, 2023

Menos Terra

Tem mais gente e menos Terra
Menos Terra pra gente
Pra Terra, se a gente "já era"
É indiferente
Ela já viveu outras eras
Bem antes de ter gente

8 bilhões espalhados pelo mundo
Hoje, você já agradeceu sua sorte?
De achar alguém que quer junto?
De um amor que vale a morte?

Quando não se ama o que vale a vida
A vida o que vale, então?
8 bilhões, na visão mais positiva
É mais gente pra ajudar na missão

Em um ano pesado como foi
Mais gente são mais braços
Esse número alcançado em (20)22
Com tantos recursos escassos
Só lá na frente bem depois
Veremos avanços e fracassos

O que vem em 2023
Por enquanto, é só esperança
Pode fazer seus rituais, superstições
Tudo que seu sonho alcança
A fé busca opções
Passos de marcha ou de dança
Vão depender dos seus ouvidos
Como escutam as canções



Poesia escrita entre novembro e dezembro de 2022.

Vencemos

Sim, pode sorrir
Livres, libertamo-nos, liberdade
Lutamos pra atingir
Quem nos fez alvo pra ferir
Nossa sanidade

Sofremos pra resistir
À imensurável crueldade
Vendo gente nossa partir
Com eles a consentir
Sem qualquer piedade

Escolhemos o "L" da luta
Contra o "B" da barbárie
Vencemos a desigual disputa
Amigo, comemora, desfruta,
Antes que o outro lado dispare

Esse é o padrão de conduta
Do mau perdedor, repare
Armam-se em covardia absoluta
Só que nossa gente junta
Leva vantagem

Levamos vantagem sim, vencemos
Ganhamos, derrotamos a máquina
Do golpe pra cá, nada tivemos
Até sorrir, desaprendemos
Quase esquecemos
Desesperança trágica

Recuperar o que perdemos
De fé e amor, somos uma fábrica
Ao nosso lugar, voltaremos
Ao seu dispor, não estaremos
E é pra ontem, pra por em prática

Onde nos querem, nós não queremos
Não nos curvaremos ao que oferece
Nenhum passo atrás, não retrocedemos
Comemore, sobrevivemos
Cada um de nós, merece

Foram bilhões, mansões, bolsolões
Ônibus interceptados
Foram assédios pelos patrões
Pro passe livre, precisamos de ações
Pro cidadão ter votado

E derrotado, o lado errado faz manifestações
Contra a democracia, contra a realidade
Em mente vazia, vozes de alucinações
É tanta vergonha, em tantas versões
Que a risada nem é por maldade

Teve o que se pendurou no caminhão
Teve choro no quartel e hino a um pneu
Teve um lado vitorioso na eleição
Ver quem se enxerga no capitão
E é tanta gente que, nem importa
Mesmo ganhando, enquanto gente, a gente perdeu



Poesias escritas em novembro ou dezembro de 2022

quarta-feira, junho 21, 2023

Carta pra Deus

Na moral, Deus, sou espírita, tá ligado?
Acredito em reencarnação, em evolução espiritual
E tem uma frase tipo "moral da história" que espalho aos chegados
Não peça a Deus paciência, virá algo pra elevar o grau
Peça paz ou sabedoriapra encarar os atrasa-lado
Deus, eu tava aqui ouvindo Chico Buarque - Partido Alto
E tô achando que tu tá de sacanagem, na moral

Que porra de provação é essa, é prova pública pra vestibular
A gente tem que debater c'os irmão que não sai lá da sua casa
Que arma não é um bagulho que cê ia aprovar
Que rir dos outros morrendo não orna com sua palavra
Não consigo imaginá-lo na Galileia a peregrinar
Trombando nego doente, com fome e danando a julgar
Também... quer o quê? Tem um monte de filho essa raça
Que multiplicar peixe, vagabundo? Faz tua vara e vai pescar

