“Pra fazer um samba com beleza É preciso um bocado de tristeza”
Vinícius compôs e cantou Olha, sendo assim, certeza Que na hora de fechar a conta e por na mesa Inspiração não faltou A gente anda triste Luta, luta, luta e luto Luta, luta, luta e luto Não sei você, mas, fake News eu refuto Tem umas e uns que nem discuto Não vale a saliva do papo, Valeria, como antes se dizia Uns ‘catiripapo’ Mas, não é no sopapo, nem no tapa Que a gente escapa da melancolia A minha melhor forma É a caneta que transforma O que me transtorna, em poesia Agora, me fala: haja samba pra fazer Com tanta tristeza em volta Nosso enredo anda sem revolta Pouco ousa dizer A gente anda triste Você, eu, nossa gente O medo é frequente Cada vem mais presente, ele persiste Pra ver se a gente resiste Ele quer ver até onde vai, até onde vamos Ver quem primeiro cai, quem não seguramos Será que esse samba sai, Se há muito tempo nem cantamos?
O samba perdeu sua voz de lamento
Compôs Paulo Cesar Pinheiro
Beth Carvalho foi essa voz
Das coisas da gente, cantava por nós
Cantava a vida do brasileiro
e apontava o algoz
Beth não se americanizou
Era Brasil inteiramente
Saco de Feijão, Corda no Pescoço, quando cantou
Ela ali denunciou
O que se vive diariamente
E ela, com sua humildade
Que tive a oportunidade
De conhecer e entrevistar
Dizia que o samba se perdeu no tempo
que pagode não era novidade
Ela havia empregado o termo
Pôs na capa pra mostrar,
a certa forma de usar
A mulher Beth Carvalho, sambista
Foi madrinha de nomes, grupos e da história
Se o samba vive ou viveu sua glória
Foi essa mulher nesse meio machista
Que abriu cada porta
Gravou disco só do samba paulista
Sem rixa, com seu sotaque carioca
Beth nos deixou Sem Defesa com sua partida
A madrinha que pelas Andanças empunhava um cavaquinho
E Nelson no peito
Levava Cartola e a Mangueira pra avenida
Isso, Beth, fique tranquila, não será desfeito
Seu legado foi perfeito
Obrigado por sua vida
Saiba que a cada acorde que suas cordas executam, a cada ‘tum’
de sua percussão, você carrega com você o samba ‘do tempo que quem fazia corria
do camburão’. Se hoje você curte samba,
é porque muita gente plantou e hoje você só semeia e balança a bandeira num
ritmo diferenciado do que os pioneiros fizeram.
Muito antes do período de autoritarismo e bem pouco depois
do registro do primeiro samba, nos anos 1910 e 1920, o preconceito com nossa
música, com nossa dança, com nossa origem já eram tão presentes que calos nas
mãos e até vestimentas eram os crachás de músico, razão suficiente para
aprisionar um dos nossos como vagabundo.
Se você não sabe que sua música resistiu à ditadura, à
repressão policial e sua principal razão é denunciar nossas dificuldades e toda
a opressão que sofreu ao longo dos anos, militar ostensiva e política, por que
você faz samba?
Ser do samba é ser combate à repressão, combate ao
preconceito e acima de tudo, ser combatente. Contra quem queira diminuir nossas
origens territoriais, culturais e religiosas.
Quando você cita Bezerra da Silva, você trata de denúncia
das agruras do nosso povo. Zeca Pagodinho não fica atrás em seu microfone
aberto berrando ao mundo tudo o que passamos aqui. Nosso samba não é só ‘mania
da gente’. Invadimos os casarões, as avenidas e, a cada passo, repressão,
preconceito e luta. O espaço só foi conquistado assim. Ninguém saiu abrindo as
portas pra gente. Se não fossem os ‘números baixo’ meterem o pé na porta, ainda
estaríamos restritos lá nos quintais da casa-grande.
Hoje, você paga VIP pra ouvir um ‘pagodin’ e tomar suas
bebidas medidas em anos e energéticos. O Bar da Esquina não faz mais sentido
pra você, jovem sambista.
A cada samba que você ‘exalta’ (sem demérito na referência,
de verdade), lembre-se que, se não fosse Martinho, teríamos sido suplantados
pelo iê-iê-iê e pelas guitarras da década de 70. Ah, se não fosse a batida de
partido-alto e a resistência.
