quarta-feira, novembro 02, 2011

Quatro Tons







(Homenagem à época mais feliz da minha vida: Grupo 4 Tons - muita saudade)












Já de longe dá pra ver
A saudade o que nos faz
Faz do olhar um amanhecer
A saudade de tempos atrás

Nessa fase que passou
Que a alegria fez voltar
Por bobagem separou
Volta à tona pra não acabar

Nessa intersecção
Alma presente na distância
É tão gostosa essa emoção
Tal unidade me concordância
Ver o conjunto enfim inteiro
Com numerais mais racionais
Maturidade o tempo traz

E com tons em união
Se afina a harmonia
Retomada a relação
Se reconstrói a melodia
Longe vai o som
Quatro tons

Reticências

Ponto final
Começo assim
A descrever meu fim

Que temia tanto
E agora não há pranto
Que recue o tempo

As palavras que propaguei
Que defendi e me orgulhei
Caíram por terra
Assumo, falhei
Com orgulho ferido, errei

E a terra que caiu
Hoje sufoca e me cobre
Lembrando brincadeira de praia
De infância
Ser coberto por areia

Agora é terra
Onde o ar não permeia
E sem brincar, mata
às vezes, lentamente
às vezes, tão veloz
Que tão subitamente
Perde a voz

E nessa vida não tem após
Tem a continuidade
Igual prova de revezamento
Um para, o outro vai

Passa o bastão
E naquele exato momento
Pra esse acabou, fim da linha
Pro último, a de chegada
A glória da faixa final

Na vida, queria terminar a prova
Mas errei na condução
Saiu a punição
Eliminado
Para mim, acabou.
Agora, deixo reticências...

Sem opinião

Indignação
Sentimento que demanda consciência
O que restringe essa sensação
A quem tenha inteligência

Para discutir e debater
Questões diversas
Política, sociais
O que exclui ainda mais
Quem é capaz de entender

Palavras que vão além
E muito podem dizer
Sem sequer pronunciá-las
Ou saber usá-las bem

Amenizam o caos
Criam o terror
Mocinhos, vilões
No poder das expressões
Formam opiniões...

Não! Apenas reproduções
De quem tem na mão
E propaga ideias com reflexão
Proliferadas sem opinião
Sem individualidade
Já que não há a capacidade
De uma autoral posição

Resultado: aceitação
Dos modelos da televisão
(como exemplo pra questão)

Sem discutir esses padrões
Há quem se espelhe
Nas incoerentes definições
Nas imagens perfeitas
No que dizem ser bem

E independente da vontade
Isto é, de que quem as têm...
Respaldam a barbaridade
Cultuam o Zé Ninguém

Antes daquele papo de humildade, oportunidade
Volto ao termo capacidade
Este sim, com ou sem palavras
Sem a chance, o espaço do coitado
Diz muito sobre alguém.

Medo Presente do Tempo

Ouça o poema na voz de Diego Machado
Medo
São tantos
Tantas fobias
Tanto pavor que agonia
Mas o medo muda, varia

Hoje é conformado
E outro problema se cria
Aceitos os medos
Conformando-se com eles
Resta descobrir
Como se portar, como reagir

Surge então outro problema
O medo cede seu espaço
Para seu próprio combate
Reação vingativa e revolta
Enfrentar sentimento covarde

Que a vida, com tempo esgota
todas as possibilidades
Do problema maior que apavora
Numa cadeia de relações
Entre atos e omissões
Que o tempo deteriora

Com a cruel concordância
Inércia em constância
Com o que se pune
Nossa estima e capacidade
De ver sempre tão imune
A ilegal sagacidade

E por mais que se apure
Por mais que se acuse
A triste verdade
É faltar atitude
Inclusive pra reagir a isso

Mas, parece inevitável
O tempo me torna domável
Não muito amável
Quando me vejo de fora
Torna o absurdo aceitável
Viro um ser domesticável

segunda-feira, outubro 24, 2011

Riscos e gotas







(Homenagem a Dom Enzo Rinaldini)





