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quinta-feira, outubro 31, 2024

Cara da Madrugada

Depois de cumprida minha função
Voz e palavras, alegria e emoção
Entrei no carro, percorria uma avenida
Tive a atenção na via distraída
 
Reparei num bar já de porta abaixada
Long-necks nas mãos esquentavam
Uma mesa naquela vaga de calçada
Selfie sendo posicionada
Sorrisos se preparavam
 
No rádio, tocava Machuca Demais
Só Pra Contrariar
Eu só pensava em quantos casais
Quantos sozinhos em saudades individuais
Sentiam a canção machucar
 
Na mesma hora, pensei também
Em quem através do casco
Atrás do fardo
Parece bem
 
A noite na rua se vê de tudo
Numa escala de felicidade
Tem todos os graus se cruzando
Conforme a noite passa, vão trocando
Ideias, posições, intimidade
 
Num ponto de ônibus à frente, eu vi
A moça no colo do rapaz
Ele no traje do trampo, uniformizado
De branco, talvez, um açougue, bem capaz
 
Que o rapaz da moça era namorado
Sei lá, marido
No segundo que passei por eles,
Um selinho consentido
 
Em plena madrugada
Em meu retorno, no caminho
A rádio continuava
Com cara de madrugada
Com música de madrugada
Uma sequência inapelável
Por vinhetas da rádio emendada
 
Pra quem ouvisse lembrar
De uma época, de alguém que amou
Ou um amor presente aí contigo
Num aconchego, ao pé do ouvido
 
A música tocou
Meu carro passando
Naquele bar fechando
Aquela turma eternizando
Um story que se apagou

quarta-feira, outubro 02, 2024

Acontece Poesia

Pra começar a contar
Não ando mais prevenido
Sempre tinha um caderno na bolsa
Pro caso d’um poema sentido
 
É... sentido... os versos estão aí pelo ar
Quem os enxergar , que canete
Aí peguei a folha na impressora do trampo
Antes que a mente o mote disperse
 
E, pensando agora, nem lembro da última vez
Que botei papel e caneta pra conversar
Faz tempo e é curioso
Parecia que a poesia flutuava em outro lugar
 
A gente não vinha se trombando
E nem é porque eu não queria
Cheguei até pensar que era idade
Naturalidade, ah, o tempo distancia
 
Mas, não era nada disso
De cabeça baixa, o raio é curto
Aí a poesia, mesmo ali em volta
E eu andando outro percurso
 
Sem visão panorâmica, periférica
Não sente nem o cheiro, nem escuta
E poesia tem tudo isso?
Quando te chamam de amor, um aroma de flor
O sabor de uma pele, a língua desfruta
 
Eu andava sem palavras
A todas essas delícias da vida
E esses dias, o que me lembrou de procurá-las
Foi uma bobagem assim percebida
 
Uma mesa pra família tomar café
Me passa a manteiga aí do seu lado
Meu filho, pela irmã acolhido
Amor, traz aquilo do mercado
 
A poesia ficou me lembrando
Dos encontros que sempre tivemos
Do quanto ela me alivia
Da dor desses tempos modernos
 
O buscar um pão é meu carinho
Minha rima traduzida em ato
No dia, a situação corriqueira
Quase nunca se faz retrato
 
Só que ao escrever, eternizo
Do café, o cheiro e a fumaça
O simples dia que amanhece
O dia inteiro acontece
Poesia
Diante dos meus olhos, passa
 
Às vezes, tudo bem, a gente não vê
Esquecido na caneca, o café esfria
Pro céu, nada muda se eu não olhar
O sol nunca será ou foi escuridão
Mesmo quando eu não o via

quinta-feira, fevereiro 22, 2024

Sentido do Amor

Amor tem que fazer sentido
Sem fazer sentido
Essa frase parece que não faz o menor sentido, mas faz
Faz muito sentido
 
Qual o sentido do amor?
Estamos falando de qual perspectiva
O sentido da mão que ele vai?
Sentido bairro, sentido centro...
Ou o sentido é no sentido de razão pelo qual ele existe?
 
