quinta-feira, novembro 21, 2019

Envenenados de Barueri

Envenenados de Barueri
Foi do lado, aqui
Tô em Osasco e quando vi
Indignado, me corroí

O caso ainda é investigado
Não há culpado definido, já julgado
O que me deixa revoltado
É que parece planejado
(Ainda não confirmado)

Mas, consegue entender o grau
4 mortos e mais 4 no hospital
Uma bebida com poder letal
A quem faz coberta de jornal

Nem dá pra chamar de crueldade
Precisaria nome pior, mais vil
Pra quem a cama é o chão da cidade
Não esperava em oferta sutil
Uma dose de mortalidade

Último gole que sentiu
Em tantos outros porres, se levantou quando caiu
A rua é fria, não sente saudade
O humano sem piedade, sem humanidade, conseguiu
Parabéns, vocês são a cara desse novo Brasil

terça-feira, novembro 12, 2019

Fotos a mais

Fotos banais
Em dias normais
Sorrisos leais
Às condições reais?

Ou será que por trás
Tem algo mais?
Tem dores, tem ais
Que nas redes sociais
A chuva de likes
Esconde nossos temporais

terça-feira, novembro 05, 2019

Ninguém liga pra poesia


Na real, na real mesmo, nem sei porque eu escrevo poesia. E olha que, na minha memória, eu já até escrevi uma sobre esse tema, mas, agora, é prosa. É pra trocar essa ideia com você que me lê, com você que me ouve.


Pra que escrever poesia? Na real, na real mesmo, ninguém liga. É exótico, é bonitinho, quando você viaja, até compra alguns exemplares da literatura de cordel, naqueles livretinhos. E acha caro pagar 2 ou 3 reais porque a qualidade do papel isso, o material pra fazer, aquilo, e por aí vai.


Na real mesmo, sabe quem liga pra poesia? Você que veio ao sarau, você que, propositalmente parou em algum texto meu ou de qualquer outro escritor por aí. Sabe quem mais gosta de poesia? Um músico ou outro...


Sim, tem músico que não gosta de poesia, e pior, nem entende que o que ele interpreta é poesia. Às vezes e não é raro, não tem a menor ideia do que está cantando. Hoje onde se vê poesia e versinhos rimados? Em comerciais, propagandas, mas, ninguém nem percebe. Sabe onde mais tem poesia? Em alguns programas e desenhos infantis que rimam e rimam e rimam sem parar. E se você é um ou uma que gosta, ganha a fita e pode até se perder no conteúdo só pra viajar na construção das rimas. Sou desses.


Eu sou da rima, da poesia e pra piorar o pacote de coisas que ninguém liga, sou ainda do samba. Ah, mas você vai me dizer: o samba é popular, muita gente gosta. Sim, o pessoal gosta da festa, do carnaval, dos pagodjé (obrigado Thiaguinho, não poderia nos oferecer termo mais sonoro e adequado pra distinguir samba, pagode e esse som descendente do que um dia foi nosso som original).


O samba é ou era pra ser poesia, história (o samba enredo, mesmo comercializado, ainda cumpre esse papel). A poesia do samba fica só pros termos: Jorge Aragão, o poeta do samba. Fulano de tal é “um dos poetas do samba”, como cantou Zeca Pagodinho, em 1992, no disco que leva exatamente esse nome.


O samba, em sua essência de poesia, sabe quem liga? Alguns poucos poetas, muitos especialistas na poesia talvez não conheçam o mundo do samba internamente. Então, é assim: o músico nem sempre gosta de poesia. O poeta nem gosta de samba e, às vezes, nem o próprio poeta gosta de poesia. Como assim?


Se possível, você ouve as músicas dos seus amigos? Você lê o que a galera do seu quarteirão, do seu bairro, da sua cidade escreve?


Por muita gente não gostar de verdade de poesia, o espaço fica reduzido ao formato microfone aberto, batalhas disso, batalhas daquilo, saraus e slams. O próprio slam é um contraponto: o formato de confronto, duelo de textos traz a seguinte reflexão: escrever para desabafar, pra contar o que sinto ou para lacrar no rolê? E falo isso sem demérito algum, ok? A galera que conheço de slams são ultra mega power escritores. Mas, o intuito pode se modificar. A palavra pode ser outra para arrancar um pow pow pow com suas rimas. E de forma racional, pensado exclusivamente pra isso.


Quando assisti ao filme-documentário ‘Slam: A Voz de Levante’, entendi a origem: o dono do bar que rolava o microfone aberto para poesias percebeu que havia uma debandada de público nessa hora e, como todo mundo gosta de uma treta, que tal confrontar poesias? Hoje, sucesso com o formato, slammers alçaram voos lindos e histórias inspiradoras. Poesia, por si só, ninguém liga. Se não houver confronto, duelo... Duelar versos, ideias, sentimentos... já não bastam os confrontos internos que nos fazem escrever poesias?


