Anunciou uma voz na estação
Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma
Enquanto, repetidamente a voz informa
Eu foquei exclusivamente no vão
Há uma queda boa dali pro chão
Ratos no trilho, a distância conforta
Não vai descer, não fica na porta
Outra sonora orientação
No trem, mercadorias sem nota que vão
Outras tantas não se sabem de onde vêm
"Não compre de ambulantes", ouço a recomendação
O rapa faz vista grossa se pinga aqueles cem
Allan da Rosa tem esse nome numa publicação:
VÃO, poesias que abrem feridas
Grafite e caligrafia na exata medida
Vão é vazio? Pra mim, não!
Há tantos vãos que nos levam a outra dimensão
O vão entre a corda e o braço do instrumento
Essa pressão faz expressão no movimento
Do rouco, do silêncio, do pulsar à vibração
Do sol que com uma mísera fresta, faz invasão
Vãos são as linhas que pulo, as vírgulas de um verso
O vão não é o nada, ele pode ser o inverso
Do vazio se cria um novo universo, às vezes, em vão.
O Metrô e a CPTM nunca vão
Entender o quanto é estressante
Viajar esmagado e ouvir que o problema é o ambulante
Nunca vão
Dar espaço à arte itinerante
Eles vão
Dar desculpa pra falha constante
Eles vão aumentar a passagem logo adiante
E adiante dos pés, o vão
Um passo, fecham-se as portas
Cheios vagões se vão
É doutor, mais um massacre pra conta
Agora, um linchamento virtual
As redes sociais caíram de pau
Robô capta mensagem pronta
E acha que o argumento confronta
Ah, essa gente de bem tão do mal
Direitos não devem entrar no presídio
Humanos, ao martelo, a sentença
Juridicamente fria, humanamente tensa
A vingança é triste como princípio
Lava-se honra e ódio com homicídio?
Na missa ou culto, a gente compensa
É, seu Dráuzio, boa visita, boa labuta
A cada história ouvida na cela
Produziu, humanizou, pôs na tela
Ninguém aprova crime e tal conduta
Paga a pena, a rua será ainda mais bruta
Sua casca mais austera
Esse confinamento não filmado
Sem audiência na TV ou debate na padaria
Tem sede de sangue e aval da maioria
Não deveria ter abraçado um culpado, viado, tarado
Ei, Jesus, nem volta, tá ligado?
Pessoal nem liga com quem 'cê' andava do lado
Imagina lembrar o que você fazia.
A buzina vem fazendo fade in no ouvido
Vem aumentando a cada metro percorrido
Corrido, muito corrido, no corredor espremido
Então já de longe, ouve-se o ruído
Dificilmente confundido
No trânsito, é som, barulho do mais poluído
É um apito muito reconhecido
Contínuo, desperta o distraído
Quando não, lamentamos o ocorrido
Também sobre duas rodas, rodo sem motor
E observo o jaco, mano, que calor
E o capacete então, não é escapamento
mas é tipo panela, pressão e vapor
Fumaça na cara, lembra tipo inalador
Regressivo é seu contador
- ACELERA A ENTREGA! - "Sim, senhor"
Acelero como manda o governador
A pressa é seu opressor
Ô tiozão, olha o retrovisor
Mão na placa pra não se expor
Evita a multa e segue a luta
Se atrasa, carrega na bag a culpa
Aumenta índice de mortes e número assusta
Uma epidemia, é todo dia, SAMU se escuta
E eu, ciclista, escutei no rádio, campanha bem filha da ...
Aaahhhh, bem astuta
Pedia prudência ao que não tem previdência
Que corre por quem não tem paciência
Na mais intensa disputa
A campanha falava na cara dura
Vocês da moto que tomem providência
Vai ter mortes se mantida a postura
Acelerou? Viaturai
Não acelerou? Toma dura
Acelera, São Paulo, pediu Dória na candidatura
Acelerar vai da gorjeta na fatura
À saudade que põe na alma a fratura
No dia seguinte, se entrega sem pressa
Se vela e a vela sem cronômetro, derrete
Assim como a lágrima a essa altura
Fico pensando como seria
Se do Carnaval pegasse a alegria
Se não fosse apenas fantasia
Nos 4 dias de folia
Máscaras na identidade
Gente usando o que tem vontade
No tumulto normal da cidade
A alegoria do enredo é a realidade
É cada fantasia... um disfarce divertido
Um homem grande, de amarelo, vestido
O cabelo era verde, bem forte, tingido
Uma tiara de coroa, um abacaxi, ultra mega servido
Fico pensando como seria o metrô
Trajes curtos, parecendo um maiô
Sendo a roupa adequada ao calor
Sem nenhum insaliente invasor
Se a alegria carnavalesca fosse permanente
Virasse lei federal daqui pra frente
A rede social morreria como indigente
Todo mundo sairia, é tanto ódio ali: notificação pendente, notificação pendente
Se fantasia não fosse só vestes de Carnaval
As pessoas brilhariam num dia normal
Um dia, herói; no outro, vilão. Bom, isso é igual.
Quer disfarce melhor que um traje social?
Os 4 dias de momo, de avenidas
Paulistas, cariocas, comunidades reunidas
Harmonia e evolução são o que se busca na vida
E o cinza da quarta, discrição garantida
A cidade dormitório
Hoje é cidade escritório
Consultório, casório... comunitário
Osasco já foi um portal pro paulistano
Que do letreiro pra cá, era tudo Osasco
Carapicuíba? Osasco
Itapevi? Osasco
Jandira? Osasco
Barueri? Osasco
Era tipo um complexo metropolitano
Era tudo Osasco, mano.