Amor é pra sentir, pra que o outro sinta
E o sentido seja de mão dupla
Na mesma quantidade de faixas de subida ou descida da serra
Claro, pode haver operações pontuais,
de uma faixa estar carregada e a outra cede
Conforme a sazonalidade
 
Amor é sentido. Você sente? Por quem? Pelo quê?
Você sente que sentem por você?
Amor, senta comigo, me conta o que sente
Sinta minha preocupação pra que você se sinta bem comigo
Centenas, milhares, se preciso,
quero que sentemos à mesa pra realinhar os sentidos
 
Amor é carro potente na estrada, muita velocidade, pé no talo
Mal vê placas e, numa dessas, desvios podem causar retornos bem complexos
Amor tem trilha, tem estrada, chão de paralelepípedo e lugares pouco habitados e bem remotos, chão de terra. Nesse caso, não adianta a velocidade ou quantidade de cavalos do motor.
Amor é jeito, é saber pilotar, é dividir a direção
 
Se a rota está certa, e eu sinto que está, basta seguirmos nosso GPS chamado de coração e na nossa frequência, no norro ritmo, tudo, acredite, vai continuar fazendo sentido

Sem Nem Citá-lo

Não vou ter a pretensão de ser inovador
De reinventar falar dele
Será só mais um poema, talvez sem valor
Servirá só pra que eu desanuvie o peito
Já falaram, já cantaram, nada novo pra se expor
 
De novo, novo mesmo, só a quentura, o fervor
De quando ele aparece de repente
Aí a gente nem sabe se seu codinome é beija-flor
Como segredos daquela canção de antigamente
 
É assim que a linha flui ao escritor
Sem nem entender se vem de longe
Pra quem ouve no ar um som se compor
Pra quem prepara um prato
Sem tempero pronto pra dar mais sabor
 
Ele é força, às vezes de vontade, às vezes, motor
Mas, é também jangada, um barco à vela
Ao soprar do vento, êh vento que nem sempre sopra a favor
O vento seca desde tinta na tela
Até a lágrima de um dissabor
 
Carregam nas tintas, fazem combinar toda cor
Ele se sustenta na infinitude
Tim Maia pedia motivos pra dor
Chico tem uma pedra no peito pela mentira
Jobim e Vinícius, como cenário, o Redentor
 
Agora, me diz, adianta apelo ao Senhor?
Apelo pra nunca mais ou pra sempre?
Imagina responder isso, vamos supor
Nunca mais ou pra sempre, vazio ou presente
Prisioneiro, libertador
 
Há quem tenta não dormir e o sonhador
Que faz questão do risco
Poeta tem que ser o risco e o rabiscado
Senão, nem faz sentido a poesia
Tantos versos sobre ele, sem nem citá-lo
Desculpe, sou só um amador.

sábado, setembro 25, 2021

Quando Eu Escrevo

Quem dera eu tivesse o poder
De ser tudo o que eu escrevo
De ter vivido todas as cenas
Umas eu nem queria viver
Vivi algumas, apenas
 
Muitas vezes, é sobre dor
Algumas que vejo
Outras, a empatia me faz supor
E passar por elas, não desejo
As de amor,
Aí que eu não quero mesmo
 
Quando escrevo, eu posso olhar um casal na rua
Imaginar que são amigos, namorados
Posso criar um personagem que atua
Ou de fora, assiste calado
 
Posso ser narrador de um ato
Posso ser um terceiro
O amante,
o traído
Posso nem ser percebido
Como um mero figurante
 
Quando do papel e caneta me aposso
Se eu quiser, posso ser
O par da atriz principal da novela das nove
No meu texto eu posso
 
Posso amar, posso estar num romance
Que só um lado sofre
Posso escrever, escrever
E às vezes, o enredo não desenvolve
 
Tudo isso que eu posso, eu faço, eu verso
Quando eu escrevo, eu posso hoje
Do ontem ser o inverso
E do amanhã, ser o avesso do avesso
 
Vão se acabando as folhas
Até os cadernos
Mas, pra um poeta
O que nos pauta é o universo.

