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segunda-feira, outubro 24, 2022

Não Se Pinta

Sabe o que se pinta?
Quadros, paredes, gravuras
A lápis, verniz, spray, tintas
Primárias, secundárias, misturas
Tonalidades claras ou escuras

Pintam-se também muros
Grafitam cor e suavidade
Nem a arte os deixam menos duros
Pelo duro papel na sociedade
Um obstáculo à propriedade

Sabe o que não se pinta?
A verdade; é sem pintura ou maquiagem
Em idade de adolescência ainda
A inocência toma ciência do homem selvagem
Imposta à convivência, obriga a coragem

Sabe o que também não se pinta?
Clima com menores de idade
Esse clima é uma tempestade infinda
Pintar um clima não tem contexto que cabe
Não tem clima, é um quadro covarde
O nome do quadro?
Deus, Pátria, Família e Liberdade

terça-feira, fevereiro 01, 2022

Por Moïse Kabangabe

Quanto vale o seu dia?
É exatamente isso que eu ‘tô’ perguntando
Quanto vale seu dia?
É... custa quanto?
 
E seu dissesse que seu expediente vale uma vida?
Eu ouviria: como assim? Que exagero...
Pois, eu vivo no Brasil brasileiro
Onde um congolês fez cobrança devida
A grana de 2 dias de lida
Trampando no Rio de Janeiro
 
A cobrança não foi bem recebida
Ali mesmo fizeram o acerto
Espancaram até a morte um corpo preto
Em covardia mais descabida
Eram 5 na mesma batida
Sem prestações
Racismo aqui não é segredo
Ripa de madeira e bastões
15 minutos de agressões
Mataram sem medo
 
Naturalizou-se a tal ponto
Um imigrante morrer espancado
Ainda por cima, amarrado
Por alguns poucos contos
Que o país, mesmo noticiado
Não está em luto pelo rapaz do Congo
Nem se encontra inflamado
Pronto para o confronto
 
E olha que ironia
Quiosque Tropicália
Nem o movimento referencia
Nem o sentimento de um País Tropical
Abençoado por Deus
Ao contrário, parece que fomos abandonados
Cada um que se vire com os seus
 
Barra da Tijuca, 24 de janeiro
24 também a idade
De Moïse Kabangabe
Rio, do mês que ele morreu
Pra ele não será o Rio de fevereiro e março
Pra essa família, o Rio não continua lindo
Ele continua indo
Como se nada tivesse acontecido
Só que aconteceu, eu não disfarço
Meu verso grita escrito
Mas não faz estardalhaço

sexta-feira, dezembro 03, 2021

Primeiros Pretos

Ô, na moral, "cês" já repararam
Que "nóis tamo" em 2021
E ainda é bem comum
Ainda ontem publicaram

A primeira mulher a fazer isso
A primeira pessoa preta naquilo
Primeiro, primeira trans naquilo outro
Sabe de tudo isso o que é mais louco?

É que precisou tanto tempo
Pra um passo que ainda é pouco
Vozes que viraram silêncio
Além dos que seguem roucos

Claro, o passo merece aplauso
Palmas que deveriam ter batido
Seu avô ter ouvido
Ainda menino e descalço

Era pra ser como o carro voador
No passado, o previam
Nesse ar, que não congestionou
As frases que ouviam seu bisavô
Agora há pouco repetiam

Frases e comportamentos
Que o tempo não envelheceu
Vozes jovens as repetem
Com infeliz argumento
É um posicionamento
Direito meu
Ao crivo do crime não submetem

Tem um exemplo aqui
Você conhece Theodosina?
Theodosina Rosário Ribeiro
Esse nome foi o primeiro
Sabe como eu descobri
Primeiro ouvi,
Depois pesquisei e vi

Que, como vereadora, mulher preta
Foi precursora
Na Assembleia Legislativa também
Parece da hora, motiva
A voz preta ativa
Ali, representada, sendo alguém
Só que aí vem o porém

Ela só chegou lá em meia-oito
Em meio a ditadura
Quando o poder era ao meio
meio-censura, meio-tortura

Meio mundo sumiu
E depois da Theodosina
A próxima imagem preta feminina
Que o voto definiu
Exigiu 40 anos sem tanta melanina
Definindo o que é legal pro Brasil

De 83 a 2010
Nenhuma mulher preta botou os pés
A voz na tribuna, como eleita
Surge então, Leci Brandão
Sambista, cabeça feita, de posição

Que não seja mais preciso
Décadas de um intervalo nocivo
À nossa representação, miscigenação
Ao antirracismo
Pense nisso na eleição

Dizem... dizem...
Sabe o que não pode dizer?
Que não foi avisado
É triste a gente tão conectado
Sem nem se entender
Conectado, mas não 'tamo' ligado

Eu nem sei o que eu posso ser o 1º pardo a fazer
Se um dia chegar a ser, eu não queria
Preferiria ser o de número 100, mil
ou até cem mil
Eu queria menos estreito o funil

Pra que, em 2021
Não vire notícia capaz de surpreender
A primeira pessoa X, Y, Z
A alcançar tal desafio

É da hora a notícia da chegada
Mas notícia boa, boa mesmo
Não é notícia atrasada

quarta-feira, setembro 29, 2021

Óbito Também é Alta

Óbito também é Alta
Óbito é alta
Entendeu?
Óbito – alta
 
Sim, é alto o número de mortes
A sorte nos falta
Mas não é só sorte
É fruto de um golpe
De missão incauta
 
Tiram-se os lençóis
Tira-se a terra
Fecham-se paletós
Pais, tios, avós
Tira o ar e já era
 
Siglas: UTI, IML
Do leito ao luto
Do quarto aos sete
Palmos que despede
O fim absoluto
 
Respiro curto
Versos breves
Crime absurdo
Que nenhum insulto
Descreve
 
Tem nome, sobrenome e assinatura
Prevent, Senior, Bolsonaro
Essa foi a postura
Cada um pague a sepultura
Previdência é algo caro
 
Óbito também é alta
Deixar o hospital e o leito
O plano de saúde contrasta
O kit morte já não basta
Tirar o ar está no preceito
 
Já não bastasse Mandetta, Pazuelo, Teich
Queiroga e a cloroquina
Usaram a máxima do Reich
Lealdade e Obediência
Lema da ação assassina
 
Será que vivo pra vê-lo pagar?
Milhares de adeus
Mortes como alta hospitalar
Um plano sem carência pra matar
É esse povo que se diz de Deus?
 
Era, pra hoje, a Prevent estar em chamas
A sede queimando, derretendo
Seria uma calorosa vingança
A quem eles ceifaram a esperança
De uma avó se restabelecendo
 
Slogans replicados
Inclusive na crueldade
Brasil acima dos enterrados
Incinerando os cremados
Testando a humanidade
 
Nem precisa testar
Já fomos reprovados
Prontuários pra ocultar
Sem nem velórios pra chorar
Pra eles, só resultados
 
Nós perdemos
Braços que não dão mais abraços
Somos a cada dia um pouco menos
A cada dia, um pouco mais, morremos
Com tantos crimes macabros
 
Quero deixar público meu prontuário
Minha dose é a escrita frequente
Desabafo sempre que necessário
Eles mataram e nada diz o contrário
Só a corja de Jair e a Prevent