quinta-feira, janeiro 28, 2021
Até Onde Eu Sabia
quarta-feira, janeiro 27, 2021
Como Chegamos a Esse Ponto?
terça-feira, janeiro 26, 2021
Amor a Lápis
segunda-feira, janeiro 25, 2021
Brancos Aventais
domingo, janeiro 10, 2021
O Palhaço no Espelho
Que não manifesta
O desgosto
Que insiste
Dizem que ele empresta
A musculatura do rosto
O sorriso se basta
O ingresso é o custo
E assim que a plateia vira as costas
A farsa imposta
Se desgasta
A real expressão da pessoa contrasta
Parece que é assim pra qualquer artista
Seja o palhaço, um poeta, uma equilibrista
A diferença é uma linha, um risco
A maquiagem, um verso, um rabisco
Entre a felicidade e o oposto
Quando o travesseiro encosta
No espelho o que está exposto
Ao dono do olhar se dá a resposta.
quinta-feira, janeiro 07, 2021
Garotos Entregues
Era tarde da noite, quase uma da manhã, dois jovens, visivelmente esgotados, empurravam suas respectivas bicicletas pela Avenida Prefeito Hirant Sanazar, em Osasco. Por que estariam empurrando em vez de se utilizarem do próprio veículo para se locomoverem?
Como já disse, pareciam estafados fisicamente. Cada um tinha nas costas a bolsa que indicava trabalharem para aplicativos de entrega de comida. Uma era vermelha, facilmente reconhecida. A outra, mais escura, não consegui reconhecer. Talvez nem fosse desses apps. Poderia ser específica de algum restaurante.
Não é nessa visão que pretendo me concentrar. Meu foco foi o cansaço visível pelo modo desajeitado do passo, como em situações que precisamos ultrapassar nosso limite de exercício esperado. Pensei em como era contraditório dois jovens, duas bicicletas e eles empurrando-as, em vez de montarem-nas para pedalar.
Lembrei que, muitos anos atrás (não sei dizer quantos), empurrei minha bicicleta por quilômetros na Rodovia Anhanguera. À época, nem sei dizer se celular já existia como um item mais comum. Não me recordo de possuir um nesse tempo, talvez um bip (pager), o que é certeza que não existia eram os aplicativos de entrega de comida.
Minha caminhada ciclística (empurrando a magrela) se deu pois a bicicleta do amigo Tiago, que estava comigo, furou o pneu e ainda estávamos longe do Parque São Domingos, onde morávamos, na capital paulista. Aprendi com a vida que "quem vai junto, volta junto". Não o deixaria empurrando e viria no pedal. Assim foi. Anos depois, soube do falecimento do Tiago, por uma ex-dele, amiga em comum. Fechados os meus parênteses - assumo, extensos - desta história, volto a Osasco e aos garotos.
Pensei em quantas entregas teriam feito naquela noite que justificariam o claríssimo e aparente cansaço. Cheguei até a pensar se eles estariam com fome, o quanto isso elevaria à décima potência o grau de quão contraditória era a cena. Cogitei a possibilidade de ter ocorrido com eles o mesmo que com o Tiago e comigo, mudando só o local da cena. E o horário também, já que era plena madrugada e em minha visão, acompanhava o sol se pondo.
Eu passei por eles e pensei até em como ajudar, mas, convenhamos, como ofereceria qualquer ajuda? Como abordaria? Com certeza, estranhariam a generosidade. Eu, no lugar deles, estranharia também. E no mesmo instante que dei seta para a direita e mudei da faixa esquerda para a central, tomei um buzinaço de um carro logo atrás que me fez retomar a atenção somente na via, devido à barbeiragem que acabara de cometer, mudando de faixa na pista sem a devida observação ao retrovisor. O descuido, fruto do sono e até de um relaxamento devido ao horário de menos fluxo fizeram com que eu esquecesse esse fato e essa visão ali, na hora.
Ao relembrá-lo para escrevê-lo, posso ter carregado as palavras em algumas observações e despercebido detalhes da cena. Todavia, o que escrevo quase sempre começa em minha cabeça como uma pergunta que, muitas vezes, abre para outra, outra e mais outra.
