quinta-feira, outubro 31, 2024

A Face Racista da Bola

Na bola, já perdemos tanta coisa
Copas, competições, finais
Taças, amistoso, premiações
Nossos dribles eram diferenciais
O país do futebol perdeu o tempo da bola
O campo de terra não é mais escola
De improviso como era lá atrás
 
Num tapete preciso ninguém mais discute
Se saiu ou não nas laterais
A bola rola tanto fora do campo
Decisões, pra dizer pouco, imorais
Não importa mais o gol crucial
Nem títulos na galeria real
Outro degrau hoje importa mais
 
É claro, eles nunca dirão o motivo
Apenas preferências pessoais
Nem a camisa pesou o bastante
Com suas proporções mundiais
Há quem justifique comportamento
Que é violento, lacrador, mimizento
Esse negócio de pautas raciais
 
Só que vindo de onde vem
Socialmente em condições desleais
Aquela camisa 7 branca
Vista nos camelôs em varais
Era só sonho de criança
Hoje, seu nome a estampa
Nem assim, o branco é paz
 
Eu sei que na bola, já tivemos derrotas
Algumas até surreais
Temos perdido até nosso amarelo
A camisa se destacava das demais
É exatamente falando de cor,
Que a bola de ouro, a Balon D’Or
Armou seu time pra trás
 
Uma tática defensiva, conservadora
Num jogo de estratégias bem racionais
Como as seleções europeias antigamente
Tentavam copiar o que a gente faz
Ou fazia, em jogadas espetaculares
Mesmo ainda definindo placares
Nossos lugares não são iguais
 
São confederações, federações de toda Europa
Coniventes em esferas intercontinentais
Em plena Suíça, a FIFA se atrasa
Sob aplausos de eternos rivais
Sobrepõe-se um negócio que não se explica
Um sentimento como título que se unifica
E ninguém se prejudica nos tribunais
 
Realmente Vini, não é Junior o que você passa
Agressões, ofensas, ameaças verbais
Contra sua cor linda e retinta, que à camisa contrasta
Idêntico à letra preta que escreve brancos jornais
Só pra encerrar, era sua essa conquista
Marcou na bola, a face racista
Onde nessa estrofe, pus as letras iniciais

Cara da Madrugada

Depois de cumprida minha função
Voz e palavras, alegria e emoção
Entrei no carro, percorria uma avenida
Tive a atenção na via distraída
 
Reparei num bar já de porta abaixada
Long-necks nas mãos esquentavam
Uma mesa naquela vaga de calçada
Selfie sendo posicionada
Sorrisos se preparavam
 
No rádio, tocava Machuca Demais
Só Pra Contrariar
Eu só pensava em quantos casais
Quantos sozinhos em saudades individuais
Sentiam a canção machucar
 
Na mesma hora, pensei também
Em quem através do casco
Atrás do fardo
Parece bem
 
A noite na rua se vê de tudo
Numa escala de felicidade
Tem todos os graus se cruzando
Conforme a noite passa, vão trocando
Ideias, posições, intimidade
 
Num ponto de ônibus à frente, eu vi
A moça no colo do rapaz
Ele no traje do trampo, uniformizado
De branco, talvez, um açougue, bem capaz
 
Que o rapaz da moça era namorado
Sei lá, marido
No segundo que passei por eles,
Um selinho consentido
 
Em plena madrugada
Em meu retorno, no caminho
A rádio continuava
Com cara de madrugada
Com música de madrugada
Uma sequência inapelável
Por vinhetas da rádio emendada
 
Pra quem ouvisse lembrar
De uma época, de alguém que amou
Ou um amor presente aí contigo
Num aconchego, ao pé do ouvido
 
A música tocou
Meu carro passando
Naquele bar fechando
Aquela turma eternizando
Um story que se apagou

sexta-feira, outubro 18, 2024

Pra Que Tanta Foto?

Pra que tanta foto?
Ah, pra guardar a lembrança
Eu mesmo tinha na lembrança
Que tinha começado um poema assim:
Pra que tanta foto?
 
