sábado, janeiro 10, 2015

Folha de agenda


Numa folha de agenda

Encontro barreiras

Não das horas e dias

Mas, das linhas frias

Finas e firmes

Que impõem limites

Por vezes bons

Pra fugir dos convites

A viagens em vão

Há quem contrarie

Com argumentos de liberdade

Mas a mais pura verdade

É que a inspiração

Te leva aonde queira

E por maior que seja a fronteira

Ela inexiste no abstrato

Neste mesmo que relato

Que as linhas se aproximam

Do metrô, de um caderno, da agenda

E antes que os versos comprimam

Faço apelo a que eles se exprimam

E que os limites jamais os oprimam

Se expressem, por vezes imprimam

No rodapé de cada folha

Reticências

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Acordamos


Lentamente, inconsciente, acordamos

Levantamos

Pra não atrasar

Paloma, Artur e eu

E nem bem sol nasceu

Ouvi: abraço no papai

E assim aconteceu

E assim a hora esvai

Não lentamente como acordamos

Parece que das seis às sete

Cada minuto compete
Pra ser mais veloz

E parece pular os segundos

E antes de partir pr’outros mundos

Despertos ou de sonhos

Por vezes profundos

Preciso acordar

Levantar

Pena que pra isso

Tive que largar aquele abraço

Dar outros passos

E ao fim do dia, recebê-lo de novo

Pra confortar-me o cansaço

E antes que a noite me desfaça

Te beijo te abraço

E é uma pena que a hora passa

É o único lamento que faço

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Resiste ao tempo

Será que o amor resiste ao tempo?
E também às circunstâncias
Em mim, é forte o sentimento
Resistente às distâncias

Em quilômetros e história
Pelo passado, pelas estradas
Não apenas na memória
Na certeza das vidas cruzadas

Não à toa, por coincidência
Nos encontramos e nos amamos
E que o mundo tenha influência
Pra acontecer o que esperamos

Mas não nos basta esperar
Precisamos manter nossa união
Sei que vamos superar
A presente condição

Você pode confiar
Vive aqui no coração
Não te esqueço um momento
Você e mais do que paixão
É meu amor, minha razão

Comentário sobre o ataque ao Charlie Hebdo

Absurda qualquer ação que fira o direito à liberdade de imprensa. Inescrupuloso o ataque à redação do Charlie Hebdo com a morte de importantíssimos cartunistas. Como jornalista, me senti na obrigação de comentar o ocorrido. Jamais vou defender e justificar qualquer violência, ainda mais contra "operários da minha classe". No entanto, no jornalismo, aprendi algo muito importante: ter responsabilidade. Muitas matérias, textos, conteúdos que produzimos poderia ser muito menos frio, caso o construíssemos (com base, em primeiro lugar) com criatividade, ironias, entre outros artifícios que cada mídia proporciona.

Porém, assim como temos o direito de nos expressarmos, temos o dever de mensurar as possíveis consequências. Não serei irresponsável, por exemplo de pegar uma câmera e me embrenhar nas mais quentes bocas do tráfico com a cara e com a coragem para mostrar o que acontece. Assim como nem a polícia o faz, mas deveria. Isso é omissão? Pode ser, mas, é responsabilidade. No caso do Brasil, não vivo em um país seguro que permita esta condição.

Responsabilidade é algo tão raro hoje. Algo que ficou para trás diante da necessidade de um grande furo de reportagem, de uma exclusiva, enfim... Como disse e reafirmo: absurdo e nojento o ataque à revista francesa, porém o fanatismo religioso não apresentou nesta ofensiva sua primeira forma de reação. Aliás, duvido muito que, no mundo, até hoje, algo tenha causado mais mortes que a fé. Contraditório isso, não acha? Adoro jornais bem humorados, criativos e com boas sacadas, porém, assim como no semanário francês, os jornalistas daqui também pensam (ou deveriam) nas prováveis retaliações a cada letra digitada, por mais engraçada que seja. A criatividade nunca deveria ser punida, mas é. A realidade é essa. Aí vai da responsabilidade de cada um se topa o embate ou não.

Mas, voltando ao Charlie Hebdo. Condenável o ato, que investiguem e punam os terroristas e que um dia tenhamos a liberdade não só de imprensa, mas, a liberdade de sairmos tranquilos, a liberdade de termos um mundo com capacidade de ser livre, ou seja, com educação, alimentos, moradia, lazer, cultura, saúde e, acima de tudo, responsabilidade.

