quarta-feira, janeiro 01, 2020

Roupa Nova e Sapato Velho


Ano Novo
Despediu-se 2019
Não basta que o look se renove
Pra usar branco na virada
Roupa Nova estreada
Roupa Nova... lembrei de Sapato Velho
Sobre o que a maturidade nos traz
Sobre o que servia tempo atrás
A canção rememora
Aquilo que já foi lindo outrora
Pode aquecer ainda mais
Afinal, temos a tal afetiva memória
Que pode trazer enorme prazer
Nem dá pra dizer do que ela é capaz

Mas, nem tudo que é passado
Pode ser presente,
Tipo os de Natal, embrulhado
Tem presente que é um passado latente
Doente, retrógrado
Olhar pra frente? Não, pro lado, disfarçado
Ignorado, ignorando o tanto de absurdos que aconteceu
Ignorar também é uma posição que escolheu

E sim, você tá ligado
Que o ano ter virado de 19 pra vinte
Só vem te mostrar
Que no ano encerrado
Foi bem revelado com quem você está
E sim, esse com quem você tá junto
Tem um conjunto de escrotices pra carregar
Nem faz questão de ocultar
Aliás, ele tem sim alguns segredos
Visíveis até pra quem não quer enxergar
Os dele, você não quer ver
Nós, você não vê de fato

Você que gritou
A gente que paga o pato
Da gente que faz e lava o prato
Da gente que cozinhou
Na panela que é o retrato
Do som que silenciou
E nos obrigou
A segurar na mão e dizer: não desato
Ninguém solta, segura
Esse ano, sabe quando cê vai no banco e tira extrato?
Vamos listar a fatura
Teríamos tortura
Apoiado, exaltado

Ditadura, tema citado
Abordado, até cogitado
Por um deputado
Filho da puta? Não, do arrombado

Pra virar a década, falta 1
Depois desse, mais 2
Ele e os 3
Ao todo são 4, quatro Bolsonaros

E quem achava naquela musiquinha infantil
Que um elefante incomoda muita gente
Não imaginava Bolsonaro presidente
Dessa porra do Brasil

Sim, porra, sêmen, no sentido mais literal
Machismo, racismo, homofobia, feminicídio, violência armada e/ou sexual

Crianças mortas com bala perdida?
Não! A bala era a menos perdida
Foi inclusive anunciada
A corrupção de combatida
Foi familiarizada, Fa(milícia)rizada

Pra refrescar a lembrança
Um bom suco de laranja
Com bastante vitamina C
C de Caixa 2, C de Cadê o Queiroz?
C de Condomínio com criminosos
C de capitão cuzão
C de Calar o Cinema, a Cultura
C de Cultuar o Ustra
Cultuar o Ustra
C.U.
A propósito, você que de alguma forma, contribuiu
Vai, sem prazer, tomar no cu ou vá pra puta que pariu
Só faz um favor: não diz que relevou o preconceito esse ano e acreditava num plano
Você escolheu um miliciano a um professor
Gás, gasolina, carne, tudo aumentou
E a tudo passou pano

Bom, começou o Ano Novo
Sabe o que restou? Pega aquela mesma panela
Bota só ovo. E aí fritou ou cozinhou?

Fogo baixo, deixa baixo o nível da educação
Com o Sinistro Weintraub, é garantido
Governo laico-cristão
Onde Jesus e armas juntos, faz sentido
Estamos no mesmo sentido, tudo plano
Jesus, se volta a ser humano, tava fudido
Ai, se não voltasse brancão, machão,
Aquele cabelão
Sem essa de pão dividido
Queremos livre mercado,
Se ele volta com esse papo
De tudo compartilhado, dividido por igual
Só esse negócio de cruz que é ultrapassado
Foi 2019; em 18, deu 17
Mas, agora é 38, o calibre, mortal
Com a pena sendo ou não legal
É sem pena, mira na cabecinha e tchau.