Se você diz que é do samba, você PRECISA saber que o samba ‘perdeu
sua voz de lamento’. Se você nem sabe do que se trata isso, todos esses trechos
em itálico contam um pouco do que me refiro. ‘Quem faz samba, faz a história de um lugar’. Se você só curte a
música pela festa com os ‘parça’, pela balada e por ser um som agradável num
churrasco com os amigos, você nunca vai entender que “NINGUÉM FAZ SAMBA SÓ
PORQUE PREFERE”.
Chegou domingo, hoje eu quero farrear
Hoje eu quero batucar
Hoje eu quero bater na mão
Chegou domingo, hoje é dia de pagode
Futebol, a galera explode
Nosso samba é campeão
Um gol, outro gol e a bola não para na televisão
Brasileiro, espanhol, o inglês, da Itália e até o alemão
Domingo, o quintal tá lotado, o samba é nosso esporte
Pra chegar, só a malandragem é que tem que ser forte
E depois um domingo fantástico, o pagode chega ao seu final
Mas, domingo que vem tá aí, vai ferver o quintal
Domingo bem cedo a galera se junta pra bola rolar
Eu sei, a noitada foi boa, no entanto, não posso atrasar
A chuteira já tá esperando, a camisa e o fardamento
O jogo acabamos ganhando, tudo isso foi o aquecimento
O que importa é a outra redonda, a mesinha no canto do bar
Onde a turma se une pós-jogo, prum samba cantar
Dm Gm
Samba, amor primeiro desde a infância
A7
Infinito e com constância,
Dm A7
Quando ouço os bambas pra me espelhar
Dm Gm
Samba, esse som originário do Brasil
A7
Tão aclamado, noutros tempos, arredio
Dm D7
Perpetuou e hoje é alto patamar
Gm7
Meu samba (meu samba, meu samba)
C7 Am7
Não teria melhor vida sem você
D7 Gm7
Um novelo que é sem fim pra aprender
C7 Am5-/7 D7
Tantas joias, tantas obras pra cantar
Meu samba (meu samba, meu samba)
Vai do gole de branquinha do celeiro
Ao mais chique dos requintes do estrangeiro
Esse tão singelo dom de batucar
Meu samba (meu samba, meu samba)
Teve a mineira, Clara Nunes, a rainha
Ivone Lara e a Joia Rara, Jovelina
Beth Carvalho e Leci a amadrinhar
Meu samba (meu samba, meu samba)
É mais que estilo, é transcendente ligação
Maior de todos, simples nome é João
Méier e os 2 da Vila a honrar
C F7 C
Olha o ladrão, alguém gritou
A7 Dm
Ninguém viu, nem escutou
A7 Dm G7
Quem sabe em samba, a gente acorda e corre atrás
C F7 C
Falou... no rádio e na tv
A7 Dm
Não dá mais pra esconder
A7 Dm G7 C C7
Assume o erro,......... olha pra frente que vem mais
F7+ G7
Vem mais, papo furado
Em A7
Vem mais, lá do senado
D7/9 G7 C
Vai mais, nosso dinheiro desviado
F7+ G7
Vem mais, um aliado
Em A7
Vem mais, voto trocado
D7/9 G7 C
Vem mais e o nosso povo tá lascado
Bb7 A7 Dm G7
Vem mais povo zuado,
C Bb7 A7
Vem mais, rosto marcado
Dm G7 C
Apanhamos e ainda damos o outro lado
Bb7 A7 Dm G7
Vem mais, mesmos safados
C Bb7 A7
De terno engomado
Dm G7 C
De repente, um surdo
Tuumm, tum, tuumm, tum
Nessa hora não há peito algum
Em lugar nenhum
Que não o sinta bater
Que não o faça tremer
Nessa hora, um descompasso
Sem sair do tempo
Cada um da seu passo
No apito ou contratempo
Eis que nesse momento, o coração se desdobra, se triplica
Quando ao fundo da quadra
Um garoto repica
A caixa, o repilique
O tamborim segue o pique
Tão pequeno e imponente
Mostra-se tão presente
É cara de pau, sai na frente
Faz seu xaveco, sua bossa mais quente
E quentes ficam o sangue, as cordas e palhetas
Em notas velozes de infinitas facetas
Todo esse cenário no palco começou na calçada
Nota por nota, letra por letra
Seguindo a diretriz, o enredo que diz
Se é pra falar de dança, dancemos
Faça com que nos lembremos
Que a melodia preencha a quadra
E cante numa voz
Que a preciosidade sejamos nós
Em cores e luz, vermelhas, azuis
Enquanto o estandarte gira, conduz
Por uma hora e cinco mais apuração
A cada 10, a vibração
uma única sensação
Única, rara e especial
Como a jóia que nos representa
Preta, como nossa essência
Coloridas pela festa
E antes que ela se acabe
E aí, a quarta cinza que resta
Nosso respeitado manto
Vai lutar tanto
Vai gingar, dançar
E levar esse canto
Mais do que aos corações
Às cordas e percussões
Para o grito tão preso
Da Vila Madalena, onde voce verá que vale a pena
Sermos Pérola Negra
enfim campeões
Lamentavelmente, nossa música tem perdido a essência, o porquê. Isso acontece com o rock, que ganhou cores e apagou um pouco a luz ideológica que representa. Ainda temos os movimentos e bandas resistentes, mas são a exceção. Hoje é tudo enlatado, padrão, igual, nojento, vazio.
