quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Poesia em Papel e Gavetas

Tenho deixado pra amanhã
Decorar o que escrevo
E o que eu escrevo
É sobre hoje

Um hoje que é hoje há tanto tempo
Eu escrevo sobre o Brasil
Sobre Osasco, sobre sentimento
Eu escrevo sobre o frio, o fuzil
E um Estado violento

O que eu escrevo está em papel
E memórias online, digitais
Sobre o que vi nos jornais
Sobre o que eu li no cordel

Slam, sarau, e a poesia segue no ar
Pronta pra ser encontrada bruta; e lapidada,
Às vezes, curta e enxuta, às vezes, encharcada
Salgada de lágrimas, que fazem borrão da caneta
Por vezes, azul; raramente, vermelha; por vezes, preta

O papel manchado e a mancha do passado
Que me fez sentar e escrever de veneta
Mas, escrever pra que, se não decoro pra dizer?
Pra publicar? Onde? Pra quê que alguém vai ler?

Quando ouvir este, que eu tenha decorado
Que eu tenha declamado
Pois, pra quê poesia?
Se rimar é por si, rebeldia
É transcrever gritaria

Na gaveta, trancado
É só mais um verso, disperso, calado.

terça-feira, fevereiro 26, 2019

Fala de Mim

Eu tenho tanto pra te falar
Eu tenho tanto pra te dizer
Só que às vezes, prefiro calar
E em outras, escrever

Eu preciso me comunicar
Eu preciso me expressar
Nem sempre foi assim
Teve vez que eu queria gritar
O que iriam pensar de mim?

Ah, se eu nem me preocupasse
Se eu nem ligasse
Que alguém me julgasse
Falem bem ou falem mal, falem de mim

Não, não mesmo!
Já pus muito na frente o silêncio
Pra não entrar no rol do ruim
É uma necessidade vital, saca?

Penso muito, tenho altas viagens
Minha opinião não emplaca
Eu calculo a dosagem
Da hora de estampa-la na placa
Da hora de guardá-la em bagagem

Hoje, sou MC
Nem de rap, nem de funk
Preparo e faço cerimônias por aí
De bodas, casório e debutante
Bem diferente de antes
Que, diante de outros estudantes
Recolhia-me insignificante
Gordo, baleia, elefante

Tá aí, coisa que nunca aceitei
Sentia, sofria, calei
Guardei no quarto solitário
Onde tanto me esquivei

Entrei, tranquei, horas e dias, passei
Desabafei, foi necessário
Muitas, muitas vezes, pensei
Eu e a vida, eu e a morte, belo páreo
Seja qual for sua dor, sua chaga
A ferida que traga
Você vai superar, eu sei

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

Novo Passo pra Trás

Dois mil e dezenove,
O ano então começou
Dia 1 do 1 chegou
A esperança que se renove
Nesse discurso que cansou

Parem, por favor, de fingir
Só a virada de calendário
A contagem de 3, 2, 1, no horário
Não diz que o mundo vai evoluir
Muito, muuuito pelo contrário

Nós buscamos no passado, o futuro
Pelo aprendizado, pela história?
Antes fosse, mas, pela opressão da escória
Que se impôs, deixando claro que o escuro
Tomou seu lugar no pódio da glória

E nem precisou ser goleador
Ou ouvir: “esses negros cantam demais”
Ele só mostrou que seu muro desfaz
Como um sopro na casa de Heitor
E nem somos lobos correndo atrás

Foi madeira pra tudo que é lado
Madeira, matéria-prima de construção
Os tocos que alicerçam no chão
Mesmo num morro dependurado
Foi nosso passo pra impulsão

E o passo que já foi dado
Não recua NEM FO-DEN-DO!
Pode ser até o Coiso dizendo
O futuro é inesperado?
Não acho, mas, o meu passo
Pelo menos, desse não me arrependo

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

Torcida e efeito

Chegamos ao governo Bolsonaro
O mito como foi designado
Tem muito pouco ou quase nada
A se orgulhar por ser “culpado”

Antes de eu ser apedrejado
Entenda o que escrevi
Ele pode ter vendido bem o perfil
O que eu realmente não entendi
É quando e onde foi qualificado
Pra governar (como diz a música) a porra do Brasil

E mais: estamos sob a gestão (ou indigestão) de Jair
Isso não significa que vou secar, agourar,
Nem tampouco, consentir
Que Ustra seja brilhante ou livro de cabeceira
Você consente ou leva na brincadeira?
Eu lembrarei se algo assim te atingir

Não desejo nada, nem o mal, nem o bem
Estou só de butuca, a olhar o que vem
Torcer? Não é futebol que a bola pega um vento
Caprichosamente, vai na trave
Rebate e vai fora, ou mata e vai dentro

Guardo a torcida pro futebol
Que o goleiro adversário sobe pra tirar a bola
Na cara bate o sol, meu nove se aproveita
E a torcida comemora
Ou num chute que desvia e pega efeito
O goleiro já saía, a bola entra e não tem jeito
Isso cabe torcida
Todo mundo lado a lado, gente unida, camisa igual
Sentimentos movidos por um ideal
Gritar ‘é campeão no final’