Será que aqueles meninos ainda estavam longe de casa?
Será que a bike está boa pra ele trabalhar hoje?
Será que conseguiu descansar?
E muita gente se aborrece de descer o elevador pra receber a comida das mãos desse garoto.
quarta-feira, dezembro 30, 2020
O Inexplicável 2020
Nós retrocedemos e parece que esvaziamos todas as funções
básicas do nosso sistema operacional. O programa de texto não reconhece mais as
palavras. As planilhas começam a calcular errado. Os programas de desenhar e
pintar agora trabalham só com branco e preto. Jogamos fora muito além do que
precisávamos.
Surge, no Brasil, a pandemia. Junto com ela, ideias do
início do século passado voltam à tona. Sabe quando você está jogando um videogame
e já avançou muitas fases? Já vencemos batalhas, superamos etapas e quando já
estávamos bem à frente, foi como se a luz tivesse acabado e nosso jogo, que não
salvamos na memória, se perdeu. Vamos ter que começar do zero...
Em pleno ano de 2020, as vacinas viraram ponto de
interrogação. Institutos renomados mundialmente, como o Butantan, tiveram que
despender trabalho em se organizar para uma campanha massiva em rádio e
televisão para dizer: “Olha, a gente trabalha nisso há 101 anos, o mundo confia
no que a gente faz. Somos confiáveis, viu, população brasileira?”
Esse é só um dos exemplos. A internet deu voz para todos, inclusive para quem não tem o que falar. Mas, a necessidade de dizer algo é tanta que liga a câmera e vai. Só que nessa ida, leva muita gente de carona que engrossa o coro de quem nada tinha a acrescentar. A pretensão de julgar-se apto a elaborar teorias promove vozes que, sem propriedade alguma, levantam dúvidas e sugerem desconfiança. No final, isso só contribui para a incerteza e desqualificação de quem de fato deveria ser a referência e, acaba não sendo, pura e simplesmente porque a pessoa duvida e pronto. Por que duvida? Não tem um porque, só duvida mesmo. E reforça a estupidez questionando o direito que possui de duvidar.
Graças a sei lá o quê, o ano acaba amanhã. O que vai mudar?
Só o 1 do dígito final. As pessoas continuarão espelhadas na ignorância. E
quando digo ignorância, nesse caso, serve nos dois sentidos: o de
desconhecimento e o de rispidez. Afinal, essa ignorância é o que hoje nos
representa perante o mundo. Ao olhar para cá, pensam: o que será que aconteceu
com aquele Brasil do povo hospitaleiro e de calor humano?
A resposta é que aquele Brasil, de fato, nunca existiu.
Continuamos um país preconceituoso com a nossa própria cara. Continuamos um
país hipócrita, laico, de maioria cristã e que, se for pra vir um Cristo com a
imagem e semelhança de quem o diz representar aqui, segura aí, não vem, não.
Continuamos um país perigoso nas ruas e em casa, principalmente para mulheres,
meninas e crianças em geral. Continuamos sendo um país repleto de Bolsonaros ao
nosso redor. Sim, aquele seu tio do pavê que faz piada misógina, é um deles.
Aquele seu vizinho crente que bate na mulher, idem. Aquele dono de comércio com
nome de santo que assedia as funcionárias ou põe o segurança em total atenção
com clientes negros, também. Tudo isso é o Brasil. O país sem vacina.
Mas, em 2018, você apertou 17, táoquei? Ah, você não
apertou? Então, você é da turma que falou que políticos são todos iguais e
anulou? Espero que você tenha aprendido. Não acredito nisso, mas, torço. Eles
não são todos iguais. E a desigualdade deles reflete na nossa. Estamos
desiguais a boa parte do mundo, que começou a tentativa de salvar vidas. Ele
Não.
E daí? Não ligo pra isso – disse ele. E você também, quando
apertou o Confirma. Plantamos um laranjal. De lá, não se colhe maçãs.