E a gente segue escrevendo, mesmo que ninguém ligue.

quinta-feira, outubro 31, 2019

Hoje Nem Sempre É Presente

Nem o encontro do rio com a praia tem graça
Não que a paisagem não tenha encanto
Tem lá sua beleza, seu quê de santo
Mas, parece que não há nada que eu faça
Eu me encontrar, eu enxergar
Nem a canção da menina que vem e que passa
Tem harmonia com a linha da onda que traça
E a natureza espaça onda por onda no mar

Nem o céu azul, azulzinho
Nem o pássaro ao sol, à beira
Nem o som da mais alta cachoeira
Faz eu não me sentir sozinho
Nem o silêncio, a mim, confortante,
Consegue me mostrar um caminho
E sem qualquer sentido, não defino
O que esperar do horizonte adiante?

Nem mar, nem praia, nem som, nem silêncio,
Nem rio, nem pássaros, nem nada aqui dentro
Nem flor, nem cheiros, nenhum sentimento

Nem eu estou onde estou realmente
Pode ser que eu esteja, um dia, pra frente
Sem você, como chamar meu hoje de presente?

sexta-feira, outubro 25, 2019

'Me' Deixa Chorar

Setembro, 11, 2019
Data que a história marcou
E não há o que volte
Os ataques, os prédios, as mortes
E o concreto se desmanchou

Mas, a coincidência da data
Foi mesmo um acaso
Com que componho esta ata
Minha poesia relata
A dor que toma espaço

Desabei também, mas no final do mês
Não de setembro, de junho, mês 6
Minha estrutura desabou
O horizonte desbarrancou
Fez cinzas da rigidez

E de lá pra cá
A tristeza imperou
A alegria do rosto, tirou
O rosto pro beijo, acabou
O resto de luz, apagou
O resto de fé, se rezou
O resto do resto, o que sou

Chorar é tão corriqueiro
Que o motivo, se me perguntar
Eu vou te pedir um tempo
Organizar as ideias primeiro
Pra então enumerar

Como olhar lá na frente
Se acha que o 'lá na frente' não haverá
Como ouvir "tenha força"
Se às vezes faltam até pra chorar

E, na boa, me deixa chorar
Me deixa desaguar,
Me deixa desabar
Esfarelar como cimento implodido
Pra dentro, caindo

Calculado
M i l i m e t r i c a m e n t e
O que eu ando sentindo?
Desespero, dor, desesperança
Sem cálculo estimado

De milímetros e centímetros,
coração não entende
De profundezas, talvez
E de céu
Num primeiro beijo ou no adeus,
Certamente.

quinta-feira, outubro 24, 2019

Visto na Primavera

Estamos na primavera
Recém iniciada
E a cena mais observada
É da alma que desespera
A lágrima que não dá trégua
Faz trilha pela calçada
Sonora, salgada

Deixa o sal e o chão molhado
O sol faz questão de apagar
Não há rastros ao voltar
Há primavera em todo lado
E o que eu mais tenho enxergado
Gente, flor não dá pra se imitar
Ela brota e desabrocha
E as pessoas, a chorar

Tenho visto, do motorista ao caminhante
Olhos de emoção derramada
Quase sempre, via de quebrada
Sem VIP de very importante
O que é de fato relevante
É desistir da caminhada
É ter a vida abreviada

A dor não é seletiva
Por isso é repetitivo
Um alguém caminhar perdido
Com a mente pensativa

Pense na palavra partida
Ela vai do início ao fim com sentido
A palavra, não o ‘estar vivo’
E a primavera dá seu colorido
No ponto de partida
Ou na partida com ponto
.
Definitivo

terça-feira, maio 14, 2019

Beth foi essa Voz


O samba perdeu sua voz de lamento
Compôs Paulo Cesar Pinheiro
Beth Carvalho foi essa voz
Das coisas da gente, cantava por nós
Cantava a vida do brasileiro
e apontava o algoz

Beth não se americanizou
Era Brasil inteiramente
Saco de Feijão, Corda no Pescoço, quando cantou
Ela ali denunciou
O que se vive diariamente

E ela, com sua humildade
Que tive a oportunidade
De conhecer e entrevistar
Dizia que o samba se perdeu no tempo
que pagode não era novidade
Ela havia empregado o termo
Pôs na capa pra mostrar,
a certa forma de usar

A mulher Beth Carvalho, sambista
Foi madrinha de nomes, grupos e da história
Se o samba vive ou viveu sua glória
Foi essa mulher nesse meio machista
Que abriu cada porta
Gravou disco só do samba paulista
Sem rixa, com seu sotaque carioca

Beth nos deixou Sem Defesa com sua partida
A madrinha que pelas Andanças empunhava um cavaquinho
E Nelson no peito
Levava Cartola e a Mangueira pra avenida
Isso, Beth, fique tranquila, não será desfeito
Seu legado foi perfeito
Obrigado por sua vida