segunda-feira, agosto 16, 2021

Samba com Um Bocado de Tristeza

“Pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza”

Vinícius compôs e cantou
Olha, sendo assim, certeza
Que na hora de fechar a conta e por na mesa
Inspiração não faltou
 
A gente anda triste
Luta, luta, luta e luto
Luta, luta, luta e luto
Não sei você, mas, fake News eu refuto
Tem umas e uns que nem discuto
 
Não vale a saliva do papo,
Valeria, como antes se dizia
Uns ‘catiripapo’
Mas, não é no sopapo, nem no tapa
Que a gente escapa da melancolia
A minha melhor forma
É a caneta que transforma
O que me transtorna, em poesia
 
Agora, me fala: haja samba pra fazer
Com tanta tristeza em volta
Nosso enredo anda sem revolta
Pouco ousa dizer
 
A gente anda triste
Você, eu, nossa gente
O medo é frequente
Cada vem mais presente, ele persiste
Pra ver se a gente resiste
 
Ele quer ver até onde vai, até onde vamos
Ver quem primeiro cai, quem não seguramos
Será que esse samba sai,
Se há muito tempo nem cantamos?

sexta-feira, agosto 13, 2021

Portões

Os portões do bairro onde cresci
Continuam os mesmos
Até a ferrugem nos cantos são as mesmas
Minhas lembranças de infância são poucas
Mas quando os revi
Revivi as vezes que subia aquela ladeira
Para pedir prendas pra festa junina 
Ao revê-los, tive a certeza
De que é uma pena nos dois sentidos
Um lamento e uma punição 
Na fase adulta, amadurecidos
Na infância, em evolução 
Não, não e não. 

Somos agora os mesmos portões
Outrora, vistosos, a referência da rua
Sabe aquela casa de portão de tal cor?
Com o tempo, a ferrugem atua

E somos os mesmos portões 
Nhec, nhec, soam as nossas dobradiças
Que tem sempre um jeitinho de abrir
Passaram-se várias vezes as 4 estações 
A rua continua a descer e subir

E nós não sabemos de fato nosso sentido
O que sabemos é que sentimos 
O tempo enferrujar nossos portões.

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Desisto... e tudo bem!

Às vezes, a gente só desiste
E é tão bom quando isso acontece
Não, não falo que é pra ser frouxo, sem revide
É só que às vezes não vale mesmo o estresse

A gente com tempo ganha maturidade
Que não é só o tempo que traz
É a vivência que dá essa liberdade
De só se afastar de quem nos tira a paz

Julgamentos sempre nos cercarão
Isso, te garanto, é inevitável
Mas, o poder que damos à opinião
Esse pode ser bem mutável

Quantas vezes nos magoamos por adjetivos
Que nem pedimos e recebemos
Administramos com nossas dores e crivos
E seguimos. Caminhemos!

A treta é sempre sobre tamanho e quantia
Tamanho dos óculos, da cabeça, do nariz
Quanto a gente se importa com o que o outro diz

Quantia de grana, na conta e no bolso
de liberdade pra ser quem quiser,
quantia de coragem pra beijar qualquer gosto
Qualquer gênero ou letra que houver

Quantia de melanina na pele
Não só repele, como expele as palavras
E impede que a identidade se revele
Alguns preferem ocultá-las
Pra evitar a dor da rejeição que fere

Quando não se encaixa em si
É preciso reformar
Nosso espaço, que é o mundo
Ninguém virá medir
Onde eu devo me encaixar
Ou me delimitar o fundo

Pode ser que não dê pé
Farei dar
Megulhadas, braçadas, respiradas
Puxo todo ar que em meu peito couber

Mas, não deixarei sufocar
Pela água ou pelas paredes que me desenham em volta
O que me desdenham, isso que não tem volta
Tem revolta

E tem uma porta que quando se bate de fora
Tem aquele seu mundo em frente
E se você não o afronta e o desafora
Ele te encaixa milimetricamente
No que ele permitiu: até aqui você explora
Dali em diante, nem tente.

