terça-feira, fevereiro 02, 2016

Sem Fantasia

Desse quase um quilômetro
Pouco mais da metade
Onde existe vida e vive
Onde o mundo convive
Numa identidade

De um fatal encontro
De humanidade
Uma hora tão livre
Sem que ninguém pedisse
Se fez comunidade

Cabelos raspados, unhas compridas
Corpos pelados, roupas floridas
Sambas cantados, unhas roídas

São cantos sentidos, com muito a dizer
O simples motivo pro povo se ver
Um abraço de amigo é mais que vencer

E o 10 na vitória aponta seu mérito
O trabalho então ganha crédito
Traz o adversário pra perto
Unidos, mais um 10 é certo

Tem sapatos, paetês e regatas
Tem bolsa, penteado e gravata
Tem gente como é sem bravata
Tem muito passo, muito samba
Só a fantasia é de pirata

terça-feira, janeiro 26, 2016

Paulista: avenida cruzamento da vida

Tem gente na rua, sim senhor
Tem música também, sim senhor
Tinha tanta atração
Interpretada e humana
E tudo sem confusão
Tinha show, muita dança
Tinha rock, tinha samba
Um trio a la Gonzagão
Reggae, blues e axé
Tinha casal sem homem
Tinha casal sem mulher
Tinha bicicleta, skate, patinete
Tinha uns motorizados criativos
Uns dançavam na chuva
Outros sem buscar motivos
Por lá, se vendia muita coisa
Guarda-chuva, arte e livros
Tinha sotaques e idiomas
Vizinhos e distantes
Se cruzavam paredes brancas
Outras repletas de diplomas
Nenhuma se fez mais pujante
A mão de volta e de ida
São grandes o bastante
Para a intersecção da vida
Em pedra crua ou diamante
Dessa São Paulo aniversariante
Dessa Paulista tão pulsante
Que há pouco tempo, não muito antes
Oscilava só no vermelho
Ou amarelo piscante
Pro ciclista, pro caminhante
Hoje, pode olhar confiante
Imaginar adiante
Relatar relutante
Como nossos avós no Tietê
- Neto, sabe a Paulista? Eu passeava no meio da rua
Aquele papo saudosista
Ele vai perguntar: e os carros na pista?
A pista, meu neto, tinha dia pra diversão
Ele verá fotos com desconfiança
Vai falar que eu tô de zoação
Mas o que eu vi hoje
Não dá pra enumerar, descrever, detalhar
Eram galáxias numa avenida
Intensa, cinza, pesada
Sem gasolina queimada
Terra da garoa, chuva pesada
Tinha suor de pedalada
E a pé, vida corrida.

sexta-feira, setembro 04, 2015

Jóia Rara

De repente, um surdo
Tuumm, tum, tuumm, tum
Nessa hora não há peito algum
Em lugar nenhum
Que não o sinta bater
Que não o faça tremer
Nessa hora, um descompasso
Sem sair do tempo
Cada um da seu passo
No apito ou contratempo
Eis que nesse momento, o coração se desdobra, se triplica
Quando ao fundo da quadra
Um garoto repica
A caixa, o repilique
O tamborim segue o pique
Tão pequeno e imponente
Mostra-se tão presente
É cara de pau, sai na frente
Faz seu xaveco, sua bossa mais quente
E quentes ficam o sangue, as cordas e palhetas
Em notas velozes de infinitas facetas
Todo esse cenário no palco começou na calçada
Nota por nota, letra por letra
Seguindo a diretriz, o enredo que diz
Se é pra falar de dança, dancemos
Faça com que nos lembremos
Que a melodia preencha a quadra
E cante numa voz
Que a preciosidade sejamos nós
Em cores e luz, vermelhas, azuis
Enquanto o estandarte gira, conduz
Por uma hora e cinco mais apuração
A cada 10, a vibração
uma única sensação
Única, rara e especial
Como a jóia que nos representa
Preta, como nossa essência
Coloridas pela festa
E antes que ela se acabe
E aí, a quarta cinza que resta
Nosso respeitado manto
Vai lutar tanto
Vai gingar, dançar
E levar esse canto
Mais do que aos corações
Às cordas e percussões
Para o grito tão preso
Da Vila Madalena, onde voce verá que vale a pena
Sermos Pérola Negra
enfim campeões

Bora fazê um rolê

"Aê tio, dá a bolsa!"
Não,  não era um assalto. Era um amigo falando pro outro.
Deixa que eu levo a mochila
O outro: "fica de boa,  ta tranquilo"
O primeiro replica: "bora pa praia dia 15 e 16?"
- agora de agosto?
- isso, no próximo mês. Duzentão por cabeça. Tudo certo,  tio. Casa alugada."
- Vou ver umas "parada" e te aviso, mas que praia que vai?
- Praia Grande
- Mas "Praia Grande é grande demais". Casa da hora, com piscina?
- bem loka, vê se cê vai
Aê tio, tem até wi fi
Na praia, em casa com piscina, provavelmente, umas mina, e os cara pensando na rede. E nem é a de varanda, daquelas trançadas pra balançar
O cara viaja, pega estrada, paga pedágio pra ver o mar. Para em frente dele e só pensa em navegar... na Internet.

terça-feira, agosto 11, 2015

Auto-confronto

As pessoas se confrontam
Só por pensar diferente
Por vezes nem se questionam
Se vale a pena bater de frente
E o pior de tudo isso
É que nem sempre é coerente

Mas o campo de batalha
Um esconderijo virtual
Quase nunca é cara a cara
Mas se espalha num viral
É vazio de argumentos
E sobre o tema mais banal

É notícia imbecil
É gente idiota
Que cai sem fazer força
Na mais frágil lorota
Sobre subcelebridades
Aí já deu minha cota

E as pessoas querem briga
Seja lá pelo que for
Se não concorda é inimiga
Vou xingar e por terror
Vou humilhar, fazer intriga
Pois tenho que me impor

Enquanto a gente se mata
Sem precisar de ajuda
Alguém sentado dá risada
De nossa ingenuidade burra
De crer que somos racionais
Sequer somos criatura
Nós só queremos discutir
Sem a mínima estrutura

sexta-feira, julho 24, 2015

Dia do Escritor

E neste dia 25 de julho se comemora o Dia do Escritor
Seja ele da poesia, da prosa, do romance, do terror
A leitura de um livro não é só uma passagem
Por páginas e palavras frias
Tem sorrisos, paixões, emoções e agonia
Tem tanta coisa contida
Tem versos nos pássaros, nas flores ou no chão da avenida
O que nunca saberemos, de fato
É se a vida quem faz um livro ou se o livro escreve a vida

quarta-feira, julho 22, 2015

Contido

O movimento dos lábios é lento
A língua umedece as palavras
A fartura e o traço que os desenham
E por mais que os meus se contenham
Eles parecem me convidar
A calar os versos que venham

E sem palavras, só penso
Imagino, viajo
Sem sair do lugar
Inclusive meu olhar
Fixados naquele seco salivar
E por mais molhado que seja o desejo
O que vem antes é deserto

O que antecede o beijo
É boca seca e olhar trocado
É prazer represado
Som rouco, nada suave
Tal qual pedras batendo
Se chocando, rangendo
Somos nós, nos segurando, nos contendo

Mas o ditado popular
Fala da água a pressionar
Se a barreira romper
Mergulho sem temer
Nos riscos da correnteza
Pra confirmar minha certeza
E molhar-me por prazer