terça-feira, abril 26, 2016

Cela aberta, verso preso

Em meio ao confronto nacional
Encontro-me calado
Não por omissão
Mas, essa é a sensação

São tantos versos presos
Cela aberta e com janela
Não consegue dar fuga
Não renega a luta

Alheio ao momento treta
Segue tampada a caneta
Ouço dizer que vamos vencer
Vamos quem? Vencer seria o quê?

Podemos até ir pra frente
Chegamos à bifurcação
Fomos pela via coerente
Ou pela via da emoção?

Ambas têm sentido
Ambas visam o norte
Diz-se do outro ser perdido
Diz de si ser o mais forte

Não há absolutas razões
Também os versos não os são
Absolutas são as reações
Não percebem onde estão

No meio do vendaval, entra no espiral
Voa descontrolado, encarcerado
Está sujeito ao vento, sem discernimento
Do que é (ou não) gente, do que venha a bater de frente.

quarta-feira, abril 13, 2016

Dia do Beijo

Ao saber do dia do beijo
Fui ao acervo buscar poemas
Entre tantos temas,
Apenas dois achei

Ambos sobre desejo e frustrado
De um beijo não conquistado
Por que nunca me atentei
Para poetizar esse momento?

Não por falta de beijos, pensei
Talvez por esquecimento? Não sei...
Por beijos aprisionados?
Ou por arrependimento?

E beijo é poesia pura,
No mais doce amor
Ou intensa loucura

É uma troca, sem favor
Intersecção de gostos

O beijo é arte com sabor

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Sem Fantasia

Desse quase um quilômetro
Pouco mais da metade
Onde existe vida e vive
Onde o mundo convive
Numa identidade

De um fatal encontro
De humanidade
Uma hora tão livre
Sem que ninguém pedisse
Se fez comunidade

Cabelos raspados, unhas compridas
Corpos pelados, roupas floridas
Sambas cantados, unhas roídas

São cantos sentidos, com muito a dizer
O simples motivo pro povo se ver
Um abraço de amigo é mais que vencer

E o 10 na vitória aponta seu mérito
O trabalho então ganha crédito
Traz o adversário pra perto
Unidos, mais um 10 é certo

Tem sapatos, paetês e regatas
Tem bolsa, penteado e gravata
Tem gente como é sem bravata
Tem muito passo, muito samba
Só a fantasia é de pirata

terça-feira, janeiro 26, 2016

Paulista: avenida cruzamento da vida

Tem gente na rua, sim senhor
Tem música também, sim senhor
Tinha tanta atração
Interpretada e humana
E tudo sem confusão
Tinha show, muita dança
Tinha rock, tinha samba
Um trio a la Gonzagão
Reggae, blues e axé
Tinha casal sem homem
Tinha casal sem mulher
Tinha bicicleta, skate, patinete
Tinha uns motorizados criativos
Uns dançavam na chuva
Outros sem buscar motivos
Por lá, se vendia muita coisa
Guarda-chuva, arte e livros
Tinha sotaques e idiomas
Vizinhos e distantes
Se cruzavam paredes brancas
Outras repletas de diplomas
Nenhuma se fez mais pujante
A mão de volta e de ida
São grandes o bastante
Para a intersecção da vida
Em pedra crua ou diamante
Dessa São Paulo aniversariante
Dessa Paulista tão pulsante
Que há pouco tempo, não muito antes
Oscilava só no vermelho
Ou amarelo piscante
Pro ciclista, pro caminhante
Hoje, pode olhar confiante
Imaginar adiante
Relatar relutante
Como nossos avós no Tietê
- Neto, sabe a Paulista? Eu passeava no meio da rua
Aquele papo saudosista
Ele vai perguntar: e os carros na pista?
A pista, meu neto, tinha dia pra diversão
Ele verá fotos com desconfiança
Vai falar que eu tô de zoação
Mas o que eu vi hoje
Não dá pra enumerar, descrever, detalhar
Eram galáxias numa avenida
Intensa, cinza, pesada
Sem gasolina queimada
Terra da garoa, chuva pesada
Tinha suor de pedalada
E a pé, vida corrida.

sexta-feira, setembro 04, 2015

Jóia Rara

De repente, um surdo
Tuumm, tum, tuumm, tum
Nessa hora não há peito algum
Em lugar nenhum
Que não o sinta bater
Que não o faça tremer
Nessa hora, um descompasso
Sem sair do tempo
Cada um da seu passo
No apito ou contratempo
Eis que nesse momento, o coração se desdobra, se triplica
Quando ao fundo da quadra
Um garoto repica
A caixa, o repilique
O tamborim segue o pique
Tão pequeno e imponente
Mostra-se tão presente
É cara de pau, sai na frente
Faz seu xaveco, sua bossa mais quente
E quentes ficam o sangue, as cordas e palhetas
Em notas velozes de infinitas facetas
Todo esse cenário no palco começou na calçada
Nota por nota, letra por letra
Seguindo a diretriz, o enredo que diz
Se é pra falar de dança, dancemos
Faça com que nos lembremos
Que a melodia preencha a quadra
E cante numa voz
Que a preciosidade sejamos nós
Em cores e luz, vermelhas, azuis
Enquanto o estandarte gira, conduz
Por uma hora e cinco mais apuração
A cada 10, a vibração
uma única sensação
Única, rara e especial
Como a jóia que nos representa
Preta, como nossa essência
Coloridas pela festa
E antes que ela se acabe
E aí, a quarta cinza que resta
Nosso respeitado manto
Vai lutar tanto
Vai gingar, dançar
E levar esse canto
Mais do que aos corações
Às cordas e percussões
Para o grito tão preso
Da Vila Madalena, onde voce verá que vale a pena
Sermos Pérola Negra
enfim campeões

Bora fazê um rolê

"Aê tio, dá a bolsa!"
Não,  não era um assalto. Era um amigo falando pro outro.
Deixa que eu levo a mochila
O outro: "fica de boa,  ta tranquilo"
O primeiro replica: "bora pa praia dia 15 e 16?"
- agora de agosto?
- isso, no próximo mês. Duzentão por cabeça. Tudo certo,  tio. Casa alugada."
- Vou ver umas "parada" e te aviso, mas que praia que vai?
- Praia Grande
- Mas "Praia Grande é grande demais". Casa da hora, com piscina?
- bem loka, vê se cê vai
Aê tio, tem até wi fi
Na praia, em casa com piscina, provavelmente, umas mina, e os cara pensando na rede. E nem é a de varanda, daquelas trançadas pra balançar
O cara viaja, pega estrada, paga pedágio pra ver o mar. Para em frente dele e só pensa em navegar... na Internet.

terça-feira, agosto 11, 2015

Auto-confronto

As pessoas se confrontam
Só por pensar diferente
Por vezes nem se questionam
Se vale a pena bater de frente
E o pior de tudo isso
É que nem sempre é coerente

Mas o campo de batalha
Um esconderijo virtual
Quase nunca é cara a cara
Mas se espalha num viral
É vazio de argumentos
E sobre o tema mais banal

É notícia imbecil
É gente idiota
Que cai sem fazer força
Na mais frágil lorota
Sobre subcelebridades
Aí já deu minha cota

E as pessoas querem briga
Seja lá pelo que for
Se não concorda é inimiga
Vou xingar e por terror
Vou humilhar, fazer intriga
Pois tenho que me impor

Enquanto a gente se mata
Sem precisar de ajuda
Alguém sentado dá risada
De nossa ingenuidade burra
De crer que somos racionais
Sequer somos criatura
Nós só queremos discutir
Sem a mínima estrutura