Na moralzinha, Deus, deu falha na Matrix numas gerações?
Seus filhos fazendo mó fuá aqui, 'cê' num vem?
Se o Senhor visse os culto, do quanto arrecada nas sessões
Mano do céu, de 10 em 10 por cento, de vários quarteirões
Se ouve os gritão de amém.
Tá nível Fuvest a gente manter cabeça boa com essas questões
Deus, quem se diz seu aliado, até seu porta-voz, nem copiou suas lições
E garantem que vão tá contigo aí no além

A gente tá tão louco das ideia que os seus andam defendendo tortura
Imagino que seja um assunto delicado pra Ti, esse tema é sofrido, doído
E aí, nós, de boa, temos que quase desenhar que esse proceder na postura
Matou inclusive o Senhor e mais um monte que nem foi defendido, protegido
Aí os 'matadô', 'torturadô' são condecorados por bravura
Até contexto pra pedofilia, sua turma hoje em dia procura
A gente que lute pra argumentar com sentido, tamo fudido

Deus, vê se salva a próxima safra, qual insumo tá faltando?
Multiplica aí, 'cê' não é o bichão? O 'oni' tudo? E ó, credita os cashback dessa vida
A gente nem tá evitando a fadiga, tá real se desgastando, eu fico me perguntando
Se a cada reencarnação dá uma evoluída, a gente avança e tu castiga?
Ou o ponto de evolução dessa é dar murro em ponta de faca tentando
A gente até tenta falar, só que até o Papa andam xingando
A mão de tanto murro, tá ferida
Deus, se quiser, dá uma força aí e, se for o caso, 
Se não derem uns bicos nela, pede ajuda pra Aparecida.

terça-feira, junho 20, 2023

Cabeça de um Depressivo

"Cê" tem um minutinho pra me ouvir?
Quem dera fosse claro assim, objetivo
A cabeça de um depressivo (em tratamento, quando escrevi; em alta, quando postei)
A gente nem consegue pedir
E, se conseguisse, talvez nem saberia dizer
Um bom lenitivo, escrever
Margens e páginas percorrer
Depois do comprimido

Enquanto os miligramas agem
Meus versos reagem
Não se comprimem por dosagem
E escrevem, escrevem, escrevem,
Diversas vezes se perdem
No caminho, a mensagem
Os papéis envelhecem
Os estros se esquecem
Foi perdida a viagem
Não, a poesia é desfrutar da passagem

Às vezes, não passa,
Vai um tempo
Com farol travado, vermelho
O verde nem ameaça
O amarelo no centro
Desordena o aparelho

Na cabeça de um depressivo
Destrava o gatilho de repente
Acredite, nem sempre é claro o motivo
Nem tudo que dói é na gente
Na cara, não toma a frente
Por dentro, um ódio agressivo

Invasivo também cabe à definição
Acolhimento é outra parada, parceiro
Ouvidos que consultam o coração primeiro
Terão sempre predileção
Já que leu ou ouviu esse apelo inteiro
Pensa um pouco nisso e obrigado da atenção.

Sorriso Sem Clique

Tem frase dita sem pretensão
Que provoca reflexão
É difícil expressar felicidade
Mais fácil a dor ter expressão
Ela parece ter mais necessidade

Se felizes, podemos sorrir
Gritar, pular, dançar
Mas traduzir com propriedade
No escrever e falar
Tem outra dificuldade

Já a tristeza
Transborda adjetivos
Advérbios, metáforas
Versos contínuos
Rimas, mágoas

Já reparou em quais momentos
Nem foto você tirou?
Lembra aí o sentimento...
Daquele instante...
Alguém 'printou'?
O clique não era importante
Só que a imagem marcou

segunda-feira, outubro 10, 2022

Nem Só Uma Segunda, Nem Só Uma Letra

É uma segunda-feira
Como qualquer outra
Uma manhã costumeira
Em que toca o despertador
E a gente se apronta
Pra luta diária, semanal, mensal...
Pra cair aquele valor
Que a gente ajeita a conta
Pra zerar no final