Osasco, mostrando bem seus limites
Tinha logo na entrada O-S-A-S-C-O
Era só cinza, depois pintou, depois tirou
É bem na frente do Continental
Não se sabe onde muda a pista
Ali na Vila Yara, eu confundo
Até onde é Corifeu e onde vira Autonomistas
Continental, adjetivo propício
ao nosso município
A Osasco que, em 2003, concursei e passei
Me atribuiu à Escola Maestro Domingos Blasco, Novo Osasco
Logo eu, sempre musical, me enturmei
Na Rádio Geração FM, comecei como locutor
E fazia samba na Dona Nice
De frente pro terminal
O Maestro pra mim, desafinou
Jornalismo no Unifieo começou
Da Sul pra norte, cruzei
Tobias Barreto, Avenida São José
Chegava tão cedo, que raramente eu ia
Na padaria, nem pr'um expresso café
Dali, pro Manoel Barbosa, extremo norte
Área que o poder público dá ZERO suporte
Mas, dentro do que pude,
eu tomei as atitudes
Pra quebrada ser mais forte
Oficina de rádio, jornal escolar
Lá onde a Bonança não é certeza de chegar
E depois da tempestade, o que vem é a Record, Band, SBT, Globo
Passa ao vivo no Datena
Alô, comandante Hamilton
Sobrevoa o Rochdale?
Sim, Datena, novamente esse desastre
Essa enchente que invade
Casas e o noticiário
E hoje, bem no aniversário
Quero falar também, tão bem do Calçadão
Nosso centrão do comércio popular
Tem o suco do Baiano e chip de celular
Tem um cara demonstrando umas raízes pra curar
Tem um cara com a bíblia que não para de gritar
Tem a base da Guarda e uns fiscais pra atrasar
Tem sul-americano, boliviano, colombiano, peruano, não dá pra chutar
Tem uma 'pá' de africano, se pá, nigeriano, sei lá
Nas maletas, o brilho dos relogião chega a ofuscar
A Tenente é a rua que treme o pé
Que eu já falei noutro poema
E nosso museu, hein? O chalé (Brícola)
Casa do Dimitri Sensaud de Lavaud
Foi lá que o homem voou
E conquistou o céu azul
Dos Remédios ao Bonança
Da Yara ao D'Abril
Não é minha cidade natal
Mas, é como Natal pra criança
Encanto que, em mim, construiu
Paulistano da gema
Osasco é muito meu poema
Osasco é muito do meu tema
Osasco é o mundo num funil
Não é só brasileiro
O ano mal começou, 19 de fevereiro
Nem começou, não passou o carnaval
Com só 58, és ainda um menino
No principado de Altino, o nosso vôlei nacional
Tem outra coisa importante
Não dá pra falar de tudo
Sem pausar pra refeição
Gastronomia aqui é relevante
Nem vou falar de restaurante
Praça Padroeira, Maria Campos e Antônio Agu, no Calçadão
Somos a terra do dog,
Do cachorro quente e com purê
E não se abre discussão
No prato, cê precisa ver
Não tem competição
Barracas mil, variados complementos
Osasco é o melhor dos temperos,
Com sabor tradicional
Osasco é o Oeste em movimento
Baita vizinho pra capital
Agora, nosso símbolo é o viaduto
A ponte metálica
Que ganha cores temáticas
Setembro, verde amarelo, independência
Outubro Rosa, Novembro azul, consciência
Dezembro, Natal, verde e vermelha a iluminação
Combinando com a decoração
A ponte se vê de longe
Harmonizada ao pavilhão
Como diz no hino
O brasão da vitória
Do sim sobre o não
Osasquense não no documento
Só no título pra eleição, minha opção
CEP 0656
OSASCO - SP
Na moral, de coração.
Em tempos de plataformas digitais
Só ouve música merda quem quer
Nem vou me concentrar
Em dizer o que é ruim e o que não é
Sua consciência, eu creio, é bem capaz
E foi ouvindo Gabriel, o Pensador
Que então me dei conta
Do papel que desempenhou
Quebra cabeça. 23 anos e ainda não se monta
Olha que nem foi peça que faltou
Falava de aborto, violência, saúde, quero mais
Fez uma festa com som de tudo quanto é jeito
Mostrou a guerra que há contra o cachimbo da paz
O índio quer apito, não quer bala no peito
E hoje, eu confesso, meu verso tem das suas digitais
As linhas tortas no caderno que carrego
É porque escrevo num bloco não pautado
Mas há um bloco de assuntos que me apego
E não me entrego se o som não sai rimado
É 35. A lavagem? Não, o poder da viagem
E essa não tem fiado nem se põe no prego
Tem o nome de um grande amigo
Sua obra, Pensador, formou uma legião
Aprendi a ouvir o que não era dito
Nas palavras repetidas em refrão
Fui aprendendo a dizer o não escrito
Pensador, minha reverência sem a continência
À indecência militar que tá na moda
É a tendência da milícia à presidência
Bala perdida por aqui tem boina e rota
O povo ainda diz: hoje eu tô feliz
Acabou a previdência
Estupidez em evidência
E a ditadura está de volta