segunda-feira, maio 02, 2016

Nós contra Eles

Nós dizemos que eles propagaram
Eles dizem: Eles que começaram
Se referindo a nós
Só assim pra sermos referidos

O nós contra eles pra eles não havia
Porque o nós também não existia
Então, quando virou voz
O sono se perturbou com meus gritos

É fácil dizer que nós que começamos a briga
Afinal, só temos a missão de incomodar
O sono dos justos sente o frio na barriga
Antes do despertador te acordar

Somos revoltados, tumultuadores
Mas, claro, não podia ser diferente
Esse bando de contestadores
Ficam achando que são gente

E não diga que não pensa assim, que eu não sou otário
Pra cair na sua conversinha, de classes unidas
Não haverá consenso, o pensamento é contrário
Objetivos opostos, demandas inversas
Que não são expostos, estratégias perversas

Sempre foi o tal nós contra eles,
Mas éramos café-com-leite
Já que nunca reconheceu
Não precisa do seu aceite

Somos nós por nós mesmos, guerrilhando
Eles continuam sendo eles, amaciando
O combate não se rende, vai juntando
O ódio, deixa com eles, se alimentando

Deixa com a gente, o canto de sempre
Não da sala, nem da senzala
No sentido bom da palavra “corrente”
Que o tambor tem fala, nossa cor se espalha

Sem hipocrisia

Sem falsa hipocrisia
De bater no peito
Sou periferia,
Sou preto, sou gueto,

Condições, tive sim
Boa escola, casa boa
Clube, carro, ‘danonin’
Graças ao vô; saudades, coroa

Mas, minha essência destoou
Ao que poucos olham, dou valor
Sou do samba, sou do rap, poesia
Sou do verso combativo à revelia

Com samba, a alma transcende
Com rap, o corpo responde
Arrepia inconsciente
O verso expõe o que se esconde

E segue lá escondido num nicho
Pátria unida em dialeto
Quem nem entende, segue omisso
E julga mal o papo reto

É uma série de socos no ouvido
Do samba ao rap que protestam
Para mim, fazem tanto sentido
Nervos e pele se manifestam

Não vim, mas sou dessa parada
Aí sim, sem pagar de “sou favela”
Com poesia, dá uma entrosada
Fazendo samba, sou parte dela

Sou um dos resistentes
Consciente da batalha
Tamo aí, linha de frente
Coração contra o canalha

Amor, essência do valente
Contra o ódio tão presente
Sou poesia combatente
Ao sistema dominante
Sou o samba mais dolente
O partido-alto protestante
Sou Martinho e suas vertentes
Ele é raiz predominante
Sou Racionais, que se apresente
Quem tá ‘co’ nóis, que se levante
Quem é essência, tá com a gente
E quem não tá, não se lamente
Que ‘nois’ aqui, ‘vamo’ adiante

E pra continuar, preciso mudar o tom
Minhas cifras são pelo som
Notas que não compram nada
Nossa missão é outra, camarada

Não quero te imitar
Ir à mesma loja, mesmo bar
Quero exatamente seu oposto
Não tem nada ao meu gosto

Minha luta jamais será a sua
Seja quem for sol, seja quem for lua
Quero a disputa igual à alma: nua
Seres humanos iguais,

Morro, castelo, tribos e rua.

quinta-feira, abril 28, 2016

Frustração nada política

O que mata os debates políticos são as extremas imbecilidades de ambos. A mina defecando na foto do Bolsonaro, o povo atacando o Chico Buarque, o pessoal que acha que defender a democracia é travar rodovia, os que chamam os outros de petistas/comunistas ou ofendem porque não permitem que a pessoa seja contra a saída da Dilma, independente de partido. O discurso favorável à ditadura e representantes dela ou o perfil do militante de muitos desses grupos, que, em nada, ajudam a credibilidade de uma luta ou ideal. SÃO TANTOS EXEMPLOS.
O baita ator Zé de Abreu ser insultado por ter definido uma posição; e, ridiculamente bizarro nesse contexto, ele ter cuspido. O Cuspe antes do Jean era só um cuspe, uma falta de educação. Parece que virou um ato do lado vermelho da briga, ganhou simbologia. Se ele tivesse discutido e brigado de soco talvez não impusesse ao ator tamanha repugnância de muita gente. Talvez, entenderiam como uma reação às ofensas contra ele e família que qualquer pessoa insultada poderia ter.
Aqui na rede então, nem se fala. Ridículos os comportamentos. Qualquer analogia que se compare aos atos de grandes monstros da história são enojantes. Deprimentes as decepções que amigos nos causam com seus extremismos. Mas, amigos são amigos. Muitos nos completam e combinamos em determinadas situações. Tenho amigos roqueiros que não vão nos meus rolês de samba. Tenho amigos que curtem futebol e pros momentos "de bola", eles são os ideais, mesmo não vestindo o mesmo colete quando jogamos, nem as mesmas camisas quando torcemos. Não precisa desfazer amizade com ninguém por seguir/gostar de A ou B. Você pode simplesmente ocultar algumas publicações dessas pessoas. Eu debato com vários, me surpreendo com alguns, me decepciono com outros, mas, se você quer realmente democracia, seja coerente: aceite-a. Dê sua opinião, divirja, discuta e brinde tudo isso com um aperto de mão ou um abraço no final. Isso é apoiar a democracia de verdade. Não é impor a sua.