Sim, a gente tenta, e vai na caruda
Mas a desistência também pode ser positiva
Um amor que com tempo muda
Deixa muda a relação, nada mais ativa

Um sonho de uma profissão
Permite que, jovem, a gente se iluda
Com toda a garra combativa
Mas, a vida te desperta e te imputa
Trilhas por onde sobreviva

São nesses caminhos que se abrem
Que antes a gente nem cogitava
Que nossos 'eus' se definem onde cabem
Onde faltam espaços, mesmo que nem internamente sabem
Onde se começa e onde se acaba

O que não acaba é o nosso espaço
Não importa onde comece
Ninguém me define,
Por mais que desenhe ou escreva meus traços
Nenhuma fórmula que se conhece
Mesmo que com expressões se combine

Será o seu eu, sempre serão escassos
Os verbos, adjetivos, os sujeitos
Em Humanos, nem tudo são resultados
Entre os incertos, são todos aceitos

sexta-feira, dezembro 25, 2020

Fica pro Próximo

Eu me cobro escrever pra datas especiais
Natais, Ano Novo, Dia das Mães e dos Pais
Mas, quando o faço, fico sem graça
Porque cada linha que minha inspiração traça
Não são verdes e brilhantes
Verde é a cor da esperança, né?
Temo que meu verso seja frustrante
Não sou aquele otimista de fé

Meu versos desequilibram a balança
Eles enxergam tempestade
Às vezes, a quilômetros
Mas não esperam a bonança
Quando tudo passa
Espera o ferimento com a ponta de uma lança
Que crava
E tudo de melhor que isso que vier
Ótimo, pois nem esperava

Então, esse ano terrível, vinte vinte
Vai terminar, virá o vinte vinte e um
Incrível? Creio que apenas possível
Passível também de progresso nenhum

Eu comecei essa página
Com a intenção de uma boa mensagem
Sem os clichês na escala máxima
Queria dar outros votos pra passagem
Não o blá blá blá de boas festas
Tentarei no próximo poema
No próximo ano
Com menos dores manifestas

quinta-feira, maio 21, 2020

Canções e Versos de Amor


O Compositor
O poeta
O escritor
O contador

Eles são as marginais de uma metrópole
As vias de caminhões pesados
E de motos velozes
Eles são a fiação da energia
Que recarrega seus Androids e Ipods
Que mantêm sua geladeira fria
Da lata, o primeiro gole
O combustível que move

Uma palavra bem colocada
Um acorde bem arpejado
Faz o cupido acertar a flechada
Traduz a dor de um amor acabado

Eu assumo que ainda reluto
Falar de romantismo, de casais
Considero-me um ignorante absoluto
Nesse tema, incapaz
As palavras de mim, parecem falsas
Não soam reais

E as canções?
Essa é minha música, aquela é a nossa...
Enquanto percorre a extensão do seu rádio de frequência modulada
Um mundo de notas
Num segundo são cantadas
Timbres, tons
Pelo locutor
Anunciadas, desanunciadas,
Dedicadas

Tem horas, parece que está falando da gente
Popular, então, muito da gente,
Quem escreve, canta, toca, dança, é da gente

A sua vida amorosa pode chorar de saudade, de tristeza
Pode se identificar
Pode se espelhar na beleza
E a lágrima molhar
Seja uma moda sertaneja
Uma lua de mel em Veneza
Um violão e aquela canção pra todo mundo cantar
A mim agrada mais um banjo oco, seco, sem muito ressoar
Um surdo ou só um repique de mão
Mais um pandeiro pra percussão,
Mesmo no fundo vazio de um bar.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Poesia em Papel e Gavetas

Tenho deixado pra amanhã
Decorar o que escrevo
E o que eu escrevo
É sobre hoje

Um hoje que é hoje há tanto tempo
Eu escrevo sobre o Brasil
Sobre Osasco, sobre sentimento
Eu escrevo sobre o frio, o fuzil
E um Estado violento

O que eu escrevo está em papel
E memórias online, digitais
Sobre o que vi nos jornais
Sobre o que eu li no cordel

Slam, sarau, e a poesia segue no ar
Pronta pra ser encontrada bruta; e lapidada,
Às vezes, curta e enxuta, às vezes, encharcada
Salgada de lágrimas, que fazem borrão da caneta
Por vezes, azul; raramente, vermelha; por vezes, preta

O papel manchado e a mancha do passado
Que me fez sentar e escrever de veneta
Mas, escrever pra que, se não decoro pra dizer?
Pra publicar? Onde? Pra quê que alguém vai ler?

