terça-feira, agosto 11, 2015

Auto-confronto

As pessoas se confrontam
Só por pensar diferente
Por vezes nem se questionam
Se vale a pena bater de frente
E o pior de tudo isso
É que nem sempre é coerente

Mas o campo de batalha
Um esconderijo virtual
Quase nunca é cara a cara
Mas se espalha num viral
É vazio de argumentos
E sobre o tema mais banal

É notícia imbecil
É gente idiota
Que cai sem fazer força
Na mais frágil lorota
Sobre subcelebridades
Aí já deu minha cota

E as pessoas querem briga
Seja lá pelo que for
Se não concorda é inimiga
Vou xingar e por terror
Vou humilhar, fazer intriga
Pois tenho que me impor

Enquanto a gente se mata
Sem precisar de ajuda
Alguém sentado dá risada
De nossa ingenuidade burra
De crer que somos racionais
Sequer somos criatura
Nós só queremos discutir
Sem a mínima estrutura

sexta-feira, julho 24, 2015

Dia do Escritor

E neste dia 25 de julho se comemora o Dia do Escritor
Seja ele da poesia, da prosa, do romance, do terror
A leitura de um livro não é só uma passagem
Por páginas e palavras frias
Tem sorrisos, paixões, emoções e agonia
Tem tanta coisa contida
Tem versos nos pássaros, nas flores ou no chão da avenida
O que nunca saberemos, de fato
É se a vida quem faz um livro ou se o livro escreve a vida

quarta-feira, julho 22, 2015

Contido

O movimento dos lábios é lento
A língua umedece as palavras
A fartura e o traço que os desenham
E por mais que os meus se contenham
Eles parecem me convidar
A calar os versos que venham

E sem palavras, só penso
Imagino, viajo
Sem sair do lugar
Inclusive meu olhar
Fixados naquele seco salivar
E por mais molhado que seja o desejo
O que vem antes é deserto

O que antecede o beijo
É boca seca e olhar trocado
É prazer represado
Som rouco, nada suave
Tal qual pedras batendo
Se chocando, rangendo
Somos nós, nos segurando, nos contendo

Mas o ditado popular
Fala da água a pressionar
Se a barreira romper
Mergulho sem temer
Nos riscos da correnteza
Pra confirmar minha certeza
E molhar-me por prazer

domingo, junho 28, 2015

Os poemas que perdi

Os poemas que perdi
Em rascunhos rabiscados
Em memórias eletrônicas, virtuais
Esses já são passado
Esses não voltam mais

A poesia é o instante
Inspiração que flutua
Por vezes, me arrebata
Outras levo a jangada
Coadjuvante ou quem atua

Faço os dois papéis
E foram tantos que perdi
Fora os que eu não imprimi
Mas até os que voaram
Por ocasiões, deletaram
Fazem parte de mim

Não os verei à frente
Mas à frente tem tanta poesia
Não as que escrevi um dia
Tem outras tão presentes
Que hei de vê-las
Olhando as calçadas
Não as estrelas

Não é que não haja poesia na lua.
Pode até haver vida por lá
Mas a minha inspiração é na rua
Por onde eu consigo andar
E foi pelo chão que perdi alguns versos
Não no território lunar
Sendo assim, meus poemas
Passados e futuros
Estão nos dilemas
Livres ou entre muros
Com os passos no chão duro
Que eu posso encontrar

sexta-feira, maio 08, 2015

Sorriso da manhã

Ônibus lotado.  Temperatura já quente pela lotação. Fora faz frio. Devido ao calor, ja tirei o casaco e o carrego desconfortável no braço, pelo aperto, pela bolsa que trago também e pela mão esquerda que abre o livro que leio (Jugo Suave - Ricardo Ap. Dias) Sigo ali no canto com a musculatura doendo pela inércia. Uma moça branca em minha frente tenta abrir a janela do meu lado. Percebo o esforço e com certa facilidade,  pego o puxador e de forma bruta escancaro a janela. Mostrei firmeza nesse simples gesto. A moça que não me chamaria atenção no dia a dia, virou-se a mim, sem nenhuma palavra e sorriu como se dissesse obrigado.  Que sorriso simpático.  Se ela sorriu só por eu ter aberto a janela,  imagina se conversássemos... a propósito, se nos falássemos mais,  talvez fôssemos uma sociedade mais feliz

(in)Consciência

Conversando esses dias com um jovem aspirante a filósofo, discutimos superficialmente o existencialismo. E em pressupostos, ele colocou o morador de rua como alguém que foi excluído da sociedade, espirrado mesmo. Propus refletirmos sobre a chance de aquela realidade ser opção.  Sempre haverá uma plena consciência em meio a um mundo paralelo. Para ir a este lugar, não são aviões nem carros que nos levam. E na luz da ideia e do sol, amanhecia. E a moradora de rua pergunta ao grupo: hoje e feriado? O outro responde: É. Dia do Trabalho. Ela: nem sabia. Essa foi minha ida pela manhã.  Na volta, a moça magra tal qual usuária passeava com um cão na coleira e reclamou do vizinho de calçada sobre qualquer agressão contra outro pobre cachorrinho que circulava sem coleira. Ela passou o dia do trabalho olhando o movimento, sem nem saber que dia era.

quarta-feira, abril 29, 2015

Trilhos nos braços

Ao mesmo tempo que me fascina o fluxo das manhãs, 
sinto-me como parte de uma boiada, 
sendo tocada pelos apitos dos trens 
e ruídos das escadas rolantes

Entre os pontos mais fascinantes 
está a diversidade de fluxos
Não apenas as plataformas, 
com ida e volta 
São infinitas variantes

Uns indo amar, talvez com pressa. 
Outros, voltando cansados de amar ou labutar
Há os que encontramos com ar de quem vai; 
outros de quem vem, seja no ônibus, metrô ou trem, 
(como esse, sentido Osasco, em que estou)

E eu ainda vou. Vou com o sol e volto sem ele
(que saudade do horário de verão)
Eu vou com um livro, olhos atentos e sempre aberto à poesia que 
"está no ar, ao alcance de qualquer um" (como escreveu Ricardo Dias). 


Nessa intersecção de destinos, cruzamos de tudo um pouco. 
Tinha até um cara,  de camisa,  calça social, com seus 50 e alguma coisa, 
e ele carregava, embalados em papel branco, dois braços de guitarra Dolphin (novinhos)

Como vejo poesia em quase tudo, fiquei pensando quanta história futura ele carregava ali
Quanto som, quanto bem aqueles dois singelos braços fariam a alguém, que faça o som ou o ouça.  
E quantas horas cada músico leva pra aprender a tocar guitarra. 

Que os dedos percorram mais linhas/ cordas que o trem que eu peguei outro dia, 
com uma placa que datava 1997.
Quanta história e quanta poesia ele já carregou... caberia em um solo de guitarra?