Só que hoje, essa segunda
Não é primeira, nem terceira,
Nem a última de luta
É uma segunda corriqueira?
Também não, de forma alguma

É uma segunda diferente
Pra alguns, pode estar alegre
Em outras expressões se percebe
A tristeza mais presente

Pode ser decepção, ter sido ilusão
Pode não ser nada disso
Pode estar indiferente
Mas, aquele com sorriso
Pode estampar estar contente

Minha estampa hoje é com letra
Feita à mão, na caneta, na sulfite
E acredite, ou não, a letra que faço
Em palavras não se omite

Sim, é o caso, faço questão
A letra que minha mão esquerda redige
Começa com L: luta como se exige
Liberdade, sim, mas antes,
Libertação!


(escrito dia 03.10.2022 - 1 dia depois do 1º turno)

Um exemplo: Professor

Quanto você tem mudado o mundo?
Seu mundo aí, seu quintal de fundo
Quanto será que você é assunto?
Quantos podem contar que você caminha junto?

Onde está, aí, nesse lugar
Algo você pode contribuir,
Pra evoluir, melhorar
De aprender a ensinar
Consumir, experimentar
Pode se omitir ou levantar

Pensei aqui num exemplo: professor
Que razão a vida teria só acordar
Pra degustar pó de giz, por um X valor
Será que é só isso?
Um papel em branco amassado
Pra uns, é só lixo,
Pra outros, cada linha é espaço
Onde dá pra compor

Uma aula não é só tempo
É uma chance
De um acolhimento
E bem capaz de fazer alguém bem capaz
Mais autoconfiante

A sala é só um espaço de teoria
O mundo é a prática
Cheio de análise, não só sintática
Vista por ângulos não calculados na geometria
Pois, nosso saldo não é pura matemática
Requer sociologia, filosofia
Professor não é só didática
Nem só diploma em pedagogia
É alma empática, arte dramática
Serve-se até de poesia

sábado, outubro 08, 2022

Como é Grande meu Foda-se por Você

Sabe aquela música?
"Mas, com palavras, não sei dizer"
No caso, não é de um amor tão grande
Que pretendo escrever

Sim, é de algo gigante
Talvez até maior que aquele amor
Inegavelmente intrigante
Cada vez mais constante

É também um sentimento
A cada dia mais distante
O alheio sofrimento
Ignorado, irrelevante

Importante é o nosso
E só
Se não me atingem destroços
Que explodam, 
sem dó
Sem ré
Avança, sufoca
O nó
A corda enforca
Do fogo faz pó

Cinzas, sejam quartas, domingos ou quintas
Todos os dias têm
Lágrimas de despedidas
Só de alguns quando se vai alguém

Só que meu país, nesse assunto, já foi bem
Hoje, o mal tomou conta
A ponto de perder a conta
De perder a ponta... da meada
Não se sabe onde o mal acaba
Nem se o bem um dia vem

O verde matou a esperança
Quem disse que ela morre por último?
O amarelo da fartura e bonança
Estampou luito e infortúnio
Não foi por azar, foi previsto
Não faltou avisar, insisto
Rindo, cumpriu-se o intuito

A revolta já deu meia-volta
Inverteu o sentido
Não sente mais pra que lado tem ido
Nem importa
Quem se importa com gente morta?
A gente nem liga pro choro de quem tá vivo.

sexta-feira, outubro 07, 2022

Cores Mortas

Sim, tem cor que mata
Corrigindo: tem cor que faz morrer
No Brasil multicor, dependendo a paleta
É valeta
Caixão, vela preta
Na vala a descer

E aqui é sortido, nada sortudo
Sem sorte, muito menos sorteado
É sempre o mesmo grupo
Colorido, todo preto e vermelho estrelado

Nosso verde da mata mata
Não amarela
Seu progresso desordenado
Deixa sequelas
A união de cores da aquarela
Num tom fosco apagado