Quando ouvir este, que eu tenha decorado
Que eu tenha declamado
Pois, pra quê poesia?
Se rimar é por si, rebeldia
É transcrever gritaria

Na gaveta, trancado
É só mais um verso, disperso, calado.

terça-feira, fevereiro 26, 2019

Fala de Mim

Eu tenho tanto pra te falar
Eu tenho tanto pra te dizer
Só que às vezes, prefiro calar
E em outras, escrever

Eu preciso me comunicar
Eu preciso me expressar
Nem sempre foi assim
Teve vez que eu queria gritar
O que iriam pensar de mim?

Ah, se eu nem me preocupasse
Se eu nem ligasse
Que alguém me julgasse
Falem bem ou falem mal, falem de mim

Não, não mesmo!
Já pus muito na frente o silêncio
Pra não entrar no rol do ruim
É uma necessidade vital, saca?

Penso muito, tenho altas viagens
Minha opinião não emplaca
Eu calculo a dosagem
Da hora de estampa-la na placa
Da hora de guardá-la em bagagem

Hoje, sou MC
Nem de rap, nem de funk
Preparo e faço cerimônias por aí
De bodas, casório e debutante
Bem diferente de antes
Que, diante de outros estudantes
Recolhia-me insignificante
Gordo, baleia, elefante

Tá aí, coisa que nunca aceitei
Sentia, sofria, calei
Guardei no quarto solitário
Onde tanto me esquivei

Entrei, tranquei, horas e dias, passei
Desabafei, foi necessário
Muitas, muitas vezes, pensei
Eu e a vida, eu e a morte, belo páreo
Seja qual for sua dor, sua chaga
A ferida que traga
Você vai superar, eu sei

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

Novo Passo pra Trás

Dois mil e dezenove,
O ano então começou
Dia 1 do 1 chegou
A esperança que se renove
Nesse discurso que cansou

Parem, por favor, de fingir
Só a virada de calendário
A contagem de 3, 2, 1, no horário
Não diz que o mundo vai evoluir
Muito, muuuito pelo contrário

Nós buscamos no passado, o futuro
Pelo aprendizado, pela história?
Antes fosse, mas, pela opressão da escória
Que se impôs, deixando claro que o escuro
Tomou seu lugar no pódio da glória

E nem precisou ser goleador
Ou ouvir: “esses negros cantam demais”
Ele só mostrou que seu muro desfaz
Como um sopro na casa de Heitor
E nem somos lobos correndo atrás

Foi madeira pra tudo que é lado
Madeira, matéria-prima de construção
Os tocos que alicerçam no chão
Mesmo num morro dependurado
Foi nosso passo pra impulsão

E o passo que já foi dado
Não recua NEM FO-DEN-DO!
Pode ser até o Coiso dizendo
O futuro é inesperado?
Não acho, mas, o meu passo
Pelo menos, desse não me arrependo

domingo, outubro 28, 2018

O Olhar ao Sol

Olhar o sol nos fere
A vista, e com tempo, a pele
Acostumamos estranhá-lo
Escuridão prevalece
Quando se ousa encará-lo
Ao invés de luz, escurece

O olho estranha claridade
Luz que nos mostra verdade
Porque o escuro é o natural
Luz? Artificial, digital
Nosso olho se torna covarde
Retraído no mundo real

Encolhe-se ao sol, conforta-se à luz
À noite, o que aflige é o temor na rua
Cruel rotina que nos blinda do sol
Faz de nós escondidos, um figurante que atua
Ofuscados no holofote, ou no caso, um farol
O breu nos rende da forma mais crua; e nua

Mãos formam aba ou sobem em proteção
Espalmadas ao alto, têm maior dimensão
Perspectiva que o sol dá pra segurar
Nem na mão, nem no olhar cabe a imensidão
Nem o sol, nem o mundo podem se limitar
Se optar pela luz que se acende em botão

sexta-feira, agosto 24, 2018

Sigam-me!