Não vou ficar de boa
Com quem acha de boa ser fã de torturador
Ser opressor por essência e com consciência
Nós, rivais, eles chamam de defensor de ladrão
Do cara que está na prisão
Não, você não entendeu sua condição

Quer arma e munição?
Sentirá no peito, a perfuração
Um pouco acima da facada do #EleNão

O Meme do Morgan


Chegou aquele dia
Que a galera pega o meme do Morgan e posta
Que é a favor da Consciência Humana
Consciência Negra é racismo reverso
Ô meu Deus, só uma coisa te peço
Dai-me sabedoria pra aguentar essa bosta
Na porra da bandeira, além de ordem, está escrito progresso

Até pokémon evolui e você nesse argumento
Ultrapassado é pouco, chegado
O racismo é enraizado
E não sai pelo esquecimento

Aliás, eu tenho uma sugestão
Se você acha que parando de falar de negritude
Vai acabar o racismo e mudar atitude
Comece por você, guarde seu meme lá
Imprime, enrola bem enroladinho

E se você já é bem resolvido
com a sua Consciência dos Seres Humanos
Saiba que criticar o 20 de novembro
Não passa de passar um pano
Ao preconceito violento
E a cor da paz ainda é o branco?


(texto feito em 20.11.2018) demorei pra publicar, mas, vale deixar aqui para leitura e views

terça-feira, novembro 27, 2018

Ao Entregar Uma Rosa



A sacada nem é minha, é do Criolo
‘Buquês são flores mortas, num lindo arranjo’
Aí eu me pego pensando
Ao entregar uma rosa
Eu sei que a atitude é generosa
É boa de coração
Mas, voa comigo na reflexão

Ao entregar uma rosa
Presenteamos em botão
Por vezes, nascente
Alguns decadentes
Na boa intenção

Ao entregar uma rosa
Embalamos.
Os espinhos? Retiramos
Depois que da terra arrancamos
Começa a contagem regressiva
O vaso com água amortiza
Mais um tempinho de sobrevida
Até secar a conexão
Com a natureza e seu habitat, o chão

Onde, por dias, cresceu
Até ser arrancada, toda lapidada
Pra ser entregue
Esperando retorno
O sorriso no rosto
De quem recebe

Ao entregar uma rosa
Será, de fato, que a intenção, por melhor que seja
Não vale que a gente reveja
Que, ao entregar uma rosa
Presenteamos-na morta
Toda emperiquitada, artificial
Artificializada, nem sei se essa palavra existe
Ao entregar uma rosa,
Começa a contagem do quanto ela resiste
E a gente insiste entregar uma rosa
Já sem coração, sem terra e pulsação, sem veias

Ao entregar uma rosa
Sejamos viscerais, integrais no ato
Entreguemos com vaso e tudo
Terra, semente e adubo,
Pra que ela floresça
Não padeça sem futuro

Ao entregar uma rosa
Deseje vida e continuidade
Não, o sorriso em troca para sua vaidade

Entregar uma rosa ou um buquê
Não faz o menor sentido
Se desejamos vida
Com tempo pra morrer
Em poucos dias definido

Ao entregar uma rosa
Não é essa a proposta
Seja rosa ou qualquer flor que ela gosta
Entregamos num gesto lindo, como o arranjo

Mas, será que ao entregar uma rosa
Entregamos em essência?
Essência do perfume e a nossa
Ou disfarçamos nossos espinhos e origem
Não são todos que se exibem
Nus, sem poupar imperfeições

Sua beleza e a de entregar uma rosa
Estão mais na terra e na história
Que no buquê de enfeitados botões

quinta-feira, novembro 08, 2018

E se desse Haddad

Gente, imagine se tivesse dado Haddad
Da nossa parte, seria felicidade
Se bem que... não sei se seria assim
Imagine quanta coisa ruim
Eles teriam capacidade
Adversidade seria o estopim

Bom, se a eleição eles tivessem perdido
Seria a urna, a fraude, o motivo
E se já mataram na comemoração
Imaginem na frustração,
na aceitação de ser vencido
Não estaríamos em vibração

Proteção seria a palavra de ordem
Pra que em nossos livros não recortem
Os tempos hoje exaltados, pretérito sombrio
No país tropical, por Deus abençoado, está frio
Esperando que as tropas aportem
Mesmo vitoriosos, a sensação seria um vazio

Pois se viu que muito civil se revelou
À paisana que nunca de fato aceitou
Queria ostentar a farda racista
Não fazia pra não dar na vista
Que o politicamente correto cercou
Agora o retrocesso virou conquista

Essa gente de bem brincalhona que só ela
Quer definir o limite do que flagela
Isso é mimimi, não é pra levar na maldade
Estarão com dedo em riste pra impor a verdade
Ai de quem não se curvar nessa era
Ou sequer questionar autoridade

Eles desfilarão orgulhosos batendo no peito
Fala sério! Isso não é preconceito
Ou não temos direito à liberdade
Livres, pra declará-las à vontade
Mesmo que seja ódio
Imagine se desse Haddad