No samba, do qual tenho maior conhecimento e propriedade para discorrer, camisas justinhas e óculos caracterizam o novo pagodeiro, além do sorriso à toa. Quem ri tanto assim passa do status de simpático ao nível bocó. Paulo Cesar Pinheiro e Nelson Cavaquinho que o digam, quando cantaram a tristeza. Samba pode ser feliz, mas com essência, com verdade. E poucos a têm. Samba é algo que vai além de uma preferência, já dizia Nogueira. O samba saiu da cadeira e mesa de ferro dos botecos para luxuosos palcos.
Agora, pegando a estrada (de terra), vamos ao sertanejo. Acho até estranho o termo sertanejo em alguns casos. Sertanejo vem de sertão. Certo? Qual a ligação que hoje se ouve entre as músicas de 'banheiro', 'pega aqui, pega ali', tchererês, lelelês e afins com a terra, com o fogão de Lenha de Chitãozinho e Xororó, por exemplo?
Felicidade e alegria demais na música, muitas vezes, estraga. Quem aí que gosta de sertanejo ainda ontem chorou de saudade?
Outros gêneros sofrem com o mesmo problema. Cabe a quem percebe essa visão, se esforçar contra a tendência e tentar expandir essa sensação de sermos exceção ao nosso redor.
Se é que me entendem, música não é apenas um gosto ou preferência para entretenimento. Ela é responsável também pela formação da personalidade, caráter e cultura das pessoas. Se essa formação é integralmente vazia, o que fazer?
Que porre é o carnaval A festa do bacanal Pra mim, é tudo igual Curtir carnaval? Nem a pau... Fico até mal Nem é pela questão moral Não sou mais um moralista Mas, tô fora dessa pista Não dá pra correr Não dá pra escapar É difícil ver TV E rádio escutar Não sei o que tem de legal Nessa época de carnaval Ser quem você não é Na sua vida normal Cara se fantasia de mulher Paga mico, é um mane E foge da vida real Mascara-se de falsidade E usa o traje de covarde E como um pierrot Ou melhor, como um palhaço Veste-se de coragem E sob toda essa plumagem Sabe tirar vantagem E culpa o lado selvagem Aflorado pela festança Sabe entrar na dança E até fazer criança Que de nada tem culpa Em novembro começa a luta Pela dura sobrevivência Ato da sua sapiência E claro, muuuuuuuuuita inteligência Mas, voltando à festa do povo, (Cá pra nós, nada de novo) Só o hit do momento Que apaga o sofrimento E finge estar tudo bem Pula, bebe e fala amém
Depois, não há de reclamar Que a vida está dureza Esqueça, pense na beleza Do carro da escola Do país da bola Só nisso mesmo Esse é o nosso enredo A evolução que dá medo De destruir a harmonia E o que vier pela frente Desmascarar a fantasia De encharcar a alegoria Sem falar que o dia a dia Que a nossa vida dá samba Mas a letra só protesta O clima não é de festa É um samba canção Melodia de violão No bom estilo chorão E bateria é trovão Raio, inundação Mas, CAI NO SAMBA, nação!!!
Nada contra o samba O amo mais que tudo Bem baixinho, quase mudo Violão, cavaquinho Pandeiro e surdo Admiro a ação social Que esses grêmios de carnaval Têm na sociedade Ensaio, aula, atividade Com crianças da proximidade Unem garra e vontade Em prol da comunidade Festas e mais ações Para arrecadações Para manter-se e sobreviver Mas a questão a se fazer É por que sobra pra essa escola o que a outra não fez?
Pode ser um incentivo Ou até ser o motivo A questão fundamental Já que a ação governamental Só colabora com carnaval
Poderia ter só o social E não esse festival O prostíbulo mundial
Alô povo festeiro Quando chega fevereiro Iria até pro estrangeiro Dá vergonha de ser brasileiro...