quinta-feira, outubro 06, 2022

As Verdades

O que seria a verdade?
O que se acredita?
Cada um teria a sua, podemos dizer, realidade?
Nem o que se publica
Nem a intimidade
São a verdade absoluta
Há verdades ocultas
E muitas

Talvez a verdade mesmo nem exista
Qual a sua? A que se avista? A do insta?
Ou do travesseiro? Elas falam mesma língua?
Há verdades tão distintas, tão distantes
Seu idioma de antes já virou estrangeiro

Há verdades atualizadas
Que não eram até então
O sistema te obriga a aceitá-las
O sistema te impõe nova versão
O sistema nunca te dá opção

Você já parou pra pensar...
quantas novas verdades você tem?
Por amor, pressão ou necessidade
Qual sua melhor versão já mostrou a alguém?
Qual nunca escondeu de ninguém?
Fala a verdade!

Não é falta de personalidade, nem vaidade
Ver o que nossa alma contém
Com os dados que o mundo retém
Do convívio em sociedade
O saldo é liberdade ou refém?

Sim, você mudou, eu também
Tenho ainda mais à pele a sensibilidade
Só quero propor que repense
Que se lembre de alguém de quem sinta saudade

Saudade não escolhe quem
Ela dói sem piedade
Nem precisa responder
Talvez já esteja até respondido
Sua vida, a minha, a de um desconhecido, 
será que o mesmo preço têm?
Diz aí: sua verdade de hoje
De verdade, te faz bem?

quarta-feira, outubro 05, 2022

Poesia ao Moisés da Rocha

Não, não é só 'Questão de Opinião'
O samba é uma das mais autênticas formas de expressão
Da cultura da nossa nação
Quem não ama nem preza pela preservação
Contribui com quem nunca quis nossa libertação

Falo das amarras além das correntes
Que carregaram pedras e ninguém ouviu
O soluçar de dor da nossa gente
Hoje se escuta, nos fazemos presentes
Contra quem sempre nos omitiu

Não, nossa história é rocha de castelo
Tem alicerce, tem chão firme pra pisar
Nossa rocha, Moisés, é a voz que faz eco
Moisés, sem cajado, com mic ligado é o elo
Entre a história e quem há de chegar

O talento do músico brasileiro
E a música instrumental
A fonte de aprendizado e conhecimento
Deu passagem ao Fundo de Quintal
Nelson Gonçalves, o Sinatra nacional
E uma seleção pro amor tem seu momento

Olha aí, paixão
Rádios ligados geração pós-geração
Conscientemente apaixonados por sua missão
O samba ser preservado nossa identificação
O Samba Pede Passagem, mas arromba o portão

Moisés da Rocha, o samba de escuta
Do cambaraximbacam ao axé, minha gente, muito axé
Você lapida nossa arte mais bruta
Você é o próprio samba que dá passagem à luta
A resistência, por isso, o samba é o que é

quinta-feira, julho 14, 2022

O Último

Eu queria que cada um
A quem esse verso chegasse
Pelo menos, um instante pensasse
Que é a última vez que vai lê-lo (ou ouví-lo)
Sabe por que digo isso?
Porque eu queria ter um aviso
Um alarme ativo de última vez

Pra que ao despedirmo-nos num abraço
Soubéssemos que não haveria um próximo
Quando acabaram as aulas no colégio
Quando se despediu na formatura da faculdade
Quando mudou daquele prédio
Ou deixou uma cidade

Hoje, não importa o dia que está
Pode ser a última vez
Eu não podia imaginar
Que aquele seria o último dos pavês

Sim, o pavê de limão da minha mãe
É meu doce preferido na vida
E eu que nem fotografo comida
Registrei aquela tigela já na metade
Tamanha minha felicidade
Ter devorado além da medida
Ficou a foto, a última foto
No facebook, ano a ano revivida

Meu avô e minha mãe partiram num sábado
Em ambos eu os vi na quinta
Dei um beijo e o último abraço
O de despedida

Saí pela porta sem ter noção
Como eu queria
Que nossos encontros dia a dia
Trouxessem a notificação
Que o último seria

Já que tudo hoje nos notifica
Quem sabe a gente notaria
E desse mais atenção

Já que dizem que tudo está no destino
Nossos últimos encontros devem estar lá
Talvez ilustrado, tudo escrito
Certeza que está
É esse o último capítulo
Desse personagem atuar

A página avança
Próxima linha no sumário
A gente só não lê no rodapé
O asterisco necessário
Nem ao fim lá no glossário
A definição exata
Alerta de última data
Último almoço, última janta
Última trepada

Sempre haverá novos últimos
Aqui, ao seu redor, tem muitos
A gente só não vai saber o número da página

Antes de dar o ponto final
O último e consciente ponto final desse poema
Qual a última vez que você lembra
Que fez algo pela última vez
E nunca mais fará igual
Um último beijo, um último adeus
Um último encontro, o último tchau