terça-feira, abril 26, 2016

Cela aberta, verso preso

Em meio ao confronto nacional
Encontro-me calado
Não por omissão
Mas, essa é a sensação

São tantos versos presos
Cela aberta e com janela
Não consegue dar fuga
Não renega a luta

Alheio ao momento treta
Segue tampada a caneta
Ouço dizer que vamos vencer
Vamos quem? Vencer seria o quê?

Podemos até ir pra frente
Chegamos à bifurcação
Fomos pela via coerente
Ou pela via da emoção?

Ambas têm sentido
Ambas visam o norte
Diz-se do outro ser perdido
Diz de si ser o mais forte

Não há absolutas razões
Também os versos não os são
Absolutas são as reações
Não percebem onde estão

No meio do vendaval, entra no espiral
Voa descontrolado, encarcerado
Está sujeito ao vento, sem discernimento
Do que é (ou não) gente, do que venha a bater de frente.

quarta-feira, abril 13, 2016

Dia do Beijo

Ao saber do dia do beijo
Fui ao acervo buscar poemas
Entre tantos temas,
Apenas dois achei

Ambos sobre desejo e frustrado
De um beijo não conquistado
Por que nunca me atentei
Para poetizar esse momento?

Não por falta de beijos, pensei
Talvez por esquecimento? Não sei...
Por beijos aprisionados?
Ou por arrependimento?

E beijo é poesia pura,
No mais doce amor
Ou intensa loucura

É uma troca, sem favor
Intersecção de gostos

O beijo é arte com sabor

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Sem Fantasia

Desse quase um quilômetro
Pouco mais da metade
Onde existe vida e vive
Onde o mundo convive
Numa identidade

De um fatal encontro
De humanidade
Uma hora tão livre
Sem que ninguém pedisse
Se fez comunidade

Cabelos raspados, unhas compridas
Corpos pelados, roupas floridas
Sambas cantados, unhas roídas

São cantos sentidos, com muito a dizer
O simples motivo pro povo se ver
Um abraço de amigo é mais que vencer

E o 10 na vitória aponta seu mérito
O trabalho então ganha crédito
Traz o adversário pra perto
Unidos, mais um 10 é certo

Tem sapatos, paetês e regatas
Tem bolsa, penteado e gravata
Tem gente como é sem bravata
Tem muito passo, muito samba
Só a fantasia é de pirata

terça-feira, janeiro 26, 2016

Paulista: avenida cruzamento da vida

Tem gente na rua, sim senhor
Tem música também, sim senhor
Tinha tanta atração
Interpretada e humana
E tudo sem confusão
Tinha show, muita dança
Tinha rock, tinha samba
Um trio a la Gonzagão
Reggae, blues e axé
Tinha casal sem homem
Tinha casal sem mulher
Tinha bicicleta, skate, patinete
Tinha uns motorizados criativos
Uns dançavam na chuva
Outros sem buscar motivos
Por lá, se vendia muita coisa
Guarda-chuva, arte e livros
Tinha sotaques e idiomas
Vizinhos e distantes
Se cruzavam paredes brancas
Outras repletas de diplomas
Nenhuma se fez mais pujante
A mão de volta e de ida
São grandes o bastante
Para a intersecção da vida
Em pedra crua ou diamante
Dessa São Paulo aniversariante
Dessa Paulista tão pulsante
Que há pouco tempo, não muito antes
Oscilava só no vermelho
Ou amarelo piscante
Pro ciclista, pro caminhante
Hoje, pode olhar confiante
Imaginar adiante
Relatar relutante
Como nossos avós no Tietê
- Neto, sabe a Paulista? Eu passeava no meio da rua
Aquele papo saudosista
Ele vai perguntar: e os carros na pista?
A pista, meu neto, tinha dia pra diversão
Ele verá fotos com desconfiança
Vai falar que eu tô de zoação
Mas o que eu vi hoje
Não dá pra enumerar, descrever, detalhar
Eram galáxias numa avenida
Intensa, cinza, pesada
Sem gasolina queimada
Terra da garoa, chuva pesada
Tinha suor de pedalada
E a pé, vida corrida.