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quinta-feira, outubro 31, 2024

Cara da Madrugada

Depois de cumprida minha função
Voz e palavras, alegria e emoção
Entrei no carro, percorria uma avenida
Tive a atenção na via distraída
 
Reparei num bar já de porta abaixada
Long-necks nas mãos esquentavam
Uma mesa naquela vaga de calçada
Selfie sendo posicionada
Sorrisos se preparavam
 
No rádio, tocava Machuca Demais
Só Pra Contrariar
Eu só pensava em quantos casais
Quantos sozinhos em saudades individuais
Sentiam a canção machucar
 
Na mesma hora, pensei também
Em quem através do casco
Atrás do fardo
Parece bem
 
A noite na rua se vê de tudo
Numa escala de felicidade
Tem todos os graus se cruzando
Conforme a noite passa, vão trocando
Ideias, posições, intimidade
 
Num ponto de ônibus à frente, eu vi
A moça no colo do rapaz
Ele no traje do trampo, uniformizado
De branco, talvez, um açougue, bem capaz
 
Que o rapaz da moça era namorado
Sei lá, marido
No segundo que passei por eles,
Um selinho consentido
 
Em plena madrugada
Em meu retorno, no caminho
A rádio continuava
Com cara de madrugada
Com música de madrugada
Uma sequência inapelável
Por vinhetas da rádio emendada
 
Pra quem ouvisse lembrar
De uma época, de alguém que amou
Ou um amor presente aí contigo
Num aconchego, ao pé do ouvido
 
A música tocou
Meu carro passando
Naquele bar fechando
Aquela turma eternizando
Um story que se apagou

quinta-feira, junho 22, 2017

Lendo Reações

Hoje resolvi começar diferente
Andei pela rua sem muita atenção
Tirei o celular da minha frente
E resolvi andar de livro na mão

Confesso que minha percepção
Além da leitura, foi na reação
Das pessoas que olhavam
Testas franziam, se perguntavam

Como andava eu pela rua desatento
Com um livro aberto fechando a visão
Poderia tropeçar a qualquer momento
Numa pisada, desagradável sensação

Segui lendo, o conteúdo era atrativo
Não era tela, muito menos aplicativo
Meus passos seguiram pra onde eu ia
Quem com cel fica off,  pouco entendia

Como eu não tropeçava, como eu não caía
Dos buracos desviava, mantendo a postura
Eu também me questionava se ninguém percebia
Que o pescoço trava e entorta a curvatura

Ficar vidrado nos tablets e aparelhos multifuncionais
Tais quais antivírus nos nossos sistemas operacionais
Desabilitam nossas funções essencialmente racionais
Somos plugados no fone, ligados em likes, buscando virais

quarta-feira, maio 21, 2014

Crônica: Asa e portão brancos


Bora trabaiá! De novo, paro pra escrever na praça. A 2 minutos a pé da entrada do prédio da TV e mais oito lances de escada. Sob os assovios afinados de um pintor que executava sua arte com tinta branca e um portão, vim.

Desci escadas para chegar ao ponto de ônibus. Mal deu tempo de chegar, já veio o coletivo. Entrei. Vazio. Bendito contrafluxo que me leva e me traz do trabalho. Li o livreto de Fernando Pessoa, com poemas assinados também pelos heterônimos do escritor. Desci no mesmo ponto que um senhor que não tinha uma das pernas. Apesar do peso do homem (que não parecia pouco), ele mostrou desenvoltura na manobra. Imaginei quanta dificuldade este já passou (e passa) para ter tamanha prática.

No ônibus, (voltando a ele) praticamente vazio, tinha uma moça morena, bonita (nada exagerado) e que carregava consigo um jeito de quem trabalha muito. Uma cara de quem já tem uma carga de sofrimento e que estava pronta pra batalha naquele dia. Desceu em frente ao Shopping União. Trabalhar em shopping não deve ser moleza. Longe de grande elegância, a moça de seus 23 anos usava um jeans cinza (já mais surradinho), blusinha azul, dessas baratinhas de baciada, um anel prateado e com figuras, no dedo anelar direito. Em compensação, o tênis, que pode ser o responsável (um dos) por mantê-la em pé (talvez) e firme no trabalho, esse era de marca e não dos mais baratos. Afinal, trabalhamos pra isso e eu ainda estou lembrando dos assovios afinados do porteiro entoando Asa Branca, de Luiz Gonzaga.

Ao voltar à noite, subi as escadas que desci de manhã. Já não estavam mais nem o pintor, nem a Asa Branca. Nem reparei se o portão estava finalizado, se já estava tudo branquinho, mas já do primeiro degrau da subida, não dava pra não sentir o cheiro da tinta que estava no ar.


Escrito em 03/04/2014