terça-feira, janeiro 21, 2020
No leito
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sexta-feira, janeiro 03, 2020
Ele tá certo
“Ele tá certo”, disse a moça loura ao se referir ao
homem que dançava deveras empolgado. Ele, com seu terno acinzentado – ou qualquer
tonalidade próxima ou variante disso -, careca e de estatura maior que a minha
(meus míseros 1,70m), o que não lhe confere grande vantagem. Contudo, a música
no espaço de eventos requintado que estávamos, animava mais alguns e aquela
cena remetia aos bailes no estilo flashback que já vi na TV e retratados em
filmes.
Eu, como amante da música nacional, acabo sendo e
me reconhecendo falho nos sons estrangeiros. Logo, não saberei precisar a
canção que tocava para ambientá-lo, leitor, naquela cena que em uma fração de
segundo, prendeu-me a atenção. E olha que eu apenas passara pela mesa onde
estavam. Faça você a trilha sonora.
Por outras vezes transitando pela mansão, a
empolgação do homem com idade próxima aos 50 (pouco mais ou pouco menos – a segunda,
mais provável, inclusive) era a mesma. Não sei dizer se era a bebida, não sei
se comemorava alguma felicidade pessoal, e se fosse isso, o que seria, hein?!
Ou simplesmente, o coroa já deu shows por aí algumas décadas atrás e ainda não
perdeu o compasso.
A razão, nunca saberemos, mas estávamos numa festa,
numa linda festa, num espaço maravilhoso, comida ótima, provavelmente acompanhado
por amigos e, mesmo num ambiente de mesas, com todo mundo sentado, ele dançava.
Num outro momento ainda ironizou a brincadeira de outro cara com sua careca.
Este que escreve não tem a menor capacidade como
dançarino, logo não posso atribuir qualquer nota ou avaliação sobre seus
passos, ritmo e outros quesitos. De tudo que registrei nessa cena, foi a prase,
pura e simplesmente, que me inspirou. Lembram da loura da primeira frase? Ela e
seus 40 anos, talvez um pouco menos, definiu bem: “Ele tá certo”.
quinta-feira, janeiro 02, 2020
Doentes Emocionais
Você tem ido a hospitais?
Senhas, numerais, impessoais
É tanta gente
Mas, doente mesmo, doente,
Pode reparar, predominam os emocionais
Depressão, síndromes, crises variadas
Você e eu estamos nessa lista
O nome demora nas chamadas
Consultas rapidamente encerradas
Encaminha pro especialista
As dores no peito, são de amor
As ortopédicas, do labor
As do coração, de dissabor
As de cabeça, faça um favor
Doses sem moderação
De ouvir o coração
Às vezes, a razão não tem razão
O choro serve como expressão
Uma pergunta o acompanha
O que está sentindo?
Um corpo que muito apanha
Não busca atenção por manha
Pois, sabe que ninguém está ouvindo
Senhas, numerais, impessoais
É tanta gente
Mas, doente mesmo, doente,
Pode reparar, predominam os emocionais
Depressão, síndromes, crises variadas
Você e eu estamos nessa lista
O nome demora nas chamadas
Consultas rapidamente encerradas
Encaminha pro especialista
As dores no peito, são de amor
As ortopédicas, do labor
As do coração, de dissabor
As de cabeça, faça um favor
Doses sem moderação
De ouvir o coração
Às vezes, a razão não tem razão
O choro serve como expressão
Uma pergunta o acompanha
O que está sentindo?
Um corpo que muito apanha
Não busca atenção por manha
Pois, sabe que ninguém está ouvindo
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quarta-feira, janeiro 01, 2020
Roupa Nova e Sapato Velho
Ano Novo
Despediu-se 2019
Não basta que o look se
renove
Pra usar branco na virada
Roupa Nova estreada
Roupa Nova... lembrei de
Sapato Velho
Sobre o que a maturidade nos
traz
Sobre o que servia tempo
atrás
A canção rememora
Aquilo que já foi lindo
outrora
Pode aquecer ainda mais
Afinal, temos a tal afetiva
memória
Que pode trazer enorme prazer
Nem dá pra dizer do que ela é
capaz
Mas, nem tudo que é passado
Pode ser presente,
Tipo os de Natal, embrulhado
Tem presente que é um passado
latente
Doente, retrógrado
Olhar pra frente? Não, pro
lado, disfarçado
Ignorado, ignorando o tanto
de absurdos que aconteceu
Ignorar também é uma posição
que escolheu
E sim, você tá ligado
Que o ano ter virado de 19
pra vinte
Só vem te mostrar
Que no ano encerrado
Foi bem revelado com quem
você está
E sim, esse com quem você tá
junto
Tem um conjunto de escrotices
pra carregar
Nem faz questão de ocultar
Aliás, ele tem sim alguns
segredos
Visíveis até pra quem não
quer enxergar
Os dele, você não quer ver
Nós, você não vê de fato
Você que gritou
A gente que paga o pato
Da gente que faz e lava o
prato
Da gente que cozinhou
Na panela que é o retrato
Do som que silenciou
E nos obrigou
A segurar na mão e dizer: não
desato
Ninguém solta, segura
Esse ano, sabe quando cê vai
no banco e tira extrato?