Mas, não achei
Não postei, não digitei
Mas, na minha lembrança
Eu tenho uma imagem
Num papel, de caneta azul escrito
Cheio de rabisco
Uma rascunhagem
 
Mas, a pergunta persiste:
Pra que tanta foto?
Pra fazer postagem
Os mais novos nem vão entender essa frase:
Lembra quando as fotos eram num filme?
12, 24, 36 poses
Era em pose a quantidade
Havia limite e autocontrole
 
Será que isso vale uma foto?
Hoje, tudo vale uma foto!
Sabe quando não se tira nenhuma?
Quando é algo de suma importância
E tão bom
Que nem vem na lembrança
Tirar foto alguma
Ninguém pergunta: vamos tirar uma foto?
 
Pra que tanta foto?
Se nem tem mais os albinhos da Kodak
Porta-retratos não têm mais lugar de destaque
Poses viraram Mega e Gigabytes
Pastas, microcards
Memórias quase infinitas
De tanta imagem que cabe
Nos celulares, fototecas e galerias
Ao encherem, viram links pro Drive
 
Fotos flutuam nas nuvens
Não olhamos nem uma nem outra
É tanta foto, de tanta coisa
Tremidas, desenquadradas
Na correria louca
Não vem na lembrança, apagá-las
 
Aí a gente abre
Arrasta, arrasta, arrasta
De tanto arrastar, dá tontura
Foto vídeo, download, captura
Você consegue organizar as pastas
E ter alguma ordem, estrutura?
Ou é só um monte de figura
Que essas, pelo menos,
o tempo não desgasta
 
Mas, também não bate sol
A gente mal bate o olho
Se de alguma foto bate saudade
A cansativa procura rebate
E nos perdemos no bolo
Nos perdemos no rolo (da câmera)
 
Não lembramos nem como procura...
Cronologicamente?
Pode ser, mas, logicamente, a gente se perde
É tanta foto e a gente nem percebe
A gente.
A lógica é que a gente não esquece
Os cliques da mente
Os cliques que as lentes não veem
Que as galerias digitais não têm
São as fotos que, de fato, duram pra sempre.

terça-feira, outubro 15, 2024

Como se mede o tempo?

Como se mede o tempo?
Pelo tempo que falta ou tempo vivido?
Há quem calcule em horas, minutos
Há quem nem calcula, pois é tempo perdido
Já que não se sabe o tempo restante
Põe na conta as fotos na estante
Cada sorriso, o tempo amarelou
As fotos de antes vão se embaçando
Nitidez e cores se misturando
O tempo exato ninguém marcou
 
São fotos mais ou menos de tal ano
Se nem o ano a gente consegue lembrar
Pra quê pressa pra tudo ser passado
Ao ponto de não poder escutar
A vida em velocidade real
A tecnologia nos fez achar normal
Acelerar vídeos e mensagens de voz
Ganha tempo, essa é a impressão
A fala perde toda inflexão
É um tanto faz tão atroz
 
Atrás de otimizar o tempo
Ninguém me diz como se mede
Como você repara que o tempo se foi?
Se nenhuma pausa se concede
Agora, eu vou te dizer como eu reparo
É pela mão do meu filho ao meu lado
Quando eu segurava aquela mãozinha
Ou ele a usava toda pra me segurar um dedo
Eu, ainda mais novo, morria de medo
De tudo que vinha
 
Mas, sabe como se mede o tempo?
É quando se repara na diminuição
Da distância proporcional
Da dele na minha mão
Os tamanhos vão se igualando
E vai passar, está se aproximando
Isso vale também pra altura
Pra beijar sua cabeça, eu abaixava
De cima pra baixo, olhava
Ainda te beijo, sem baixar a postura
 
E digo ainda... até você ter vergonha
Do pai querer ser carinhoso
Não sei quando o tempo vira essa chave
Vai doer, mas, eu vou entender, meu garoto
Sabe como mais se mede o tempo?
Quando a roupa é no mesmo departamento
E minha gaveta, percebo defasada
Minhas meias brancas, encardidas
Quando crianças, as claras eram proibidas
Pra patinar andando pela casa
 
Você nem liga que eu dou bronca
Você que está certo, fodam-se as meias brancas
Por mais que não vá esfrega-las no tanque
Meias nunca serão inteiras lembranças
O tempo, a gente não sabe o ponto final
Você já aprendeu sua conta ideal?
Afinal, cada um no seu tempo, mede o tempo pra si
Há tempos que queremos que dure uma vida, ou além
Há tempos que mostram quem é quem
Todo esse tempo me fez esse alguém que chegou até aqui
 