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Voe, poesia

Que tal se inspirar?
Deixar o que puder sentir
Enfim te guiar

Que tal poder voar
Basta só se permitir
Vá pras nuvens flutuar

É lindo quando o vento sopra a favor
Só que esse movimento
sem o puro fundamento
Perde essência de compor

E não deve ser à toa
Que a rima assim floresça
Não importa aonde for

Se aprisioná-la lhe atordoa
Deixe então que ela aconteça
E voe igual pólen de flor

quarta-feira, novembro 19, 2014

Combinando...

Roxo, branco, preto e cinza. Jaqueta com tênis e calça com mochila. Na ideia de iniciar a leitura de um livro de poesias de Fernando Pessoa, abri-o, mesmo ainda em pé no ônibus.

Opa, surgiu um lugar pra sentar. Última fileira. Banco do meio. Ombros largos que tenho, dificilmente me acomodo bem neste lugar. E desta vez, não foi diferente. Segui a leitura, de corpo inclinado para frente. Ao distrair a atenção ao livro, percebi a moça que usava os trajes que citei na primeira linha deste texto.

Tinha um corpo de chamar atenção. Não de parar o trânsito, mas, de fazer inveja às mulheres e de muitos homens virarem o pescoço para seguí-la quando passa. A combinação das cores, percebi primeiro pelas estampas de preto, branco e cinza da calça e mochila. Formas geométricas formavam imagens dispersas, como que pixeladas. Será que ela reparou a combinação da calça com a mochila? Eu sim.

As unhas pintadas de branco complementavam. Parecia estar a caminho da academia, pelos trajes que usava. Segui minha leitura, intercalando a atenção com outros detalhes que fui percebendo. Cabelos longos, alaranjados, uma aliança de espessura média (talvez igual a minha), prateada, na mão direita. Dois brincos delicados e dourados em cada orelha.

O rosto? Vi de perfil. De ambos. Mas, de frente, não. Rosto cravejado de espinhas, parecia bonita. Nariz um pouco mais saliente (talvez deu essa impressão de perfil). E um sorriso... esse mesmo de lado, visto pela metade já bastou, era bonito, com certeza. Segui lendo... em frente a prefeitura, ela e a amiga que conversavam, desceram. A amiga, de jeans e blusa rosa, aparentava estar a caminho do trabalho. Ouví-la dizer RH (deve ser a ocupação da moça). As duas saíram e eu continuei em minha leitura. Ah, só mais um detalhe: a moça de rosa usava um elástico preto no cabelo e ostentava um rabo de cavalo de significativo balanço nos movimentos.

Por esses dias, reconheci (após uns 8 meses) a moça da mochila preta no ponto de ônibus. E reconheci pela mochila, confesso. Com minha curiosidade jornalística incessante, aproximei-me, sem pretensão alguma para perguntar se por acaso, ela esperava o Osasco Centro há muito tempo. "uns 10 minutos, respondeu". Repliquei grato a resposta e perguntei o nome, por pura curiosidade. Karen, foi a resposta que obtive. Sabe quando dizemos que fulano tem cara de tal nome? Pois é, até nisso ela combinou. Tinha 'cara' de Karen mesmo.

terça-feira, novembro 18, 2014

É que a menina quando faz 15 anos...

Essa frase do título foi o impulso para o texto que segue. Calçadão de Osasco. Rumo ao trabalho. Não lembro se pela manhã ou no retorno da hora do almoço. Enfim, isso é o que menos importa. Ao passar por uma lanchonete de salgados a R$1,50 e outros exemplos de comida barata e, relativamente, pelo preço, boa, deparei-me com uma mulher morena e uma criança. Dela, só saberia dizer que deve ter entre 30 e 40 anos e pouco menos de 1,70m. 

Percebi rapidamente quando passou (aram) por mim. E nesse 1 segundo que cruzamos, ouvi a frase: “é que a menina quando faz 15 anos...”; e eles se foram. Ah, esqueci de dizer que a rua da lanchonete é conhecida em Osasco como Rua das Noivas. O nome mesmo, não sei. Mas, é chamada de Rua das Noivas por ter trocentas lojas de locação e venda de trajes para casamento e festas de debutante. 

Voltando à frase da mãe (provavelmente era) ao filho, segui meu caminho e por mais esses dois dias de intervalo entre o ocorrido e o relato escrito, fiquei pensando como continuaria a conversa. Como a mãe explicaria ao menino o porquê ou detalhes de uma festa dessa? E mais: como ele entenderia? São tantas opções e versões... 

Trabalho há seis anos com festas como essa e fiquei formulando maneiras de explicar ao garoto. Em vão, para ambos. Eles já se foram e eu não encontrei nada didático para explicar isso a um rapazinho de seus 8 anos, mais ou menos.

(27/03/2014)