Vamos listar a fatura
Teríamos tortura
Apoiado, exaltado
Ditadura, tema citado
Abordado, até cogitado
Por um deputado
Filho da puta? Não, do
arrombado
Pra virar a década, falta 1
Depois desse, mais 2
Ele e os 3
Ao todo são 4, quatro
Bolsonaros
E quem achava naquela
musiquinha infantil
Que um elefante incomoda
muita gente
Não imaginava Bolsonaro
presidente
Dessa porra do Brasil
Sim, porra, sêmen, no sentido
mais literal
Machismo, racismo, homofobia,
feminicídio, violência armada e/ou sexual
Crianças mortas com bala
perdida?
Não! A bala era a menos
perdida
Foi inclusive anunciada
A corrupção de combatida
Foi familiarizada, Fa(milícia)rizada
Pra refrescar a lembrança
Um bom suco de laranja
Com bastante vitamina C
C de Caixa 2, C de Cadê o
Queiroz?
C de Condomínio com
criminosos
C de capitão cuzão
C de Calar o Cinema, a
Cultura
C de Cultuar o Ustra
Cultuar o Ustra
C.U.
A propósito, você que de
alguma forma, contribuiu
Vai, sem prazer, tomar no cu
ou vá pra puta que pariu
Só faz um favor: não diz que
relevou o preconceito esse ano e acreditava num plano
Você escolheu um miliciano a
um professor
Gás, gasolina, carne, tudo
aumentou
E a tudo passou pano
Bom, começou o Ano Novo
Sabe o que restou? Pega
aquela mesma panela
Bota só ovo. E aí fritou ou
cozinhou?
Fogo baixo, deixa baixo o
nível da educação
Com o Sinistro Weintraub, é
garantido
Governo laico-cristão
Onde Jesus e armas juntos,
faz sentido
Estamos no mesmo sentido,
tudo plano
Jesus, se volta a ser humano,
tava fudido
Ai, se não voltasse brancão,
machão,
Aquele cabelão
Sem essa de pão dividido
Queremos livre mercado,
Se ele volta com esse papo
De tudo compartilhado,
dividido por igual
Só esse negócio de cruz que é
ultrapassado
Foi 2019; em 18, deu 17
Mas, agora é 38, o calibre,
mortal
Com a pena sendo ou não legal
É sem pena, mira na cabecinha
e tchau.
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segunda-feira, dezembro 30, 2019
Coquetel de Natal
Abre a porta, escancara
Do armário, dos fundos
E põe a cara no mundo
Encara, vai fundo
Embala no assunto
Que só nele se fala
E vamos pensar junto
Jesus Cristo, o personagem
Idolatrado, inatacável
Gay? Parece improvável
Na filmagem, viável
Uma revolta selvagem
Um ódio inflamável
Terrorismo em mensagem
Não se captou a profundidade
De tamanha covardia
Ato em conformidade
Pra punir a heresia
Era Noite de Natal quando a bomba explodia
Era um coquetel nada elegante
Pra quem se diz representante
De José e de Maria
E do personagem mais importante
Que logo logo nasceria
O país a se revoltar
Por humor, irreverência
Pela fé, satirizar
Não posso exigir coerência
Se revoltar por ver ofensa
À imagem do senhor
Só que aplaudem torturador
Botaram um na presidência
Com apoio do pastor
Jesus já foi diversas vezes retratado
Quando sai do estilão dos europeus
Galegão dos olhos azuis,
Não faltam críticas a quem retratou Jesus
Por vezes, negro interpretado
Também foi alvejado
Assim como aquele da cruz
Tanto tempo já passado
Que se ele é de fato a luz
Contra a luz, fica ofuscado
Isso sim seria respeito
Se ele nos fez a imagem dos seus
Não importa a imagem de Deus
Como homossexual, negro, mulher
O mesmo Cristo torturado
Continua apedrejado
Se cada um vê como quer
Do armário, dos fundos
E põe a cara no mundo
Encara, vai fundo
Embala no assunto
Que só nele se fala
E vamos pensar junto
Jesus Cristo, o personagem
Idolatrado, inatacável
Gay? Parece improvável
Na filmagem, viável
Uma revolta selvagem
Um ódio inflamável
Terrorismo em mensagem
Não se captou a profundidade
De tamanha covardia
Ato em conformidade
Pra punir a heresia
Era Noite de Natal quando a bomba explodia
Era um coquetel nada elegante
Pra quem se diz representante
De José e de Maria
E do personagem mais importante
Que logo logo nasceria
O país a se revoltar
Por humor, irreverência
Pela fé, satirizar
Não posso exigir coerência
Se revoltar por ver ofensa
À imagem do senhor
Só que aplaudem torturador
Botaram um na presidência
Com apoio do pastor
Jesus já foi diversas vezes retratado
Quando sai do estilão dos europeus