Às vezes, é preciso, melhor assim
Que apagado, deletado, 
no sentido de dar fim

Sim, aqui se matam vermelhos
De pele ou de partido
Pretos na pele, e esse é o motivo
Quem é pelo arco-íris identificado
Também muito arriscado
Se está na sigla definido

Sim, é tudo disfarce
Esse país tropical que se fantasia de carnaval
A nossa real face
É ser o país mais perigoso
A quem busque o gozo no sexo igual
Morre pela origem do prazer
Com dolo e com aval
Inclusive eleitoral

Sim, o povo brasileiro se encontrou
Assumiu a postura, impostora
Hipócrita, conservadora
Que tenta se impor
Sem pudor de disparar e matar
Armada, em nome do Senhor
Cristo que nem ouse voltar
Iriam confundí-lo pela cor

quinta-feira, outubro 06, 2022

As Verdades

O que seria a verdade?
O que se acredita?
Cada um teria a sua, podemos dizer, realidade?
Nem o que se publica
Nem a intimidade
São a verdade absoluta
Há verdades ocultas
E muitas

Talvez a verdade mesmo nem exista
Qual a sua? A que se avista? A do insta?
Ou do travesseiro? Elas falam mesma língua?
Há verdades tão distintas, tão distantes
Seu idioma de antes já virou estrangeiro

Há verdades atualizadas
Que não eram até então
O sistema te obriga a aceitá-las
O sistema te impõe nova versão
O sistema nunca te dá opção

Você já parou pra pensar...
quantas novas verdades você tem?
Por amor, pressão ou necessidade
Qual sua melhor versão já mostrou a alguém?
Qual nunca escondeu de ninguém?
Fala a verdade!

Não é falta de personalidade, nem vaidade
Ver o que nossa alma contém
Com os dados que o mundo retém
Do convívio em sociedade
O saldo é liberdade ou refém?

Sim, você mudou, eu também
Tenho ainda mais à pele a sensibilidade
Só quero propor que repense
Que se lembre de alguém de quem sinta saudade

Saudade não escolhe quem
Ela dói sem piedade
Nem precisa responder
Talvez já esteja até respondido
Sua vida, a minha, a de um desconhecido, 
será que o mesmo preço têm?
Diz aí: sua verdade de hoje
De verdade, te faz bem?

quarta-feira, outubro 05, 2022

Poesia ao Moisés da Rocha

Não, não é só 'Questão de Opinião'
O samba é uma das mais autênticas formas de expressão
Da cultura da nossa nação
Quem não ama nem preza pela preservação
Contribui com quem nunca quis nossa libertação

Falo das amarras além das correntes
Que carregaram pedras e ninguém ouviu
O soluçar de dor da nossa gente
Hoje se escuta, nos fazemos presentes
Contra quem sempre nos omitiu

Não, nossa história é rocha de castelo
Tem alicerce, tem chão firme pra pisar
Nossa rocha, Moisés, é a voz que faz eco
Moisés, sem cajado, com mic ligado é o elo
Entre a história e quem há de chegar

O talento do músico brasileiro
E a música instrumental
A fonte de aprendizado e conhecimento
Deu passagem ao Fundo de Quintal
Nelson Gonçalves, o Sinatra nacional
E uma seleção pro amor tem seu momento

Olha aí, paixão
Rádios ligados geração pós-geração
Conscientemente apaixonados por sua missão
O samba ser preservado nossa identificação
O Samba Pede Passagem, mas arromba o portão

Moisés da Rocha, o samba de escuta
Do cambaraximbacam ao axé, minha gente, muito axé
Você lapida nossa arte mais bruta
Você é o próprio samba que dá passagem à luta
A resistência, por isso, o samba é o que é

quarta-feira, julho 13, 2022

Mais Difícil Falar da Alegria

É mais difícil falar da alegria
Que da tristeza
Você já reparou?
Não é só coisa da minha cabeça

Uma amiga me contou
Que ouviu isso outro dia
Eu concordei
Argumentar o contrário, nem poderia