Seguidores, e mais seguidores
Do quê mesmo? De quem?
Procura-se, vende-se, compramos
Sim, pagamos por admiradores
Eles são a nossa credibilidade
Goste você ou não, é a realidade

O número de amigos já foi a medida
A métrica hoje está diferente
O chique é ser seguido por mais gente
E ter pouca gente ‘seguida’
Quanto menos do outro, melhor é
Quanto mais de si mesmo, é top
O que vale é o que recebe de ibope
Seguidor é indicador de fé

Botam fé nesse nesses trocentos K
É como se falam os milhares
De exemplares obedientes a acatar
As novas e críveis autoridades
Que em até 1 minuto alarde
Seu repentino dom de influenciar

Usam roupas, makes: referência
Sigam! É esse o style padrão
Sem encontrar qualquer razão
Busco, quem sabe, explicação
Ou um resquício de coerência

Pessoas que nunca vimos
Com roupas que não usaríamos
Fazendo até coisas que não gostamos
Ou até pior: nem concordamos
São o novo referencial do que parecer
Parece que nos perdemos no caminho
Pois, nesses nos espelhamos
Quando estamos no espelho sozinho

Não quero saudosismo do irreversível
Não voltaremos a ter amigos da rua
Não sentaremos de novo em calçadas
Mas, será que pode parecer cabível
Ter amigos ser o que pontua
E não planos de pessoas compradas

Não, não invejo K, nem M, quem queira dizer
Pode definir por recalque, palavra que evito
Só não consigo, ao fim, compreender
Geração carente em que a atenção faz viver
O mundo de seguidores não é onde habito
E, se só um pouquinho, paro e reflito,
Por mais que, no insta, está seu ser mais bonito
E de você, no fundo, no fundo, ninguém quer saber

quarta-feira, agosto 01, 2018

A Mulher Sub

Ferida, fera, fora (Temer), fora a faca fincada
Todos os dias, na rua, no trampo, no ‘buso’
Todos os dias, todas as horas, destratada
Todas as idas, todas as voltas, abuso
Todas partidas, todas chegadas, te uso
Toda sua vida, submetida por nada

Submissão, submersa, suburbana
Subemprego, sub-amada, subtraída
Não traída no sentido de traição profana
Falo desde a renda diminuída
À saia sexy desprotegida
Que ao estupro lhe atribui a fama

Mulheres, senhoras, minas, ou como quiserem
Esse machismo nojento é culpa nossa
Nunca nos preocupamos se esses atos te ferem
Olhamos se a bunda é boa, o peito é grande e a coxa é grossa
Se reclamar, a gente se apossa
Os tempos mudaram, alguns não percebem

O quanto esse machismo foi perpetuado
Mais novo, não percebia o quão escroto era
Se não era estimulado, também não era criticado
Hoje mais ligado, o que de mim se espera
Meu filho educado, esse erro se encerra
Machistas não passarão, já são passado

Assumir que pensava errado não reduz o erro
Só nos torna mais consciente pra mudança
Ao ser percebido, levante a bandeira primeiro
Ao retrocesso crescente, não deixe essa herança
Homem não quer ser o fo...? Seja a segurança
Pra confiança dela te enxergar como parceiro

Hoje ela teme a rua, o trampo, o busão
Voltamos então à estrofe inicial
Vamos proporcioná-las evolução
E não ser encoxada por seu asqueroso pau
Nem pela impunidade do juiz Eugênio do Amaral
Que entende ejaculação como importunação
Sem constrangimento moral

A substância gosmenta, nojenta, submete
Não mete, mas invade a privacidade,
A privê cidade, a perversidade
Onde o sexo em local público
Local público, não corpo público
Não causa espanto de novidade

E sob o sol a pino do dia
A ferida doía, não apenas a pele melecada sentia
No coletivo, ato tão repulsivo que lhe agredia
Na avenida ou sob a via
Em estação subterrânea
Habitual, corriqueira infâmia