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Coquetel de Natal

Abre a porta, escancara
Do armário, dos fundos
E põe a cara no mundo
Encara, vai fundo
Embala no assunto
Que só nele se fala
E vamos pensar junto

Jesus Cristo, o personagem
Idolatrado, inatacável
Gay? Parece improvável
Na filmagem, viável
Uma revolta selvagem
Um ódio inflamável
Terrorismo em mensagem

Não se captou a profundidade
De tamanha covardia
Ato em conformidade
Pra punir a heresia
Era Noite de Natal quando a bomba explodia
Era um coquetel nada elegante
Pra quem se diz representante
De José e de Maria
E do personagem mais importante
Que logo logo nasceria

O país a se revoltar
Por humor, irreverência
Pela fé, satirizar
Não posso exigir coerência
Se revoltar por ver ofensa
À imagem do senhor
Só que aplaudem torturador
Botaram um na presidência
Com apoio do pastor

Jesus já foi diversas vezes retratado
Quando sai do estilão dos europeus
Galegão dos olhos azuis,
Não faltam críticas a quem retratou Jesus
Por vezes, negro interpretado
Também foi alvejado
Assim como aquele da cruz
Tanto tempo já passado
Que se ele é de fato a luz
Contra a luz, fica ofuscado

Qualquer perfil diferenciado
Deveria ser aceito
Isso sim seria respeito
Se ele nos fez a imagem dos seus
Não importa a imagem de Deus
Como homossexual, negro, mulher
O mesmo Cristo torturado
Continua apedrejado
Se cada um vê como quer

quinta-feira, dezembro 12, 2019

Paraisópolis = 17 - 9




Paraisópolis, quanta ironia
Cidade Paraíso
Que nome mais impreciso
Pro cenário da agonia

Lá, como em qualquer outro lugar
Se mata, se morre, se sobrevive
Nem precisa dos 'Steve', de detetive
Lá se julga, lá se apaga, dão o nome de limpar

Sim, eles que ficam do muro pra dentro
Não conseguem conceber
Que ali, Morumbi, ao redor possa ter
Nem digo gente, seres sem rendimento

Pulando da mansão pra favela
É tudo numeral
O baile da 17
Morreram 9
Do lado policial, prenderam 6
A idade dos mortos: 14 a 23
38 PMs na ação
5 mil na confusão
Saldo: medo, alguns corpos feridos
Encurralados, pisoteados, resumidos
A sangue, sem vida, no chão

Na Paraisópolis, o paraíso passou longe
Pra quem não é do bonde
O pancadão é um inferno
Só que a droga lá vendida
Também é consumida e escondida
Em alinhados bolsos de terno

"Lá tinha o quê? Só droga e putaria
A polícia tinha que agir, como faria?"
De verdade, verdade mesmo, eu só queria
Que houvesse a mesma valentia
O mesmo riso de ironia
Quando o baile é na periferia
E nos pico de patrão e diretoria

Que a cor não fosse fator
Que o breu pudesse se impor
Ao contrário, mesmo no escuro
No paraíso do senhor
Ele é alvo sem um muro
Afinal, o muro é pra deixar seguro
Quem tem o jardim com flor

Cerca elétrica, choque, armas, cassetete
"O que estava num baile funk, com 14, esse pivete?"
O Estado não mudará a forma de policiamento
"É isso aí" - aquela galera repete
É o que eu chamo de discurso de alinhamento
Talvez pro moleque, o único divertimento
O último... o baile da 17

Mais uma vez, mortes e 17 na mesma frase.

sexta-feira, novembro 22, 2019

Supremo Pensamento

Vai sair, não vai sair, vai sair, não vai sair
Saiu.
A lágrima de dor, presa nos olhos, caiu
O sorriso de contentamento se abriu

Há quem vai julgar se chorei ou sorri
Comemorei ou me enraiveci
Há quem vá condenar, menosprezar o que senti
Posso até ser rotulado por esse ou aquele ali

Mas, aquele ali
Meus passos, não viu
Não sabe por onde andei,
Nem o quanto chorei

E, mesmo assim, a mim dirigiu
Seu julgamento, que eu poderia chamar de vazio
Julgamentos... sempre agudos, dedo em riste
O que pra uns é tudo, pra outros, nem existe

O juiz, de toga e martelo, pode batê-lo, abatê-lo
Diante da justiça hilária
Em nome de Deus, em nome da pátria

Mas, não há Supremo que possa prender pensamento
Ele surge e aos poucos se espalha
Atinge um sentimento

Que nenhum aprisionamento
Tenha força que o valha para detê-lo
Muito menos contê-lo em seu nascimento

Em missão adversária, há um exército sangrento
E minha forma literária, por vezes, simplória, precária
Vai de encontro ao violento

Não com golpe preparado
Ou pr’um confronto armado
Mão livre, verso livre
Só a rima de argumento

quinta-feira, novembro 21, 2019

Envenenados de Barueri

Envenenados de Barueri
Foi do lado, aqui
Tô em Osasco e quando vi
Indignado, me corroí

O caso ainda é investigado
Não há culpado definido, já julgado
O que me deixa revoltado
É que parece planejado
(Ainda não confirmado)

Mas, consegue entender o grau
4 mortos e mais 4 no hospital
Uma bebida com poder letal
A quem faz coberta de jornal

Nem dá pra chamar de crueldade
Precisaria nome pior, mais vil
Pra quem a cama é o chão da cidade
Não esperava em oferta sutil
Uma dose de mortalidade

Último gole que sentiu
Em tantos outros porres, se levantou quando caiu
A rua é fria, não sente saudade
O humano sem piedade, sem humanidade, conseguiu
Parabéns, vocês são a cara desse novo Brasil

terça-feira, novembro 12, 2019

Fotos a mais

Fotos banais
Em dias normais
Sorrisos leais
Às condições reais?