Afinal, minha própria poesia
Poucas vezes contemplou
O amor de um casal feliz
De lábios em beijos sutis
Ter um amor pra dar bom dia
Lembranças doces, pueris,
Ou o orgasmo que sacia

Tristezas são lindas em versos
Chorosos, minguantes, contidos
A felicidade, repleta de superlativos
Adjetivos e excessos

Tristeza, o poeta decifra
De tão habitual, verbaliza
A linha do verso, sucinta
Uma palavra e a pausa, respira

Já a felicidade
Com seu quê de rara
Embaralha a frase

Às vezes, nem sai
O poeta começa e para
O verso não vem 
A caneta não vai

quarta-feira, maio 04, 2022

O Olhar Mais Distante da Turma

Ela tinha um olhar tão distante
Diria até indiferente
Eu falava em sua frente
Ela via outro horizonte

Seu olhar flutuante
Não estava presente
Sem rima suficiente
Pra trazê-la um instante

Era itinerante
Uma leitura nada fluente
Talvez nem o melhor palestrante
Na fala mais convincente
Seria o bastante

Bastante longe aquele olhar
Não sei se carente
De um vazio flagrante
Um silêncio gritante
Tão quanto valente

Era um olhar gigante
Escuros, pretos possivelmente
Eram arregalados constante
Esperavam algo relevante
Poesia é perfumaria
Nunca vista como urgente

Pra sua manga longa, estava quente
De mangas curtas, o restante
Ela não sentia o ambiente
Nem calor, nem verso
Nem uma batida dançante
Àquele olhar disperso 
Nenhuma prosa era atraente
Não achei nada que a encante
Não invadi seu universo
Minha poesia não deu acesso
Deu esse verso como ingresso frustrante


terça-feira, dezembro 07, 2021

Poesia e Pão

Poesia põe pra pensar
Pão põe de pé
Palavras a passear
Por pântanos
Por pânico
Pelo prazer, se puder

Percorrendo poemas
Provérbios, profecias,
Passo por padres, pastores,
Pela pretensa pregação
Palavreados plurais preteridos
Principalmente pretos
Pelo Pai proibidos
Pelo pai?
Permita-me
Puramente preconceito

Percebo pessoas
Piedosamente pedindo 
Pedem paz
Pedem pólvora
Pra proteger propriedade
Paralelamente, pobreza
Pedem prato
Pedimos pausa

Precisamos... pela pressão
Pai, peço permissão
Parece prático pintar, poetizar
A própria poesia
Parece,
Pensamento pequeno
Poetas perpassam períodos, planetas, personagens
Perdas, paixões, paisagens
No papel, pleno
Poesia e pão, pura política
Pro povo, politicagens

A escola abre o mural
Pra oportunidade
EMEF Manoel, arma o varal
Pendura o papel, estilo sarau

Cola, prega lá seu verso
Igual na rede social
É a rede de verdade
Marca lá o local
Jardim Bonança, Osasco
Na rua de cima do ponto final

Se você dança,
Ensaia o passo, treina, faz a sua
Se canta,
Esteja com o bloco na beira da rua
Se escreve,
Não se atreva a parecer que atua

O pão nosso de cada dia, como se reza
Tem fermento no fomento
Onde a fome se despreza
A massa, depois de apanhar, processa

E cresce
Conforme os ingredientes
Um pouco de força,
Um tanto da gente
Um tempo de forno
Um pouco de prece

Mal o sol aparece
Já tem pão
O aluno na sala, 1 pão
Mais 1 dia, mais 1 pão
Isso se chama processo de fermentação

A escola no topo mais alto
A comunidade subindo a ladeira
Reproduz o passo no asfalto
O corpo inclinado pra frente
Fazendo a padoca e a feira
Mais que legume e verdura
Alimento e cultura
Pão é pintura, é sustento
É literatura, é alimento