Últimos...
Escrevi certa vez que o último "eu te amo"
Foi mais fácil que o primeiro de dizer
Quando não se diz mais
O último já foi dito
Nada mais a se fazer

Tem últimos que são livramentos, desapegos
Só que tem últimos disfarçados de primeiros
Disfarçam tão bem que viram últimos costumeiros
Repetimos que é o último e nunca é de verdade
Pois, tem últimos que deixam saudades

Últimos sabores como o toque de limão do pavê
Último toque de um incomparável prazer
Últimos giros do ponteiro
Não alertam da validade
Da última vez, da última chance
Da última página do romance
Da última onda que invade
Pra que o castelo de areia desmanche

A vírgula dá pausa à frase
Na vida, não há esse sinal
Só que respira e segue adiante
Meu poema eu defino, ponto final.

quarta-feira, julho 13, 2022

Mais Difícil Falar da Alegria

É mais difícil falar da alegria
Que da tristeza
Você já reparou?
Não é só coisa da minha cabeça

Uma amiga me contou
Que ouviu isso outro dia
Eu concordei
Argumentar o contrário, nem poderia

Afinal, minha própria poesia
Poucas vezes contemplou
O amor de um casal feliz
De lábios em beijos sutis
Ter um amor pra dar bom dia
Lembranças doces, pueris,
Ou o orgasmo que sacia

Tristezas são lindas em versos
Chorosos, minguantes, contidos
A felicidade, repleta de superlativos
Adjetivos e excessos

Tristeza, o poeta decifra
De tão habitual, verbaliza
A linha do verso, sucinta
Uma palavra e a pausa, respira

Já a felicidade
Com seu quê de rara
Embaralha a frase

Às vezes, nem sai
O poeta começa e para
O verso não vem 
A caneta não vai

quarta-feira, maio 04, 2022

O Olhar Mais Distante da Turma

Ela tinha um olhar tão distante
Diria até indiferente
Eu falava em sua frente
Ela via outro horizonte

Seu olhar flutuante
Não estava presente
Sem rima suficiente
Pra trazê-la um instante

Era itinerante
Uma leitura nada fluente
Talvez nem o melhor palestrante
Na fala mais convincente
Seria o bastante

Bastante longe aquele olhar
Não sei se carente
De um vazio flagrante
Um silêncio gritante
Tão quanto valente

Era um olhar gigante
Escuros, pretos possivelmente
Eram arregalados constante
Esperavam algo relevante
Poesia é perfumaria
Nunca vista como urgente

Pra sua manga longa, estava quente
De mangas curtas, o restante
Ela não sentia o ambiente
Nem calor, nem verso
Nem uma batida dançante
Àquele olhar disperso 
Nenhuma prosa era atraente
Não achei nada que a encante
Não invadi seu universo
Minha poesia não deu acesso
Deu esse verso como ingresso frustrante


terça-feira, abril 26, 2022

O Poema Que Não Houve

Eu estava nesta terça
Numa tristeza que vou te contar, viu?
Notei minha distância da poesia
De fevereiro até agora em abril
A distância em tempo e espaço
Nenhuma linha redigiu

Nesse tempo sem escrever
Houve cenas pra contar
Houve críticas a fazer
Teve até o que se admirar
O que não se ousou dizer
Ninguém irá imaginar

Não houve versos, rimas
Nem prosas, linhas corridas
Não houve (nem se ouvem) notas musicais
Não houve histórias escritas
O que não houve, não há mais

Sim, haverá outras paisagens
Dores então, nem se fala
Só que serão outras
Aquele sol na janela da sala
Não tem mais aquele, naquela escala
Aquela árvore bonita no outono
Não descrevi a folha ao deixá-la

Não é que eu fugi
De contar ao papel o que vi
Mas quando não escrevo
Acumulo o que senti
As palavras então se embaralham
Me embaraçam, ao ponto que eu nem consegui
Lembrar tudo, escrever tudo
Tanto que eu fiquei pensando

Não ficou uma palavra transcrita
Será que eu só guardei tristeza
E apaguei a parte bonita?
Bom, pelo menos agora, escrevendo, registra
O dia triste ontem foi certeza
A melancolia pra um poeta
Dá muito mais na vista

(12.04.2022)

Destrava o Gatilho

Ontem, destraquei meus olhos
Pras lágrimas chegarem
No caminho se perderam
Até secarem

Hoje, elas não molham as linhas azuis da folha
Somente a tinta preta da caneta que corre
A tristeza tem seus dias de escolha
Um gatilho que em um disparo resolve

Eu me afasto, conscientemente
Porque a vontade mesmo envolve arma
Coragem e munição no pente
Uma é suficiente, mas a gente para
Sente que a dor alarma
O alarme da sanidade desarma
E a gente tá de cabeça quente

Esfria, respira, não aperta
Se apertou, já era
Fim da dor, a minha
Pro mundo, nada se conserta
Só em mim
A dor que eu tinha


(12.04.2022)