Ouça o poema na voz de Paloma Potenza

Breves são as palavras de tristeza
Pois lágrimas borram estrofes inteiras
Uma gota; e se perde um verso
As palavras escorrem
Os sentimentos também

Sejam dos olhos, sejam dos dedos
Que percorrem linhas sob o risco
Ou melhor, sob os riscos
Da folha e da perda
De um registro de gratidão
Em breves palavras

Palavras poucas, vezes desnecessária
Graças honrosas de todo um lugar
De todo um povo
A tudo novo que ele pôde enxergar
Sonhar, crer, realizar

Um passo sempre à frente no olhar
Tornou santidade sua força de vontade
A fé
Que toda uma cidade
Tão distante de sua terra natal
Fosse abençoada como tal
Nessa distância, hoje ainda maior

Ficam os ensinamentos, a sabedoria
A imagem santificada
Intacta na integridade
De cada expressão de saudade

O Vale hoje molha o chão seco
Porém fértil de semeadores
Em suas mãos, as bênçãos da semente
Não a chuva sempre esperada
Nem um rio afluente
Toda essência sempre inspirada
Que em sua bravura e sutileza
Faz a área seca, uma represa

E nem precisava tanto
A tinta escorre com apenas uma lágrima
E nada mais.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Música ou estilo?

Música e moda sempre caminharam juntas. Não me refiro somente ao visual dos artistas, mas aos estilos (entenda também gêneros musicais) que estão em alta ou em baixa para esta temporada. Concordo com o argumento que música boa não tem idade, mas é impossível negar que cada época tem sua música da moda. "Olha que não sou muito afeito a estes estilos do momento, mas... Vamos falar sobre". Essa relação de música e moda não para por aí. Além da moda e da música tem o tal "estilo de vida". Nem todos os gêneros musicais os têm, mas os que são facilmente identificados, de certa forma, se orgulham da tal distinção no convívio social. Distinção, não discriminação. De longe, se identificam adeptos de um gênero musical em determinados casos. O headbanger, por exemplo, chamado popular e erroneamente de metaleiro. Só um exemplo, tá?

Como dissemos, nem todos os ritmos têm suas bandeiras no dia-a-dia, mas hoje, por mais superficial que parece, algumas vezes até insana no meu conceito, algumas adorações se tornam prejudiciais à vida desses fãs no que se refere ao mundo real que muitas vezes se perde numa idolatria sem fundamento. Idolatria, ídolo, estas são outras palavras da moda. Hoje, brotam ídolos a cada semana. Ok, concordo com o argumento que a música está sucateada e a adoração - a idolatria - cada vez mais mutante, no sentido literal mesmo, de estranha e de pouco firme, com variações num curto espaço de tempo. Feita uma breve discussão sobre esse lance de estilo de vida e música, voltemos à relação música/moda.

Muito "up" ou "in" também, além dos estilos extravagantes na vestimenta, é criticar os tops do momento. Um é bicha, a outra é fresca, e por aí vai. Confesso ser um dos "vigilantes" e contrariar quase tudo que está no sucesso. Musicalmente, considero bem chato, mas, isso é questão de gosto musical, pura preferência. Apesar de estar nesse rol "do contra", por não gostar das músicas "mais pedidas", entendo que essa vulnerabilidade em se ter ídolos, em gostar de alguém, em amar um artista esta semana e na outra, nem lembrar dele, envolve muito mais que a relação do sucesso na mídia e o gosto musical. Conhecimento e objetivo são duas palavras que entram agora nesse debate. Música sempre foi e ainda é uma ferramenta de protesto, de expor uma arte, uma cultura. Com a fragilidade dos novos ícones da música e seus produtos criativos lançados a cada semana, o objetivo de aprender, de discutir, de conhecer por meio da música se perde no novo processo. Para muitos, a música tem outro objetivo: a distração, pura e simplesmente diversão. Não entenda como tradicionalismo ou saudosismo, mas o objetivo da música hoje não é causar reflexão em muitos casos. E essa ideia sim, foi abraçada por uma legião de jovens que querem se esbaldar e curtir novos sons, novas misturas, independente de seu objetivo; se foi feita somente para ter um som para se dançar ou quer apresentar algo além disso.