Contra a sub-moça, submissa, sub-assalariada

Sempre cercada
Sem subterfúgio pra não ser caçada
Sem refúgio, sem ter fuga momentânea
Pra se sentir tranquilizada

Do submundo onde ela vive
Coisificada em línguas várias
Ela provocou, não me contive
Imputei-lhe punições sumárias
Invadi-lhe proibidas áreas
À sua vontade nem um pouco me ative

Ativei, ativo, ataquei, meu motivo
Agressivo, reativo ao sex appeal
Pistola criminosa é só no estilo fuzil
Pênis agrediu, é crime abusivo
Criminosos de pen, pens, pênis, permissivo
Representantes legais do Brasil

A mulher deve ser sub sim
Sublimada, sublinhada
Em cada traço, colorida em todo espaço
Espaçada em toda cor
Espaço pra que não haja atentado ao pudor
E ela seja de novo violentada
‘Respeita as mina’, camarada
E fique ciente: ISSO NÃO É UM FAVOR!

sexta-feira, outubro 27, 2017

Ódio x Amor

Com o ódio tão presente
Com o ódio instalado
Tem gente que odeia a gente
Sem motivo declarado


É como um óleo fervente
Por vingança, preparado
Queima quem é diferente
Só por isso é odiado


A gente precisa sim, é de mais amor
A gente precisa sim, pedir por favor
A gente precisa ter sim, mais compaixão
A gente precisa respeitar sim, a opinião


E quem duvidar que o amor é que pode mudar tudo isso
Faça então a reflexão no seu momento mais pessoal
Quem ganhou algo de bom sendo expansivamente destrutivo
Quem conquistou algo de bom só fortalecendo o mal


Amor quando a gente põe em canção ou declama em poesia
Não pode ser da boca pra fora nem somente aos mais chegados
Amor é algo que contempla uma tal de cidadania
Amor é rosto à mostra no baile dos mascarados


Ame igual o romantismo de um inspirado compositor
Ame igual amava como amava um pescador
Ame, por amar, para o ódio não se impor
Ame, ame, ame, seja amor, seja qual for


Seja pra cantar, pra dizer, pra ir na praça e declamar
Faça por onde, não deixar o amor silenciado
O ódio não cansa de se espalhar, de berrar, de gritar

Ele existia, com agonia, por covardia era calado

Agora, tão ostentado em qualquer lugar
Tal qual a peste, é facilmente proliferado
Você, quando está só você, já parou pra pensar
Se joga ódio no ar e busca ao fim ser amado?

quinta-feira, julho 20, 2017

Transcende

Aí do nada, surge, aparece...
E junta tudo de mais foda
O jeito, o cheiro, a forma, a pele
Em mim, a reação incomoda
Mistura-se ao foco e à moda
E o olhar que entorpece
Domina o jogo, põe na roda

Sabe aquele olhar invasor
Que se bate de frente intimida
Não ouse tentar se impor
É tipo beco sem saída
É sem liberdade concedida
O sol só resolverá se expor
Se os lábios juntos ganharem vida

E nesse ar, nesse gesto, pode ser noite ou dia
Você tem todas as estações e ações fenomenais
O vento, um beco, trança o enigma que sorria
Sinto de químicos temperos aos sabores naturais
A paisagem verde, o grafite urbano, no preto e branco dos jornais
É a ação que nem a confissão perdoaria
Mas, pra quê? Se já vai ao céu, vai querer o que mais?
Por você? Sim, tudo, todo pecado, profanação valeria
Transcenderia razões: espirituais e carnais.
A ordem (ou desordem) tanto faz

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Retorno Notório


Ao mesmo tempo que tudo parece revirado
Que tudo está voltando ao passado
E isso muito me desanima
Vejo que ganha espaço a rima
Quem está na classe que domina
Surta se eleva nossa autoestima

Ocupando espaços, posições
Chegando algo da periferia
Pra quem sempre a preteria
Nas mais diversas situações