Galegão dos olhos azuis,
Não faltam críticas a quem retratou Jesus
Por vezes, negro interpretado
Também foi alvejado
Assim como aquele da cruz
Tanto tempo já passado
Que se ele é de fato a luz
Contra a luz, fica ofuscado
Qualquer perfil diferenciado
Deveria ser aceitoIsso sim seria respeito
Se ele nos fez a imagem dos seus
Não importa a imagem de Deus
Como homossexual, negro, mulher
O mesmo Cristo torturado
Continua apedrejado
Se cada um vê como quer
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quinta-feira, dezembro 12, 2019
Paraisópolis = 17 - 9

Paraisópolis, quanta ironia
Cidade Paraíso
Que nome mais impreciso
Pro cenário da agonia
Lá, como em qualquer outro lugar
Se mata, se morre, se sobrevive
Nem precisa dos 'Steve', de detetive
Lá se julga, lá se apaga, dão o nome de limpar
Sim, eles que ficam do muro pra dentro
Não conseguem conceber
Que ali, Morumbi, ao redor possa ter
Nem digo gente, seres sem rendimento
Pulando da mansão pra favela
É tudo numeral
O baile da 17
Morreram 9
Do lado policial, prenderam 6
A idade dos mortos: 14 a 23
38 PMs na ação
5 mil na confusão
Saldo: medo, alguns corpos feridos
Encurralados, pisoteados, resumidos
A sangue, sem vida, no chão
Na Paraisópolis, o paraíso passou longe
Pra quem não é do bonde
O pancadão é um inferno
Só que a droga lá vendida
Também é consumida e escondida
Em alinhados bolsos de terno
"Lá tinha o quê? Só droga e putaria
A polícia tinha que agir, como faria?"
De verdade, verdade mesmo, eu só queria
Que houvesse a mesma valentia
O mesmo riso de ironia
Quando o baile é na periferia
E nos pico de patrão e diretoria
Que a cor não fosse fator
Que o breu pudesse se impor
Ao contrário, mesmo no escuro
No paraíso do senhor
Ele é alvo sem um muro
Afinal, o muro é pra deixar seguro
Quem tem o jardim com flor
Cerca elétrica, choque, armas, cassetete
"O que estava num baile funk, com 14, esse pivete?"
O Estado não mudará a forma de policiamento
"É isso aí" - aquela galera repete
É o que eu chamo de discurso de alinhamento
Talvez pro moleque, o único divertimento
O último... o baile da 17
Mais uma vez, mortes e 17 na mesma frase.
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sexta-feira, novembro 22, 2019
Supremo Pensamento
Vai sair, não vai sair, vai sair, não
vai sair
Saiu.
A lágrima de dor, presa nos olhos, caiu
O sorriso de contentamento se abriu
Há quem vá condenar, menosprezar o que senti
Posso até ser rotulado por esse ou aquele ali
Não sabe por onde andei,
Nem o quanto chorei
Julgamentos... sempre agudos, dedo em riste
O que pra uns é tudo, pra outros, nem existe
O juiz, de toga e martelo, pode batê-lo, abatê-lo
Diante da justiça hilária
Em nome de Deus, em nome da pátria
Atinge um sentimento
Muito menos contê-lo em seu nascimento
Em missão adversária, há um exército sangrento
E minha forma literária, por vezes, simplória, precária
Vai de encontro ao violento
Mão livre, verso livre
Só a rima de argumento
Saiu.
A lágrima de dor, presa nos olhos, caiu
O sorriso de contentamento se abriu
Há quem vai julgar se chorei ou sorri
Comemorei ou me enraiveciHá quem vá condenar, menosprezar o que senti
Posso até ser rotulado por esse ou aquele ali
Mas, aquele ali
Meus passos, não viuNão sabe por onde andei,
Nem o quanto chorei
E, mesmo assim, a mim dirigiu
Seu julgamento, que eu poderia chamar de
vazioJulgamentos... sempre agudos, dedo em riste
O que pra uns é tudo, pra outros, nem existe
O juiz, de toga e martelo, pode batê-lo, abatê-lo
Diante da justiça hilária
Em nome de Deus, em nome da pátria
Mas, não há Supremo que possa prender
pensamento
Ele surge e aos poucos se espalhaAtinge um sentimento
Que nenhum aprisionamento
Tenha força que o valha para detê-loMuito menos contê-lo em seu nascimento
Em missão adversária, há um exército sangrento
E minha forma literária, por vezes, simplória, precária
Vai de encontro ao violento
Não com golpe preparado
Ou pr’um confronto armadoMão livre, verso livre
Só a rima de argumento
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