Com todo mundo chegando
Sempre sai pão quente
Sim, é seu moleque, sua menina
Tendo a poesia presente

Aqui na nossa quebrada
O relógio ainda nem marcou sete
Falta um tiquinho
Pro sinal que anuncia
Da esquina, sobe o cheiro da fornada
Do mercadinho, da padaria
Aquele saco marronzinho
Aberto pra não murchar, saiu quentinho
Não é só pão, é poesia.

sexta-feira, setembro 24, 2021

Ele Na ONU Não É Nóis

Sabe quando a gente nem quer mais falar?
É esse o limite pra aceitar a derrota
Eles não querem apenas triunfar
Eles querem além da vitória
Nosso direito ao sonho e lugar
Eles querem roubar
Como a luta e história

Eles tomaram sim e falam pela gente
No espaço público, na TV, na Organização das Nações Unidas
Ele está lá, afinal, é o presidente
Pela votação (na urna eletrônica) a ele conferida
Perante o mundo, indiscriminadamente, mente
A recepção estrangeira é condizente
Ao desdém e nojo com que ele trata vidas

Em 12 minutos, mentiu, mentiu e mentiu de novo
De tão abjeto, desfilou sua arrogância
800 dólares de auxílio pro povo?
Omitiu que no Brasil a ganância
Deixa o agro (nada pop) resolver no fogo
As reações são asfixia e ânsia

Amazônia, índio, tudo por ele era extinto
Como qualquer decoro e diplomacia
Covid sufocando, ele imitando e rindo
Testemunhou que usou remédio que não servia
Falou pro mundo de cloroquina e não entendia
Porque ninguém estava seguindo
O tratamento precoce que ele vem insistindo
E a ciência séria não consentia

Não acabou por aí o pronunciamento
Disse que afastou socialismo e corrupção
Não faz ideia do que está dizendo
Envergonhando muito a nação
Milhares de mortos, quase seiscentos
Por ignorância... por ignorância, não
Por criminosa omissão

Aqui, temos outras verdades a dizer
Vacinas escassas à necessidade
Prevent Senior testou humanos pra ver
Se o Kit Covid tinha efetividade
Teve empresário que deixou a mãe morrer
Testando seu direito de escolher, sua liberdade
merecia uma estátua pra homenagear a saudade
Duvido que ele deve ter
O significado de humanidade ele nem deve conhecer

Corrupção em família, sob aplausos na cerquinha
Da turma do cercadinho, seu gado de auditório
Perante o mundo, aquela mesma ladainha
Sem ouvidos nem respeito ao falatório
Vai te restar a última linha
No seu futuro torpe e inglório

Diante do mundo, nos rebaixa
A cada frase que pronuncia
Quando descer a rampa e entregar a faixa
Vai pagar a dor que nos impelia
Aí vamos ver se encaixa
Tudo que fala de tortura, de minoria 
De toda essa porra que cê acha
Aí eu quero ver
Vai ser nóis e a tua valentia

segunda-feira, agosto 30, 2021

Feijão, Fuzil e Violão

Com os punhos se ergue uma guerra
Se faz um gesto, se empunha um fuzil
Ou violão 

Quando esse mesmo punho se cerra
Em postura e protesto não mais servil
Revolução 

Esse mesmo punho se solta e circula
Vai mexendo, remexendo, temperando
O caldeirão 

Esse mesmo punho é quem mistura
Sentimento, escrevendo, musicando
O feijão 

A rigidez ou leveza
Está em como se senta à mesa
Se a faca é para refeição
Ou para agressão 

O punho posicionado
Dedilhar ou engatilhado
Diz se é capaz de fazer melodia 
Ou só entoar agonia 

Então, peço a sua gentileza
Feijão e violão de sobremesa
Fuzil não tem afinação
Só produz choro sem canção 

Já tem ferro no feijão preparado
Pro nosso povo esfomeado
Desse alimento já se fez tanta poesia
Agora, posar de arma um violão, 
É desarmá-lo, desarmonia