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terça-feira, fevereiro 18, 2020

Ainda Quebra-Cabeça

Em tempos de plataformas digitais
Só ouve música merda quem quer
Nem vou me concentrar
Em dizer o que é ruim e o que não é
Sua consciência, eu creio, é bem capaz

E foi ouvindo Gabriel, o Pensador
Que então me dei conta
Do papel que desempenhou
Quebra cabeça. 23 anos e ainda não se monta
Olha que nem foi peça que faltou

Falava de aborto, violência, saúde, quero mais
Fez uma festa com som de tudo quanto é jeito
Mostrou a guerra que há contra o cachimbo da paz
O índio quer apito, não quer bala no peito
E hoje, eu confesso, meu verso tem das suas digitais

As linhas tortas no caderno que carrego
É porque escrevo num bloco não pautado
Mas há um bloco de assuntos que me apego
E não me entrego se o som não sai rimado
É 35. A lavagem? Não, o poder da viagem
E essa não tem fiado nem se põe no prego

Tem o nome de um grande amigo
Sua obra, Pensador, formou uma legião
Aprendi a ouvir o que não era dito
Nas palavras repetidas em refrão
Fui aprendendo a dizer o não escrito

Pensador, minha reverência sem a continência
À indecência militar que tá na moda
É a tendência da milícia à presidência
Bala perdida por aqui tem boina e rota

O povo ainda diz: hoje eu tô feliz
Acabou a previdência
Estupidez em evidência
E a ditadura está de volta

terça-feira, novembro 27, 2018

Ao Entregar Uma Rosa



A sacada nem é minha, é do Criolo
‘Buquês são flores mortas, num lindo arranjo’
Aí eu me pego pensando
Ao entregar uma rosa
Eu sei que a atitude é generosa
É boa de coração
Mas, voa comigo na reflexão

Ao entregar uma rosa
Presenteamos em botão
Por vezes, nascente
Alguns decadentes
Na boa intenção

Ao entregar uma rosa
Embalamos.
Os espinhos? Retiramos
Depois que da terra arrancamos
Começa a contagem regressiva
O vaso com água amortiza
Mais um tempinho de sobrevida
Até secar a conexão
Com a natureza e seu habitat, o chão

Onde, por dias, cresceu
Até ser arrancada, toda lapidada
Pra ser entregue
Esperando retorno
O sorriso no rosto
De quem recebe

Ao entregar uma rosa
Será, de fato, que a intenção, por melhor que seja
Não vale que a gente reveja
Que, ao entregar uma rosa
Presenteamos-na morta
Toda emperiquitada, artificial
Artificializada, nem sei se essa palavra existe
Ao entregar uma rosa,
Começa a contagem do quanto ela resiste
E a gente insiste entregar uma rosa
Já sem coração, sem terra e pulsação, sem veias

Ao entregar uma rosa
Sejamos viscerais, integrais no ato
Entreguemos com vaso e tudo
Terra, semente e adubo,
Pra que ela floresça
Não padeça sem futuro

Ao entregar uma rosa
Deseje vida e continuidade
Não, o sorriso em troca para sua vaidade

Entregar uma rosa ou um buquê
Não faz o menor sentido
Se desejamos vida
Com tempo pra morrer
Em poucos dias definido

Ao entregar uma rosa
Não é essa a proposta
Seja rosa ou qualquer flor que ela gosta
Entregamos num gesto lindo, como o arranjo

Mas, será que ao entregar uma rosa
Entregamos em essência?
Essência do perfume e a nossa
Ou disfarçamos nossos espinhos e origem
Não são todos que se exibem
Nus, sem poupar imperfeições

Sua beleza e a de entregar uma rosa
Estão mais na terra e na história
Que no buquê de enfeitados botões

quinta-feira, setembro 14, 2017

Minha bagagem

Minha bagagem não tem
Os grandes clássicos da literatura
Assumo a falha, mas, não aceito porém,
Questionar minha cultura

Li alguns grandes autores
Na escola e algum tempo depois
Que me desculpem os mestres doutores
Sou bem mais Nei Lopes, D2

Sou Bezerra, Dicró, Morengueira
Sou João e seu Nó Na Madeira
Sou Cacique, a tamarineira
Rainha Leci, Clara guerreira

Sou Martinho, partido e pandeiro
O lamento de Paulo Cesar Pinheiro
Leva Meu Samba, meu mensageiro
Almir e Da Cruz; Beth, as damas primeiro

Minha poesia pode até ser rebuscada
Culpa de Um Homem Na Estrada
Ao ouvir, minha alma é elevada
Num sarau, poesia declamada

Foram essas raízes, minha influência
Aos poucos, adquiri a consciência
Que estes construíram minha essência
Minha poesia? Só quer dar sequência...

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Retorno Notório


Ao mesmo tempo que tudo parece revirado
Que tudo está voltando ao passado
E isso muito me desanima
Vejo que ganha espaço a rima
Quem está na classe que domina
Surta se eleva nossa autoestima

Ocupando espaços, posições
Chegando algo da periferia
Pra quem sempre a preteria
Nas mais diversas situações

Na TV, por exemplo, só porcaria
Mas, hoje tem até filosofia
Tem debates de opiniões
E as novas gerações
Da comunicação veloz e vazia
Não entendem as lições
Saem dando sentenças e visões
Cuja causa sequer conhecia

Bate o martelo, está julgado
Com tanto julgamento atravessado
Não dá tempo de reflexão
Então, mesmo com tanta informação
Com o controle na mão,
Você ter opção
Parecemos zumbis teleguiados
Por celulares controlados

Nas redes sociais, professores se destacam
Karnal, Clóvis, Pondé, Cortella disparam
Os views em cada guia ou janela
Não tanto quanto à telenovela
Nem aqueles hits padrões
Mas, colocam no foco da tela
Raciocínio, argumentações

Não imunes, são atacados
Por juízes supremos da rede
Pois se sentiram contrariados
Pra eles, define-se tudo em dois lados
O deles e os errados
Entre nós, uma parede.

Intransponível muro
Tal qual o sonho americano
Criamos um no convívio humano
Já que eu nada aturo
Quero aqui ficar seguro
Aqui nem me misturo

E com tanta barreira
Tem quem anda de bigorna e marreta
Pra quebrar trincheira
Cruzar fronteira
Com sangue na veia
Contar essas treta
Com microfone e caneta
Tinta no papel, preferencialmente preta

Tem cara bom demais na versada
Está mais que em alta na parada
A galera nova está ligada
Mas, de que adianta só ouvir
Decorar e repetir
Sem pensar e entender nada?

Tem que sacar a jogada
A rima bem casada
Do Braulio Bessa em seu cordel
Fabio Brazza, improvisa com moral
No samba, fez escola, o Martinho da Vila Isabel
No rap, Racionais, verso preciso sem igual
Trilha sonora do gueto, honroso papel
Voltando a tal da batucada
O Xande que foi revelação
Toca e versa com pegada

E tem os feras da nova geração
Emicida monstruoso nas batalhas
Trucida uns sem mostrar falhas
Tem o Projota que agita multidão
Sabe usar as palavras normais
Sem versos formais, nada banais
E com rimas leais

Então, tendo filosofia
Rap, samba e poesia
É, no mínimo, contraditório
Nosso retorno notório
Ao que já superamos um dia
Em tempos não tão lá atrás
Sem sair de casa, a atitude voraz
Desafiar o mundo, pregar ideais
Isso me apraz
Eu vou fundo, no meu sofá imundo
Guerrear pra defender minha paz.