Ou será que por trás
Tem algo mais?
Tem dores, tem ais
Que nas redes sociais
A chuva de likes
Esconde nossos temporais

terça-feira, novembro 05, 2019

Ninguém liga pra poesia


Na real, na real mesmo, nem sei porque eu escrevo poesia. E olha que, na minha memória, eu já até escrevi uma sobre esse tema, mas, agora, é prosa. É pra trocar essa ideia com você que me lê, com você que me ouve.


Pra que escrever poesia? Na real, na real mesmo, ninguém liga. É exótico, é bonitinho, quando você viaja, até compra alguns exemplares da literatura de cordel, naqueles livretinhos. E acha caro pagar 2 ou 3 reais porque a qualidade do papel isso, o material pra fazer, aquilo, e por aí vai.


Na real mesmo, sabe quem liga pra poesia? Você que veio ao sarau, você que, propositalmente parou em algum texto meu ou de qualquer outro escritor por aí. Sabe quem mais gosta de poesia? Um músico ou outro...


Sim, tem músico que não gosta de poesia, e pior, nem entende que o que ele interpreta é poesia. Às vezes e não é raro, não tem a menor ideia do que está cantando. Hoje onde se vê poesia e versinhos rimados? Em comerciais, propagandas, mas, ninguém nem percebe. Sabe onde mais tem poesia? Em alguns programas e desenhos infantis que rimam e rimam e rimam sem parar. E se você é um ou uma que gosta, ganha a fita e pode até se perder no conteúdo só pra viajar na construção das rimas. Sou desses.


Eu sou da rima, da poesia e pra piorar o pacote de coisas que ninguém liga, sou ainda do samba. Ah, mas você vai me dizer: o samba é popular, muita gente gosta. Sim, o pessoal gosta da festa, do carnaval, dos pagodjé (obrigado Thiaguinho, não poderia nos oferecer termo mais sonoro e adequado pra distinguir samba, pagode e esse som descendente do que um dia foi nosso som original).


O samba é ou era pra ser poesia, história (o samba enredo, mesmo comercializado, ainda cumpre esse papel). A poesia do samba fica só pros termos: Jorge Aragão, o poeta do samba. Fulano de tal é “um dos poetas do samba”, como cantou Zeca Pagodinho, em 1992, no disco que leva exatamente esse nome.


O samba, em sua essência de poesia, sabe quem liga? Alguns poucos poetas, muitos especialistas na poesia talvez não conheçam o mundo do samba internamente. Então, é assim: o músico nem sempre gosta de poesia. O poeta nem gosta de samba e, às vezes, nem o próprio poeta gosta de poesia. Como assim?


Se possível, você ouve as músicas dos seus amigos? Você lê o que a galera do seu quarteirão, do seu bairro, da sua cidade escreve?


Por muita gente não gostar de verdade de poesia, o espaço fica reduzido ao formato microfone aberto, batalhas disso, batalhas daquilo, saraus e slams. O próprio slam é um contraponto: o formato de confronto, duelo de textos traz a seguinte reflexão: escrever para desabafar, pra contar o que sinto ou para lacrar no rolê? E falo isso sem demérito algum, ok? A galera que conheço de slams são ultra mega power escritores. Mas, o intuito pode se modificar. A palavra pode ser outra para arrancar um pow pow pow com suas rimas. E de forma racional, pensado exclusivamente pra isso.


Quando assisti ao filme-documentário ‘Slam: A Voz de Levante’, entendi a origem: o dono do bar que rolava o microfone aberto para poesias percebeu que havia uma debandada de público nessa hora e, como todo mundo gosta de uma treta, que tal confrontar poesias? Hoje, sucesso com o formato, slammers alçaram voos lindos e histórias inspiradoras. Poesia, por si só, ninguém liga. Se não houver confronto, duelo... Duelar versos, ideias, sentimentos... já não bastam os confrontos internos que nos fazem escrever poesias?


E a gente segue escrevendo, mesmo que ninguém ligue.