Na TV, por exemplo, só porcaria
Mas, hoje tem até filosofia
Tem debates de opiniões
E as novas gerações
Da comunicação veloz e vazia
Não entendem as lições
Saem dando sentenças e visões
Cuja causa sequer conhecia

Bate o martelo, está julgado
Com tanto julgamento atravessado
Não dá tempo de reflexão
Então, mesmo com tanta informação
Com o controle na mão,
Você ter opção
Parecemos zumbis teleguiados
Por celulares controlados

Nas redes sociais, professores se destacam
Karnal, Clóvis, Pondé, Cortella disparam
Os views em cada guia ou janela
Não tanto quanto à telenovela
Nem aqueles hits padrões
Mas, colocam no foco da tela
Raciocínio, argumentações

Não imunes, são atacados
Por juízes supremos da rede
Pois se sentiram contrariados
Pra eles, define-se tudo em dois lados
O deles e os errados
Entre nós, uma parede.

Intransponível muro
Tal qual o sonho americano
Criamos um no convívio humano
Já que eu nada aturo
Quero aqui ficar seguro
Aqui nem me misturo

E com tanta barreira
Tem quem anda de bigorna e marreta
Pra quebrar trincheira
Cruzar fronteira
Com sangue na veia
Contar essas treta
Com microfone e caneta
Tinta no papel, preferencialmente preta

Tem cara bom demais na versada
Está mais que em alta na parada
A galera nova está ligada
Mas, de que adianta só ouvir
Decorar e repetir
Sem pensar e entender nada?

Tem que sacar a jogada
A rima bem casada
Do Braulio Bessa em seu cordel
Fabio Brazza, improvisa com moral
No samba, fez escola, o Martinho da Vila Isabel
No rap, Racionais, verso preciso sem igual
Trilha sonora do gueto, honroso papel
Voltando a tal da batucada
O Xande que foi revelação
Toca e versa com pegada

E tem os feras da nova geração
Emicida monstruoso nas batalhas
Trucida uns sem mostrar falhas
Tem o Projota que agita multidão
Sabe usar as palavras normais
Sem versos formais, nada banais
E com rimas leais

Então, tendo filosofia
Rap, samba e poesia
É, no mínimo, contraditório
Nosso retorno notório
Ao que já superamos um dia
Em tempos não tão lá atrás
Sem sair de casa, a atitude voraz
Desafiar o mundo, pregar ideais
Isso me apraz
Eu vou fundo, no meu sofá imundo
Guerrear pra defender minha paz.

terça-feira, agosto 09, 2016

Amor também

Amor não é meu tema mais frequente
Pra não dizer que é quase raro
Sou mais de outras questões tão presentes
Das quais eu lamento ver, mas não me calo

Não é que o amor é silêncio em minha vida
Nem que ele seja desimportante
É que floresce mais história doída
Que qualquer romance apaixonante

Esse olhar pro lado mais sofredor
Não deixa o amor em segundo plano
Eu consigo também escrever sobre amor
Eu consigo também rimar: eu te amo!

E esse poema; esse, especificamente
Escrevo porque me causa agonia
Não sou dos românticos, minha gente
Mas, sou inteiro poesia

Sou dos que escreve sobre a rotina
Que afronta olhos acostumados
Minha mente observa e logo combina
A narrativa com versos rimados

Não sou dos cultos, que leem a rodo
Que manjam poetas, obras, citações
Vejo mais poesia na pedra com lodo
Que paisagens sonhadas nos eternos padrões

O que escrevo pode não ser erudito
Nem agradar quem domina essa arte
Mas, são nesses versos que acredito e deposito
A minha contribuição, a minha parte

Às vezes metódico, às vezes despirocado
Às vezes melódico, ou então proseado
Às vezes eufórico, às vezes quadrado
Às vezes retórico, às vezes largado
Às vezes alcoólico, sem ter embebedado

Não planejo o poema no primeiro rabisco
Eu simplesmente começo sem saber onde vai dar
Só assumo de cara um compromisso
A poesia não vai me abandonar

Seja ela qual for
Se for pra falar de amor
Se for essa a inspiração

É sobre amor que vou falar