Por fim, pra não perder mais tempo
Nem são perdas usados em versos
Pauso
Encontros, áudios, cafés expressos
Expressos? Sentimentos ninguém expressa
A mais nenhum ouvido interessa
Tem tanta mensagem não dita
Em respiração, em silêncio
Fração de segundo, um tempo imenso
Se dor aflita grita e não se escuta... imagina escrita

segunda-feira, outubro 07, 2024

A Vida É Um Desequilíbrio

A vida é um desequilíbrio
Um descabido desacato
Descalabro é apelido
Desigual retrato

Era um equilibrista
Sobre um monociclo
No farol pra Autonomistas
O vermelho é o período

Era também malabarista
Girava um bambolê no pé
Embaixadinha, outra arte
Era tanta habilidade
Ainda vendo, não pus fé

O rapaz usava um chapéu
No amarelo se preparava
Fechou, começa o show
Que nenhuma palma escutava

Não sei se se virava nos trinta
Como no quadro da televisão
Não sei se o dia paga os 30
De trocado, mão em mão

A vida é um desequilíbrio, veio a frase
Eu olhando aquele artista
Na Salém Bechara com a Autonomista
Sem que ninguém se revoltasse
Sem que ninguém se perguntasse (ou orasse)
Pra que ele resista

Os temporais vão passar, eu já ouvi
Nesses dias, ele nem pode estar lá
Pode derrapar o pneu, o pino cair
O bambolê ou a bola na Primitiva rolar

Ah, mas, ele poderia estar num circo
Meu amigo, todos estamos e faz tempo
Sem essa de Respeitável Público
A plateia vive em sofrimento

Sem aplausos efusivos
Nem aos palhaços, gargalhada
A risada não tem sentido
Se nossa dor é a piada

A vida é um desequilíbrio
A gente arruma emprego, destrói o emocional
Física e mentalmente comprometidos
Corremos e vibramos positivos
Pra atrair o capital

Aí estabiliza no banco
Tá verdinho no aplicativo
Só que é no vermelho que se soma
Trocas, trocados e a vida truca!
Seis! Cês corre por juízo?
É do jogo o blefe, não a fuga
A vida é um desequilíbrio

quarta-feira, outubro 02, 2024

Acontece Poesia

Pra começar a contar
Não ando mais prevenido
Sempre tinha um caderno na bolsa
Pro caso d’um poema sentido
 
É... sentido... os versos estão aí pelo ar
Quem os enxergar , que canete
Aí peguei a folha na impressora do trampo
Antes que a mente o mote disperse
 
E, pensando agora, nem lembro da última vez
Que botei papel e caneta pra conversar
Faz tempo e é curioso
Parecia que a poesia flutuava em outro lugar
 
A gente não vinha se trombando
E nem é porque eu não queria
Cheguei até pensar que era idade
Naturalidade, ah, o tempo distancia
 
Mas, não era nada disso
De cabeça baixa, o raio é curto
Aí a poesia, mesmo ali em volta
E eu andando outro percurso
 
Sem visão panorâmica, periférica
Não sente nem o cheiro, nem escuta
E poesia tem tudo isso?
Quando te chamam de amor, um aroma de flor
O sabor de uma pele, a língua desfruta
 
Eu andava sem palavras
A todas essas delícias da vida
E esses dias, o que me lembrou de procurá-las
Foi uma bobagem assim percebida
 
Uma mesa pra família tomar café
Me passa a manteiga aí do seu lado
Meu filho, pela irmã acolhido
Amor, traz aquilo do mercado
 
A poesia ficou me lembrando
Dos encontros que sempre tivemos
Do quanto ela me alivia
Da dor desses tempos modernos
 
O buscar um pão é meu carinho
Minha rima traduzida em ato
No dia, a situação corriqueira
Quase nunca se faz retrato
 
Só que ao escrever, eternizo
Do café, o cheiro e a fumaça
O simples dia que amanhece
O dia inteiro acontece
Poesia
Diante dos meus olhos, passa
 
Às vezes, tudo bem, a gente não vê
Esquecido na caneca, o café esfria
Pro céu, nada muda se eu não olhar
O sol nunca será ou foi escuridão
Mesmo quando eu não o via