Partindo do público que aderiu a essa nova onda, subo as escadas e vamos ao palco, às luzes, aos efeitos, ao som que sai das caixas e faz a galera vibrar. Sem querer ser vago no discurso, mas chegamos agora ao ponto crítico: o público não quer música para refletir porque o artista não faz ou o artista não as cria, pois seu público não as quer? (Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?)

Partindo para o terceiro andamento da canção (quando tem), este conceito de música para ensinar, para expandir conhecimento fazia com que o público se identificasse com o artista, mesmo não sendo identificado nas ruas por uma vestimenta inconfundível. Esta ligação se dava no campo intelectual, o que agrupava fãs muito além da cor (ou das cores) de uma faixa, camisa ou qualquer outro acessório. Junto a isso, os que extrapolavam e seguiam à risca as atitudes do artista, inclusive fora dos palcos. Afinal, era esta atitude, este posicionamento que criava esse elo entre o fã e o músico. Tanto antes como hoje, há os que não têm a capacidade de separar até onde esse limite se torna algo legal para sua vida normal, longe dos palcos e das plateias de milhares de adoradores.

Nesse limiar de música, moda, idolatria, incluímos o verbo espelhar-se. Muitas atitudes que espelharam nossa juventude mostraram que nem sempre a inteligência poética tão compreendida pelo público e disseminada em hinos eternos da nossa música, fizeram jovens melhores nessa imagem espelhada do seu ídolo. Hoje, a tal atitude não é tão visível e proliferada pelos fãs de tudo do momento, mas certamente, uma imagem mais aceitável, nos novos preconceitos e, por mais vazia que esteja essa imagem, no que diz respeito ao "tudo mais leve" que se busca hoje, estão nos parâmetros. As novas idolatrias, os novos ídolos criam estereótipos bem diferentes em relação ao que se via até pouco tempo. Caveiras e sinais manuais deram lugar aos coraçõezinhos de mão.

Pergunte a alguns pais e mães, o que eles preferem para seus filhos. Alguns antigos espelhos de atitude ou rapazinhos que falam de amor, de família, de felicidade, sem causar polêmica. Não só os pais, mas até outros setores da sociedade preferem essa opção. Por mais que junto a este perfil, venha uma alienação, muitos optam pelos sinaizinhos de amor e pelas cores e amores eternos que duram pouco mais de um verão. E você, confesse qual foi o seu... Menudos, Dominó, todos já tiveram sua fase 'beliebers'. "Mudaram as estações..." As franjas, a cor da calça, e os idiomas... Só isso!

terça-feira, outubro 04, 2011

Fontes

Parece ironia
Mas, em pleno dia do poeta
A inspiração aqui no Vale
cai do céu
A chuva tão esperada
Molha além do chão
Traz palavras e voz
à garganta que secava
Quase calava
Clamando por água
Não a sede física, saciada em copos
Ela também
Mas, não somente ela.
À fonte de inspiração,
que seca, pouco pode banhar de cultura
e regozijar os que dela se aproximam
E independente da temporada
Se de seca ou de temporais
A fonte está lá
Mesmo sem água, edificadas ou naturais
Sabe-se onde está
Onde fica, onde é, onde tem
E olhe ao seu redor
Há muitas fontes
Muitas inativas, muitas jorrando
Muitas se formando
Outras, pingando
E é dessa água, clara,
com sabor de água da fonte
que o poeta se deleita
Saboreia, aprecia, se delicia
E proporciona a oferta de um gole
O caminho sob as gotas
Além de um rio, de uma imensa foz
De uma cascata como paisagem
A correnteza forte, atroz
Sem afogar na abordagem
O que parece natural
Para uns, mais que miragem
E noutra fonte, nada igual
Sem ser contida por barragem.